Escrito por mim em 2006 para o Tudo Radio. No texto falo para o profissional de rádio , mas vale pra qualquer área.
Caminhos e descaminhos
Sempre gostei de aprender.
Não de maneira forçada com didática imposta e muitas vezes arcaica, mas quando o aprendizado vem como experiência, fruto de situações ou circunstâncias de vida, tudo fica mais fácil.
Talvez seja essa a fórmula dos auto didatas: não ter a obrigação de saber. Aprender como consequencia.
Nem sempre você perceberá que ali tem uma lição, que depois dessa aprenderá, mas engraçado como, com o passar do tempo, determinadas situações voltam até como pano de fundo pra determinar que chegou a hora de usar a experiência de outros tempos já quase apagados da memória.
Na vida a gente aprende o tempo todo e feliz aquele que sabe disso.
Uma das épocas que mais aprendi, foi quando decidi ensinar.
Durante alguns anos levei a frente um sonho de formar profissionais.
A idéia não era habilitar tecnicamente ( já que eu não poderia dar o DRT), mas trocar experiências, apontar possiveis caminhos ou provaveis desvios de rota.
Além das gravações, da analise da locução, conversávamos.
Eu contava sobre experiências vividas nas rádios, ouvia sobre os sonhos deles e todos aprendiamos.
Nessa época mantinhamos um programa em uma rádio aqui de São Paulo onde era proporcionado aos alunos a oportunidade de ter sua primeira experiencia com o rádio.
Eles participavam do programa de diversas maneiras.
Desde expectadores, até entrevistadores, locutores, humoristas….
Levava-mos gente do rádio ou da tv pra contar sobre sua carreira, suas lutas, seus planos.
Saíamos de lá com a alma lavada e a sensação de que sempre haveria a possibilidade de crescer, amadurecer, subir um degrau a mais.
Em uma dessas entrevistas, o convidado foi um reconhecido profissional do rádio.
Você certamente já ouviu falar o nome dele.
Após grandes emissoras, muita visibilidade, sucesso, dinheiro, ele vivia um mau momento.
Já não recebia convites, o dinheiro escasso e não restava opção a não ser em trabalhar em uma pequena rádio religiosa.
Saindo da entrevista, dei uma carona pra ele e perguntei porque se submetia a isso. Tudo bem que os tempos eram outros, mas sentia nele uma certa acomodação diante dos anos.
A resposta foi a seguinte: ” Mas lá é bom ! Recebo meu salario ( baixo por sinal) em dia, tenho beneficio da cesta basica e ta tudo certo”.
Me incomodou ouvir isso.
Pouco depois ele foi demitido e , até onde sei, hoje se vira fazendo bicos com gravações aqui ou ali.
No meu banco de carona não estava um principiante que muitas vezes deve se submeter a determinadas situações até pra acumulo de experiencia, curriculo etc…
Ainda que fosse por falta momentanea de opção….
Quando é assim o profissional se submete a determinados trabalhos até que uma porta melhor se abra. Normal, pode acontecer com qualquer um.
Mas o caso era acomodação!
Voltei pra casa naquela noite pensando nisso.
Até que ponto grande parte dos nossos problemas vem daí?
Disse no começo do texto que gosto de aprender e isso inclui refletir em determindas situações pra tirar lições.
Ainda hoje penso naquela conversa e aprendi algumas coisas:
Quando começamos no rádio , sonhamos em trabalhar em determinada emissora, determinado salário, em sermos reconhecidos pelo mercado.
“Chegará o dia em que o pessoal das rádios me conhecerá. Serei um nome reconhecido em todo o país”, pensam muitos.
Um dia isso acontece.
Você trabalha nas rádios que gostaria, carrega reconhecimento no nome e gente de rádio do país todo sabe quem você é.
Mas você ja parou pra pensar no ” e depois disso” ?
Esse é o problema.
Quanta gente boa que fez tanta coisa no (e pro) rádio ta aí parado, sem mercado e a contragosto tentando a sorte em outras áreas.
