
O mundo acompanha assustado a grave crise financeira que começou nos Estados Unidos e se espalha pelas bolsas do planeta.
Crise de uma grande potência que, com a força de um império, no entanto desastrado e sem grandes lastros, experimentou em sessenta anos crescimento espantoso.
Em recente artigo na publicação alemã “Der Spiegel” o correspondente em Washington Gabor Steingart, lembra o sociólogo alemão Georg Simmel que há cem anos criticava os bancos por serem ainda maiores e mais poderosos do que as igrejas. Sua queixa principal – a de que o dinheiro é o deus de nossa era – ainda é ouvida hoje.
Steingart acrescenta: ” Entre os adoradores do dinheiro existem pelo menos três credos. Primeiramente temos os puritanos que submissamente levam seu dinheiro ás novas igrejas na esperança de que ele se multiplicará. Já os chineses, por exemplo, em média depositam no banco 40 por cento de sua renda. Que disciplina louvável ! Temos aí o grupo dos Pragmáticos. Poupam e emprestam, mas somente nessa ordem; portanto, seu ato de poupar limita sua coragem de ousar. Essa mentalidade está presente especialmente nos países germânicos, onde os bancos de poupança são sagrados.
Por fim, temos as comunidades religiosas dos “desinibidos”, que é especialmente popular nos EUA. Seus adeptos admitem, sem hestiar, a inconsequência intencional, o desperdício irresponsável e a ganancia onipresente.”
O dolar virou moeda da civilização humana e o capitalismo seu deus.
Anda é cedo para que tenhamos dimensão do quanto essa devoção pode ser desastrosa mas, parte dos efeitos estão evidenciados: os bancos viraram templos e os banqueiros sacerdotes a medida em que as igrejas, com suas promessas, estão virando bancos e lideres religiosos agiotas.
Diante disso, ver a grande “Meca” da nova religião (os EUA) e o novo evangelho (american way of life) a beira de um colapso com consequencias imprevisiveis, é colocar em cheque as referências que balizam a sociedade praticamente desde o fim da segunda guerra mundial.
Se o ataque as torres do world trade center no 11 de setembro acelerou o processo pelo qual estamos acompanhando três dos cinco bancos de investimentos americanos perderem sua independencia, enquanto os outros dois ainda caminham cambaleando, os investidores de wall street buscam em sua fé, milagres que mudem o curso dessa história.
Sobre isso, Gabor Steingart cita Henry Paulson, secretário do tesouro dos EUA : ” É um homem de boas maneiras e princípios rígidos. Em tempos de normalidade, ele tem fé no mercado, em Deus e em George W. Bush. Em tempos como os de hoje, porém, ele prefere depositar sua confiança no governo, nos contribuintes e em Bush.
Ao contrário do que tem sido amplamente divulgado, Paulson não pretende usar os recursos dos impostos para financiar a catástrofe iminente. Em vez disso, planeja fazer novos empréstimos de bilhões de dólares para o Tesouro dos EUA. “Detesto o fato de ter de fazer isso, mas é melhor que a alternativa”, ele disse na semana passada. O presidente já sinalizou sua aprovação.
É isso que acontece com comunidades religiosas quando se vêem sob pressão: tornam-se ainda mais devotas. O mesmo modo de pensar que só enxerga em curto prazo e que deflagrou o desastre desde o início agora é visto como a solução para ele. O governo está tentando apagar o fogo com combustível, não com água. Aliás, é exatamente o mesmo combustível que, no início disso tudo, acendeu as chamas em Wall Street: dinheiro emprestado.
A única diferença é que os novos empréstimos não viriam de um sexto sétimo ou oitavo membro da comunidade religiosa. Em vez disso, seriam arrecadados junto a todos os contribuintes somados. Isso representaria o fim da separação entre igreja e estado, com Wall Street se tornando a religião nacional.
O que há em comum entre esta comunidade religiosa e as outras duas já está em processo de desaparecimento. Coisas que eram consideradas inseparáveis nos tempos da tradicional e respeitada economia de mercado — tais como valor e consideração, salário e desempenho, risco e responsabilidade — agora estão sendo despedaçados em nome do governo. O capitalismo que hoje se vê nos EUA é uma versão esgarçada e degradada do que ele foi um dia.
As ações dos políticos estão fortalecendo os efeitos da derrocada econômica ao invés de amenizá-los. O capitalismo ao estilo norte-americano ainda não morreu, mas está simplesmente preparando o próprio funeral com honras. A história dos dias atuais é a história de uma morte anunciada.”
Estamos olhando para a história.