Como viver com conflitos?

Uma das razões por gostar tanto de comprar livros em sebo, é que às vezes eles nos reservam surpresas especiais. Uma folha amarelada, uma dedicatória perdida, uma assinatura antiga. Livros que não vem do plástico chegam com histórias que transcendem o texto, deixam dicas sobre quem leu, pequenos sinais que dão características próprias às folhas. Impressões de almas que se manifestam nos pingos de café que ficaram, nas marcas de dedo, um rasgão aqui, uma sublinhada lá; impressões que agora se misturam ao texto e falam igual, ou mais do que as palavras. Ontem no avião, lendo um livro, encontrei um papelzinho envelhecido e dobrado. Não sei se era um lembrete para quem escreveu ou um recado para quem leria, mas faço questão de ampliar a mensagem, simples, bem humorada e doce. :-) Desdobrei e tirei a foto: “Como viver com conflitos? Coma bombons coma amor!”

coma bombom

O apego…

Você pode pensar que “se apegou” a alguém. Isso é impossível. O apego está ligado à sua insegurança, aos seus medos, vazios, que se projetam em alguém.
Você não está preso à pessoa, mas em si mesmo. Podem ser pais, amigos, marido, esposa, filhos, até o cachorro. Conheço uma mulher com quase 40 anos que trata seu bicho de pelúcia como filho. O apego não está no bicho, mas nos vazios dela. O bicho só recebe essa carga. Ela não precisa se livrar do bichinho, mas encarar seus vazios.

Flavio o que acha desse proverbio? : “para saber se a pessoa é um buda ou um demônio, procure saber se ela tem algum desejo por sexo ou cobiça de dinheiro.”

Prezado Flávio,
Você tem algum post sobre sexo? Pergunto isso porque li um provérbio budista que diz:
“para saber se a pessoa é um buda ou um demônio, procure saber se ela tem algum desejo por sexo ou cobiça de dinheiro.”
Achei isso fanatismo religioso, mas estive pensando: aqueles caras que foram executados na Indonésia não estavam atrás de sexo/dinheiro?

Resposta: Não acho que o problema esteja no sexo ou no dinheiro, mas no que fazemos com eles. O provérbio que citou fala sobre o “desejo” e a “cobiça”, eu vincularia as palavras: desejo cobiçoso.

Isso porque, assim como o sexo ou o dinheiro, “desejo” não é necessariamente mau. Faz parte de nossa natureza desejar e, se desenvolvermos habilidade de projetar significado, inclusive nos desejos, fará bem.

Sexo e dinheiro não carregam nenhum tipo de energia, negativa ou positiva. Assim como a comida, os prazeres, as experiências de maneira geral. Elas falam aquilo que dizemos à elas, refletem o que somos. Portanto, a questão é: meu olhar projeta cobiça? Na minha opinião a raiz da cobiça não é o desejo, mas a insegurança que se projeta na necessidade de ter para mascarar o que não quero ver.

Nesse caso, tudo que é fruto de cobiça promoverá distorções, até a caridade, até a doação, até a devoção, caso eu dê, doe, ou devote em troca de algo, barganha mascarada de piedade.

Quanto aos homens recentemente executados na Indonésia, não posso dizer o que lhes movia, isso só eles sabiam ( e olhe lá!). De qualquer forma, ainda que a justificativa fosse na direção do sexo e dinheiro, indo um pouco mais longe, não me satisfazendo com isso e adicionando um “por que?” talvez percebêssemos que “sexo” e “dinheiro” são apenas símbolos que nos faz acreditar que, ao possuí-los, seremos finalmente “alguma coisa”. Já somos e exatamente por isso não é necessário que nada nos legitime.

Por fim, não gosto dessa coisa de que uns são “budas” outros “demônios”.  Somos todos gente com altos e baixos, idas e vindas, sombras e luzes, corpos que abrigam o bem e o mal, todos dizendo a mesma coisa, as mesmas causas, caminhos diferentes para reencontrarmos o caminho de casa.

Tudo, inclusive o sexo e o dinheiro, pode ser bom. Tudo, inclusive o sexo e o dinheiro, pode ser mau. É o seu olhar que projeta significado em todas as coisas.

Caminhando para o deixar de ser

Que a gente tenha sensibilidade para ouvir o que nossa alma diz, e o que estamos nos transformando sempre. Estamos em constante movimento e é ideal que assim seja. Somos seres do caminho, jamais do destino. É preciso coragem para reconhecer isso. Abaixo um trecho de reflexão sobre o assunto em meu programa de rádio. Fique bem !

Escolher pela pacificação

Veja como nossas sociedades se organizam sobre a tal luta pela sobrevivência, supervalorizando o “deus” mercado, permitindo que a economia fundamente nossas “castas” e hierarquias, formatando mentes, fundamentando valores, doutrinando jovens que passarão a vida tentando adequar-se a um sistema que poderá premiá-los, quem sabe, ungindo-os como fieis e valorosos soldados.

Quem vive preocupado com a própria sobrevivência não sente, não cria, não pensa, não vê. Ou você acha que existe outra razão para que as tais preocupações sempre estejam na pauta de quem cria as causas que ocuparão nossas mentes?

Precisamos retomar a dimensão da simplicidade, que não está em nada, não é uma meta a ser conquistada porque é um estágio interior. Não está fora, jamais estará, mas dentro. Você não tem mais problemas do que as outras pessoas, não se auto vitimize, apenas enxergue como reclama demais, grita demais, sofre além do necessário. É por isso que não consegue ver.

Pare de se pre-ocupar. Suas preocupações não resolverão nada. Pare. Entregue-se a fluxo natural que encaminha todas as coisas , eloquente em significados, sábio em cada desfecho. Com o tempo tudo ficará claro e a paz será seu árbitro, mas, agora é importante que entenda: enquanto andar preocupado estará mais distante de enxergar as soluções. Permanecerá confuso em seus próprios devaneios.
Independente dos cenários, pacificar-se é uma escolha sua, um caminho que pode ser seu.