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agosto 20, 2008

Era uma vez.

Escrito em 2002

Sabe aquela euforia que as crianças geralmente ficam quando resolvem inventar uma brincadeira nova ?
Pois bem, imagine quatro ou cinco crianças, todas na média de seus oito ou nove anos, animadas, empolgas, eufóricas, cheias de idéias.
Não precisa se espantar quando se deparar com algum menino que mal sabe ler , dizendo naturalmente que veio de Kripton e se disfarça no meio de nós, pobres terráqueos, só pra que ninguém descubra que o irmão mais novo do super homem mora no seu bairro.
No meu caso a imaginação não ia tão longe.
Eu e meus amigos de oito ou nove anos resolvemos montar uma “rádio prédio” que funcionaria por meio de caixas de som instaladas nos elevadores, hall de apartamentos, portaria, ou dentro dos apartamentos dos que se aventurassem a nos ouvir.
Como arrecadariamos dinheiro ou desenvolveriamos esse sistema era só um detalhe ( um pequeno detalhe). Na verdade não estavamos muito preocupados com isso porque naquele momento, rodeando um pequeno e velho gravador, estávamos prontos pra gravar nosso programa. Era isso que importava !
Paródias de musicas conhecidas usando moradores do prédio, entrevistas ficticias imitando o Zé Raimundo ( o zelador ) debates imaginários entre o morador mais bravo do prédio(apelidado de feijoada- parecia um porco) e a mãe neurótica do amigo do décimo quinto andar…..era assim a nossa rádio.
Depois da gravação dávamos altas gargalhadas com o produto final que sinceramente ficava muito legal !
O projeto da “rádio prédio” obviamente não vingou, mas em mim ficou aquele gostinho bom de fazer rádio.
Era abrir o microfone ( no nosso caso soltar o play e o rec ) e sair falando sem nos preocupar com o ibope ou com um padrão pré estabelecido.
Não precisávamos ser igual ao outro, dizer as mesmas coisas, criar o mesmo clima. Era divertido, o ambiente animado e o produto final muito bom……naturalmente.
Era final dos anos 80, começo dos 90 e o rádio de São Paulo fazia história, criava referências.
Hoje me pergunto se daqui alguns anos, alguem vai estar, em tom nostálgico, relembrando o ” bom e velho rádio de 2008″.(no original era 2002)
Será?
Padrões rígidos de locução engolem a identidade de quem fala e quem ouve não sabe quem está falando.
As vozes, entonações, demostrações de simpatia e comentários são sempre os mesmos e no fim ninguém se toca que saiu o locutor A pra entrar o B.
Aliás, quando o locutor A quer ganhar mais é só mandá-lo embora e contrar o X que faz a mesma coisa ganhando bem menos.
Será?
Cria-se um ambiente de espontaneidade tão natural quanto japones loiro.
Coloque um anuncio no jornal dizendo : “Rádio contrata locutores pra trabalhar filantrópicamente 18 horas por dia” , e prepare-se para a enorme fila que irá se formar na sua porta no mesmo dia.
Mas será mesmo que deve ser assim ?
Na verdade confesso que tenho uma certa dificuldade em reconhecer que pro ouvinte tanto faz.
Da mesma maneira que um bom ator é fundamental em uma novela, o bom intérprete na musica, o bom colunista na revista, nós que estamos atrás dos microfones temos essa responsabilidade: fazermos a diferença.
Mas existe o outro lado da moeda.
Não da pra responsabilizar o diretor de rádio que lida com seus locutores como se fossem descartáveis, se na verdade eles forem.
Ainda não deixei de me impressionar com a quantidade de gente que eu encontro nos corredores das rádios, ávidos por uma chance, loucos pra gravar um teste.
E quando você grava e percebe que precisa melhorar muito, sente que a pessoa se ofende ao ser aconselhado a começar aos poucos, ir pro interior, ler muito e ouvir muito rádio. Acham que estão prontos antes mesmo de começar.
No rádio trabalhamos com emoção, construimos na imaginação de quem nos ouve, um universo.
Não contamos com o recurso da imagem, não podemos fazer expressões que nos auxiliem a transmitir o que queremos. Só temos a voz.
É um desafio.
Por isso é importantíssimo que saibamos e acreditemos no que estamos falando, que nos envolvamos com a rádio e trabalhemos pra que sua rádio seja a melhor do mundo.
Não importa em que cidade estamos falando, quantas pessoas estão ligadas porque tem sempre alguém ouvindo.
O motorista do taxi, o office boy, o executivo, a doméstica, o empresário…..sempre tem alguém ligado !
É ai que nossa responsabilidade aumenta.
É ai que deve crescer a consciência de que quem nos ouve espera alguma coisa de nós, e como poderemos dar algo se não tivermos nada?
É triste ver o rádio padronizado e sem identidade, mas mais triste é ver que em alguns casos, essa padronização se justifica.
Acredito no rádio, amo o que faço e trabalho com muito prazer ! É assim que deve ser….
Tem muita gente boa aparecendo, muita gente querendo aprender, crescer, trabalhar e ser o melhor mantendo-se ético.
Conscientes da responsabilidade de estar falando com quem não conhece e está do outro lado esperando algo de você, mesmo que seja só uns minutos de descontração.
A tecnologia evolui, o mundo muda a todo instante mas no fim das contas fica aquilo que somos, falamos, oferecemos e nos propomos a fazer…….mesmo que seja só uma rádio prédio.
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