Avessos

Intransigências revelam o que somos.

O ser moralista, dedo em riste, defendendo raivosamente “a família” e os “bons costumes” expõe seu íntimo, seus conflitos, contradições, na tentativa de compensar na imagem o descompasso de dentro.

Pior quando o radicalismo é institucionalizado e vira bandeira ideológica.

Seja em “donos da verdade” que atacam, criticam e se colocam como “reserva moral”, ou movimentos de minorias que se articulam , cheios de ódio, tentando impor o que deveria ser fruto de consciência. O ódio sobre a consciência.

Sem consciência restam a casca, a aparência, os gritos, o avesso. Auto afirmam-se no que acusam. Avessos.

O ódio nasce das paixões.

Abominação se vincula a admiração.

Perseguições são confissões de quem combate no outro o que identifica em si mesmo, mas não tem coragem de encarar.

Proferiu sua própria condenação.

É preciso enxergar-se, nem que seja apenas por auto preservação.

Melhor ficar calado do que deixar tão evidente que você é exatamente o contrário do que tenta aparentar. O avesso da imagem de fora, da cara para consumo externo, da aparência que só convence quem não quer ver.

Quase não vemos

Só enxergamos a superfície. Quase não vemos a conexão entre acontecimentos, o quanto se vinculam, complementando-se, provocando desencadeamentos de situações que jamais teremos acesso. Por isso é melhor não ter pressa em julgar nada. Cada evento carrega bilhões de possibilidades. Nós, com nossa mente condicionada, só percebemos uma, duas, três no máximo.

Cuidado!

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Cuidado com o que escrevo. Não me proponho a levantar seu astral, dizer que você nasceu para brilhar e que, se seguir minhas orientações, terá sucesso financeiro. Pelo contrário. Se prestar atenção, é provável que no começo a sensação de desconforto substitua o que antes parecia adequação. Falo sobre a necessidade de não permitir formatar-se pelas formas da sociedade.

Cuidado com o que escrevo. Não tenho intenção em afirmar superioridades religiosas, morais, intelectuais, acho tudo isso besteira. Pelo contrário. Se prestar atenção, é provável que comece a questionar o que aparenta ser de concreto, mas não resiste ao sopro da consciência. Falo sobre a necessidade de ser livre, pensar por si mesmo, questionar-se para finalmente enxergar.

Cuidado com o que escrevo. Não sigo nenhum tipo de cartilha pronta, nenhum manual, nem promovo nenhuma espécie de sistema de formatação do pensamento. Pelo contrário. Se prestar atenção é provável que logo esteja desconfortável diante de toda tentativa de aprisionar mentes e submete-las a dogmas que apenas fragmentam. Falo sobre a necessidade de aquietar-se para perceber, transcender os ruídos que as cartilhas propõe e finalmente pacificar-se.

Cuidado com o que escrevo. Se estiver procurando um grande mestre iluminado que sabe mais do que todos, que se propõe a ser luz no caminho, esqueça. Pelo contrário. Falo sobre a necessidade de trilhar seu próprio caminho em humanidade, andar com as próprias pernas, ser mestre de si mesmo. Coloco-me como amigo que caminha junto e compartilha sua própria percepção que não é e jamais será absoluta. Sou fragmentado como você e tudo o que vejo é com parcialidade.

Creio que todos estamos compartilhando uma grande experiência que não pode ser desperdiçada. Ela fica mais fácil enquanto nos propormos a caminhar juntos, ajudando uns aos outros em simplicidade, expostos às inevitáveis desconstruções, doloridas tantas vezes, nos livrarmos das muletas, dos medos, das culpas.

Nenhum de nós sabe amar de verdade. Tudo o que chamamos de amor é um pedacinho, um pálido reflexo do que somos, de onde viemos, para onde vamos, o que somos e não vemos, o que nos preenche silenciosamente, o que nos envolve, ainda que não percebamos.

Cuidado com o que escrevo, especialmente se lê tentando legitimar-se, procurando algum tipo de confirmação para o que promove sentimento de superioridade, se pensa que terá fórmulas mágicas ou frases de impacto, se espera que eu confirme o que seu mestre ou sacerdote dizem. Se vier com essa intenção, certamente ficará bravo ou confuso porque me permito o direito de pensar, de dizer o que vejo, de propor conforme minha própria experiência. Sugiro que faça o mesmo.

Reconheço que meus textos podem gerar desconforto em gente que virá se defender na tentativa de evitar enxergar-se. Haverá os que piedosamente exortarão aos leitores para se precaverem, defenderão a si mesmos com seus escudos de sempre, mas a esses poupo o trabalho: Vocês tem razão!

O que escrevo pode ser muito perigoso e os efeitos costumam ser bem diferentes das aspirinas que tomam, portanto, se não está disposto a começar por si mesmo, confrontando sua versão para consumo com o que de fato você é, melhor ter cuidado, o que escrevo pode ser muito perigoso.

