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Quando criança eu tinha curiosidade para saber o que acontecia com as coisas enquanto não olhava para elas. Por exemplo: Será que o vaso sobre a mesa da sala permanecia do mesmo jeito enquanto eu estava no quarto? E a sala, continuava sendo sala ou simplesmente se desintegrava até que ouvisse os passos de alguém e, ploft, se recompusesse como mágica?

E se algo parecido acontecesse com as pessoas? Meus amigos, meus pais, meus irmãos, todos que só ganhavam vida na hora em que eu olhava. Enquanto não os visse, eram habitantes da minha imaginação, caminhavam em minhas memórias, existiam apenas nas lembranças, todos esperando por um olhar que lhes desse vida.

Um olhar que lhes desse vida. Naquele tempo eu desconfiava que o mundo poderia ser um enorme vazio preenchido apenas pelo olhar do observador. Nada existia até que a presença projetasse vida, tudo passaria a existir somente enquanto observado.

Se eu tivesse razão, a vida inteira seria um como um jogo. Quase como se estivéssemos em uma dimensão qualquer, talvez em outros corpos, outro tempo, quem sabe dormindo e sonhando com essa vida, um sonho que parecesse durar a idade que temos, mas apenas um sonho. E se de repente, no dia de nossa morte, simplesmente acordássemos nessa tal dimensão pensando “que sonho maluco!”.

Com o tempo formei outras convicções. Aprendi que isso é coisa de criança, um completo delírio que jamais poderia ser alimentado por um adulto. Talvez essa ideia realmente não caiba na mente de um adulto. Talvez.

Seja como for, preciso confessar que intimamente não deixei de considerar essa possibilidade, a de que um dia acordaremos com clareza de tudo, a convicção de que a experiencia da vida foi uma projeção interior, cheia de símbolos, como se nós mesmos estivéssemos criando os ambientes, as pessoas, as situações, as emoções, tudo o que não existiria se não fosse projetado pelo olhar.

Seria como o vaso da mesa da sala, a sala que se materializava, as pessoas, apenas memórias esperando serem vistas, inexistentes até que um olhar lhes desse vida.

Morrer para viver

julho 31, 2014

Abrir mão é assumir-se impermanente. Rendição à corrente das águas, ao mistério da vida, ao fluxo da graça que destrói e refaz, nos cerca e dá a perspectiva do tempo e de tudo o que ele nos leva, nos traz, nos faz aprender que, para que a vida se renove, é preciso esvaziar-se, morrer para viver.

Me perguntaram até que ponto é possível viver sem buscar “fora”, afinal, os relacionamentos, o trabalho, lazer, tudo está “fora”, então, como é isso? Essa confusão é frequente.

Percebemos o mundo fora de nós. Você tem razão. As pessoas, os lugares, os acontecimentos que tantas vezes aparentam impor uma realidade independente de nossa vontade. Fora, é lá que o mundo existe, pelo menos aparentemente.

A ressalva é fundamental por uma simples razão: Já que o mundo acontece fora da gente, qual interpretação é a correta? Duas pessoas lidando com o mesmo acontecimento projetarão duas interpretações diferentes. Isso se multiplica conforme a quantidade de mentes, cada uma em sua perspectiva, cada olhar gerando a própria realidade.

O mundo de fora muda sempre que muda o observador.

O observador. Aquele que define para si o que de fato é realidade a partir das experiências pessoais e do quanto é capaz de vincular umas às outras, projetando significados. A “realidade” de fora se relativiza diante do significado produzido pelo observador.

Agora, acontecimentos se transformam em códigos abertos, sempre expostos a interpretação de quem vê. Olho para fora e, baseado no que sou digo “é isso”, “é aquilo”, “é por isso”, “é justo”, “é injusto”, “é bom”, “é mau” e, com isso exponho meu lado de dentro. Me revelo.

O mundo de fora só existe para mim por que há o mundo de dentro, o que sou, como vejo, como sinto os acontecimentos.

Buscar “fora” é viver na tentativa de encontrar significados inerentes aos acontecimentos, como se cada um impusesse por si só uma única leitura e coubesse a cada humano simplesmente se adequar, independentemente das próprias experiências, todos, uns diferentes dos outros, encaixando-se em uma realidade fixa, autônoma e arbitrária.

Buscar “dentro” é a habilidade de decodificar acontecimentos, interpretando-os a partir do que me habita, enxergando minha interioridade revelada nos significados que produzo. Nós não enxergamos a realidade, até porque o numero de realidades é a somatória de mentes que  interpretam. Nós apenas nos enxergamos no mundo que aparenta estar fora, mas o mundo é uma construção interior.