O mercado é injusto ! – Muitos poderiam dizer.
Realmente reconhecimento é artigo escasso no mercado, mas não da pra nos limitarmos nisso.
Talvez a culpa seja nossa, e sabe por que?
Porque durante a caminhada, nos esquecemos que não podemos parar.
Isso significa que não existe o “ultimo estágio”.
Você pode até chegar onde sonha, mas se ao chegar sentar e ficar olhando deslumbrado pra tudo o que fez, esperando reverência e reconhecimento de todos, sinto lhe dizer, mas o próximo passo é pra baixo.
Quando você para, por mais distante que possa estar, alguem te ultrapassa.
Você pode estar a leguas de distancia dos outros, mas eles também caminham até chegar o momento em que te ultrapassarão.
E quando você ficar pra trás, será visto como decadente e ninguem quer um “decadente” por perto.
Quando isso começar a acontecer, virá a indignação.
“Como não percebem meu brilho? Como não me reverenciam mais? Não entendem que sou o fulano de tal que cheguei até aqui?.”
Nesse estágio a nostalgia misturada com mágoa e desilusão se instala.
É hora de mudar de ramo e sair falando mal.
Entende o que quero dizer?
Na nossa profissão não existe cargo vitalicio ( que bom ! ). Só seus meritos justificam a permanencia pelo maior tempo possivel no que você considera o ” auge”, mas saiba ; outros também buscam o “auge” e vai chegar a hora em que haverá troca de posto.
Quando essa hora chegar, pra onde você vai?
Essa análise sobre o estágio em que estamos na carreira deve ser uma constante.
Não pare nunca !
Um dos lados bons em trabalhar no rádio, é que aqui você tem um leque de contatos e opções que te possibilitam experimentar outros rumos, ainda que dentro do mesmo veículo - rádio.
Já era assim no passado e será cada dia mais, ja que vivemos em tempo de digitalização com mudanças acontecendo o tempo todo.
Mudam os ouvintes e a maneira de comunicar, mudam os profissionais e o jeito de fazer rádio.
Isso requer constante reciclagem e eventuais quebras de conceitos.
Você tem 10, 20, 30 anos de rádio e acha que ja sabe muito ?
Sinto-lhe dizer que não sabe não, e o pouco que sabe deve ser constantemente revisto.Talvez o estagiário que trabalha aí com você tenha muito a lhe ensinar !
Quando começar a sentir que já sabe muito fique atento porque essa pode ser sua armadilha.
Não sei como isso lhe cai.
Quando parei pra pensar nisso me toquei que ainda tinha muito o que fazer, que tava na hora de iniciar novos projetos, dar novos passos, experimentar outras maneiras de fazer o rádio.
Aos 31 anos de idade e 15 de rádio, ainda recomeço.
Em cada nova experiênica, nos novos amigos, novas situações vividas no rádio.
Estou longe de achar que cheguei no auge e ainda tenho varios projetos pra realizar.
Alguns tem caminhado bem, outros na fase dos devaneios, mas o bom disso é que não me deixam parar.
Esse é o segredo.
Não espere reconhecimento ou reverencia de ninguem.
Não acredite em quem disser que você é o máximo e que não tem mais pra onde crescer.
Construa a sua carreira sabendo que o destino é depois do horizonte.
Cada passo pode ser lento, cada estágio demorado, os anos podem passar sem que você tenha a sensação de que tem caminhado, mas vá com calma, um dia as coisas começam a acontecer.
E quando acontecer, não esqueça de onde você saiu, de quem te ajudou, dos caminhos por onde passou, das experiencias que teve, os gigantes que venceu e os tombos que levou.
Tudo servirá de combustivel que não te permitirá parar.
Areje sua mente, esvazie o orgulho do coração, atente pra capacidade de aprender, fique de olhos abertos e procure não se levar tão a serio.
Não importa o estágio que você está ou o tempo de profissão que tem, saiba que ainda tem muito caminho pela frente !
E, no final das contas, a gente sempre acaba se cruzando por ele.