À caminho de ser

Hoje sou confrontado com minhas ambivalências. Sinto as contradições presentes em minhas escolhas, quando sou quem acho que não seria, quando encontro descompassos entre o que estou sendo e o que penso ser, entre o agir e o querer, entre o mundo que cresce para o lado de dentro e o mundo que vivo no lado de fora. Não sei amar, mas tento praticá-lo.

Não sei perdoar, mas todos os dias tenho oportunidades de exerce-lo.

Não sei ser bom, e a vida me enche de chances para que eu seja.

Não sou humilde, mas seria tolo se não admitisse que a falta de humildade mata; por isso exercito, por isso caminho, por isso, quando me canso, sei que logo me renovo e então prossigo. Vivo hoje a chance de dar mais um passo, de experimentar um pouco mais, de perceber, de enxergar, de ser quem de fato sou.

A morte do amor

Matamos o amor quando deixamos de ouvi-lo. Somos assim, desatentos.
Temos pressa, temos sede, temos medo. Medo de assumir o que somos, de cumprir nossos prazos, enfrentar nossos monstros.

Fugimos. Melhor seguir a manada, ordens de comando, apelos que nos desviam do caminho de casa até que a distância se imponha e deixemos de ouvir. Matamos o amor quando deixamos de ouvi-lo.

Surdos, transformamos nosso amor em distâncias. Desconfortáveis pausas. Corpos sem presença, sem coragem, sem a necessária consciência de que para o amor continuar, às vezes é preciso mudar. Aprender a abrir mão.

Para que carinho e respeito não se transformem em sufocamento e desprezo. Para que espontaneidade e alegria não cedam lugar a sobrecarga. Para que um não mate no outro a alegria de viver.

Amor é alegria de viver. É traçar o caminho da paz, ainda que haja tropeços, mesmo quando as luzes se apagam, mas ouvimos, atentos ao que nos demanda, conscientes de suas necessárias podas para que ele não vire outra coisa; não morra porque deixamos de ouvi-lo.

O começo das revoluções

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Onde começam as revoluções? Olhando historicamente identificaremos a tomada de um espaço, o rompimento de países, o descontentamento de um setor que termina em mudanças radicais.

Na maioria dos casos é possível traçar no caminho um ponto de partida, o start de algo maior que adiante será chamado de revolução.

No entanto, quem pode saber ao certo? Antes do primeiro evento histórico houve uma sucessão de pequenas coisas que se tocaram, coincidências, movimentos tão sutis que jamais seriam capturados pela lente da história.

Uma dona de casa socada no tanque de lavar, infeliz, sente naquela manhã nublada que definitivamente está tudo errado. Já era um incômodo antigo, mas a indiferença do marido e agora dos filhos repercutiram com mais intensidade depois de passar a noite anterior esperando em vão que alguém lembrasse o seu aniversário. A dona de casa jamais saberá que sua insatisfação se projetará em pequenas escolhas, em distanciamentos lentos, mudanças de posturas que interferirão na rotina de gente que será tocada por isso. Todos são. Sempre.

Ela nunca saberá que as emoções sofridas, especialmente as mais intensas naquela manhã nublada, desencadeariam uma sucessão de coisinhas pequenas, e outras, e mais outras que mexeriam em humores, interfeririam em rotinas, alterariam caminhos com extrema sutileza, até que, adiante, sutilezas gerando sutilezas, chegariam naquele ponto onde a história identificou como o start da revolução.

Foi a dona de casa. Foi o marido. Foram os filhos. Foi o que levou cada personagem a fazer suas escolhas. Foram todos que jamais saberão.

Nenhum de nós pode enxergar até onde nossas escolhas irão. Se ficarmos atentos veremos o que estiver imediatamente perto e mesmo assim dificilmente prestaremos atenção.

Seja quando ocupo um espaço físico que outro deixou de ocupar, quanto me atraso alguns segundos, quando olho para cá ao invés de para lá, o que falo, o que penso, o que faço, o que sou desencadeando reações, reposicionamentos, escolhas que provocam outras, que mexe com gente que não faço ideia, até que adiante se transforme em algo maior.

Mas não tenho controle sobre isso. O que posso é seguir atento consciente que sou como um semeador. Minhas escolhas são como sementes que o vento espalha. Algumas se transformarão em árvores lindas, outras morrerão, cairão em terras improdutivas.

Somos todos responsáveis de alguma maneira e projetamos um desencadeamento de pequenos movimentos históricos que refletirão adiante, nos transformando em participantes de eventos que olhamos de longe sem cogitar que saiu da gente também.

Não são os marcos históricos, muito menos os pontos de partida identificados por quem conta depois que aconteceu. Nossa história é a história de cada escolha, cada humano que está ou esteve aqui, mesmo os que viveram sem enxergar sentido em nada, com o gosto amargo da insignificância, lamentando a indiferença de gente amada. Como a dona de casa que morreu amargurada sem saber que naquela manhã nublada, naquele tanque, naquele instante, uma revolução estava nascendo.