O jeito como vê, seja para o bem ou para o mal, indica como está seu mundo. Ele modifica sempre que você se modifica, cresce, diminui, nasce ou morre conforme as mesma dinâmicas se alteram em seu olhar. O olhar do observador, de quem projeta a si mesmo nos acontecimentos e chama cada um deles pelos nomes que lhe habitam. O mundo de dentro, o mundo que é.

Trecho do programa Mensagens que chegam pela manhã. Seg à sex 07h00 às 09h00, sáb 08h00 ao vivo com Flavio Siqueira. Reprises 20h diariamente. – Comunicação, espiritualidade, gente – http://www.webradiovagalume.comcontato@webradiovagalume.com

Dia desses escrevi sobre desapego. Houve quem, incomodado, me escreveu perguntando: “Como desapegar das pessoas que amo? Você sugere que eu abandone pais, cônjuge, filhos… Isso é desapego?”. Senti necessidade de tocar no assunto novamente.

Amor é uma coisa, apego é outra. No primeiro caso, a base é a liberdade. No segundo, o sufocamento, o auto engano.
Quem ama enxerga. Discerne a hora de ir, voltar, dizer, calar. Amar implica em ser sábio, paciente para maturação dos processos. É preciso ter calma para entender o tempo de cada coisa. É preciso ter calma e enxergar-se.

Há situações difíceis envolvendo pessoas que se amam. Pais que sobrecarregam os filhos, cônjuges que não se respeitam mais, amigos que não se perdoaram, gente vinculada por alguma magoa, pesada como uma corrente presa aos pés, tropeçando, caindo, tentando levantar.

Desapego é livrar-se da corrente, jamais das pessoas.

Pode ser preciso afastar-se por um tempo para se recuperar, ter seu próprio espaço, mudar de ambiente. Talvez seja o contrário, hora de aproximar-se, diminuindo a distância que gerou o mal entendido, quem sabe uma conversa franca e aberta seja suficiente? Não há fórmulas prontas. Apenas livre-se das correntes e saberá o que fazer. Isso é desapego.

Você pode pensar que “se apegou” à alguém. Isso é impossível. O apego está ligado à sua insegurança, aos seus medos, vazios, que se projetam em alguém.

Você não está preso à pessoa, mas em si mesmo. Podem ser pais, amigos, marido, esposa, filhos, até o cachorro. Conheço uma mulher com quase 40 anos que trata seu bicho de pelúcia como filho. O apego não está no bicho, mas nos vazios dela. O bicho só recebe essa carga. Ela não precisa se livrar do bichinho, mas encarar seus vazios.

Desapego é abrir mão do excesso. É a coragem de enxergar-se nos maus entendidos, assumir sua responsabilidade nos desgastes, repensar até que ponto tem contribuído para que as coisas estejam fora de controle. É livrar-se da corrente e prosseguir com leveza, em amor.

Amor gera auto crítica porque amor é consciência. É a gênese das desconstruções, do livrar-se da sobrecarga, do silêncio necessário para entender as causas, enxergar aonde tem errado, ter coragem para abrir mão do que precisa ficar para trás.

Jamais abandone as pessoas, ainda que em alguns casos a distância seja necessária. Jamais se omita diante da necessidade de alguém, mesmo que existam situações aonde o silêncio é mais eloquente. Nunca mate outro ser humano dentro de você, mesmo que seja importante afastar-se.

Desapego é enxergar-se no que te aflige, seja o que for, abrir mão do sentimento de vítima, entender aonde alimenta os processos e assumir que não precisa ser assim. É pacificar-se e prosseguir, amando as pessoas em liberdade, deixando as correntes pelo caminho.

Uma professora preocupada

julho 29, 2014

O texto que publiquei hoje de manhã foi uma resposta à mensagem que uma professora preocupada me enviou. Infelizmente não se trata apenas da experiência dela ou algo pontual, mas algo quase generalizado. Com autorização, reproduzo a mensagem pra nossa reflexão:

“Voltei há poucos dias, de uma experiência muito bacana como monitora de um grupo de 30 crianças. Viajamos durante 15 dias desde Espanha até uma pequena cidade no sul da Inglaterra para que eles pudessem praticar o idioma Inglês.
Como experiência pessoal, foi bem legal. Experimentei ter mais paciência, mais amor incondicional, entrei em contato com minhas sombras, etc…
Mas, o quero compartilhar é o que vi nas crianças e me chocou.
Acho que é um conjunto de fatores: falta de educação emocional tanto em casa, como nas escolas. Claro, que vi honrosas e lindas exceções, mas no geral, foi assim:
Crianças frágeis emocional e fisicamente.
Dependentes químicas (tinham entre 9 e 13 anos)
Viciadas em celulares e afins.
Estávamos em uma escola/internato, tipo Harry Porter, com um espaço tão lindo e tão grande, repleto de coelhos e cachorros soltos pelo campus. Quadras para praticar vôlei, futebol, tênis, piscina, área verde a perder de vista e ainda tivemos sorte em ter muito sol na Inglaterra!
Pois, os crios, só reclamavam todo o tempo, sempre em um tempo futuro ou passado, nunca no presente. Quando estávamos indo à algum lugar, primeira pergunta: Quando chegamos? Quando chegávamos: Quando voltamos?
Quando estávamos no campus, queriam estar sempre nos quartos, pois ali, tinham acesso a internet, e o sol lá fora lindooooo, grande, convidando à brincadeiras e ser feliz.
E, não, não é culpa dos monitores. Fizemos brincadeiras, tivemos planos, subimos em árvores… Quando subimos, algumas crianças perguntaram: Como vcs fazem isso?
Flavio, já viste uma criança que não sabe como subir em árvore?
Agora, se íamos visitar alguma cidade perto, logo perguntavam: Têm lojas ali? Podemos comprar?
Comemos super bem, no colégio, tinha uma equipe de cozinha ótima… Nas pesquisas que fizemos, a maioria dos alunos, reclamou da comida. Quando íamos à cidade, compravam vários embutidos, comida artificial, etc…. e, se sentiam felizes.
Não gostavam de caminhar, tinham dor em todas as partes e pediam logo remédios: Cadê minha aspirina?
Eu dizia: Bebe água, come algo, descansa e se depois disso tudo, ainda sentir dor, damos remédio…
Não! Quero minha medicina já…. ( 9 e 13 anos…)
Flavio, não quero que penses que as crianças eram más, doidas ou algo assim… nada, super lindas, simpáticas e tal….
Mas, perderam ou nunca souberam como ser crianças ou se divertir.
Senti tanta fragilidade, tanta solidão. Não sabiam falar em público, super dependentes. Entediadas!
Fiquei triste em ver nas crianças, aspectos de adultos…
Por isso, fiquei feliz quando hoje, li o post que a educação emocional está sendo implantada nas escolas.
Nos últimos dias, podíamos escolher entre ficar fora brincando no campus ou no Lounge (onde tem vídeo-jogos e internet) Adivinha onde eles escolheram?
Onde estão os índigos, os cristais?
Vi, pouquíssimos.
Enfim, isso queria dizer.
Só um relato de uma professora preocupada.”

Nossas crianças refletem o que somos. Eles somatizam na indiferença com a natureza, a hipocondria, os medos, e, sobretudo, o apego a virtualidade, os males que nós mesmos alimentamos.

É nossa pressa impressa em seus olhinhos tão precocemente distraídos, nossa falta de atenção refletida no mundo falso que querem viver, nossa ganância que recai sobre eles e faz com que se sintam solitários, vazios.

Cuidar de uma criança é uma incrível experiência, porque, nem que seja por amor a eles, somos obrigados a nos enxergarmos.

Por enquanto é para nós que olham. Não é o que digo, não são os “sermões”, mas o que sou. Sempre que me salvo, salvo uma criança. Salvo a minha criança em mim, no que sou, no que estou me tornando e se projeta adiante, neles.

Também sei que é preciso considerar nossa cultura. Crianças são expostas à cultura, influenciadas por ela, tem sua própria personalidade, suas tendências, dificuldades e nem sempre refletirão exatamente o que os pais tentam ensinar. Há beleza nisso.

São seres autônomos vivendo as próprias experiências, crescendo, aprendendo, tirando suas conclusões. Por isso nem tudo o que penso ser bom faz bem à eles.

É fácil perceber quantos pais excelentes sofrem com filhos “perdidos”, que aparentemente escolhem um caminho completamente diferente do que foi ensinado. Mas confesso que particularmente tenho uma esperança: ainda que nossa influência tenha limites, mesmo que, a partir de certo ponto da caminhada, cada humano tenha que escolher por si mesmo, acredito que podemos, como pais, professores, responsáveis por uma criança, ajudá-los a preparar a terra aonde tudo será plantado.

São eles que escolherão quais serão as árvores, que tipo de frutos, o aspecto do jardim, do pomar, nisso não podemos interferir. Mas podemos, através do exemplo, da verdade expressa nos cuidados, no amor, grave muitas vezes, prepararmos o solo, a boa terra que no tempo certo corresponderá o árduo trabalho do lavrador.

Enquanto isso, cuidemos de nossas crianças em nós mesmos, cuidemos do que temos nos tornado, sejamos humanos também por eles, para eles, em amor, para que nenhum dos filhos se esqueça de onde veio, para que, com o tempo, assim como nós, um dia descubram quem são. Esse é o mundo que estamos construindo. Nosso maior legado. Nosso caminho, e o deles também.

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