Considerações sobre o Sono

Considerações sobre o sono

A pessoa que dorme está inteiramente só. Quando o homem dorme, o seu rosto se desmarca de todas as tramas e de todos os desgostos. Nada enternece mais uma mulher que o rosto do amante, dormindo. Ela se debruça sobre a face do amado e descobre que eram simples palavras todas as valentias que ele lhe vinha dizendo ou dando a entender. É quando a gente se parece menos com os mortos… é quando se está dormindo.  Quanto mais pobre mais comovente o ser humano que dorme.  No sono, a imobilidade das pessoas boas e confiantes é sempre desarrumada. Gente má dorme em posição de sentido. Cada travesseiro tem um lugar e uma importância definidos na vigência do sono. Não há nenhum abandono casual, nas pernas, nos braços ou na cabeça de quem dorme, porque o corpo realiza, desde que haja espaço, sua única posição realmente confortável. Experimente descobrir na mulher que dorme a seu lado, um ser infinitamente decente, muito além de sua capacidade de fazer-lhe uma razoável justiça. Quanta luz nos corpos despidos das mulheres claras! Seria uma demasia de requinte ou de louvação, fazê-las dormir sobre lençóis negros?  A mais leve carícia de sua mão sobre o corpo da amada que dorme poderá quebrar a solidão do sono e a tranqüilidade da carne já não seria completa (contente-se em enternecer-se, sem tocá-la). Se for preciso despertá-la, que seja com ruídos aparentemente casuais. Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela! Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança. A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens. Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança. Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta. Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes.

Rio, 17/1/1956


Texto extraído do livro
O Jornal de Antônio Maria“, Editora Saga – Rio de Janeiro, 1968, pág. 42.

2 Comentários para “Considerações sobre o Sono”

  1. Parabéns…lindo demais a forma como colocastes.

    Abraço.

  2. Fantástico seu artigo no Tudo Rádio sobre liderança de equipes dentro das emissoras. Formar um time motivado é a única forma de se obter resultados que impactam audiência. Eu tenho exemplos vivos iguais aos colocados por você. Vejo isso acontecer todos os dias e coordenadores procurando culpados e derrubando o moral do pessoal. Infelizmente no rádio temos muita vaidade e gente querendo aplicar o conhecimento que não tem e principalmente a liderança que não tem. Precisamos de mais líderes de verdade dentro do rádio. Na verdade, algumas vezes acho até que radialista deveria ter Graduação em Nível Superior. Instrução nunca é demais !!! Um forte abraço e sucesso. É bom ter pessoas que pensam dessa forma no rádio.

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