Após cem horas, a polícia entrou no apartamento onde o ajudante de produção Lindemberg Fernandes Alves, 22, mantinha a ex-namorada e a amiga dela, ambas de 15 anos, reféns, e o saldo foi trágico: as duas reféns baleadas e uma delas com poucas chances de sobreviver.
O caso, recheado de peculiaridades como a entrega de uma ex refém de volta ao cativeiro feita pela própria polícia, a dificuldade em acertar uma linha de negociação,informações desencontradas e, mais uma vez, parte da imprensa espetacularizando as tragédias.
Pouco se falou nisso, mas em uma das inumeras entrevistas que deu, o sequestrador disse estar se sentindo como uma “vedete”. Ele se comparava as celebridades que alcançam fama imediata.
Se todos buscam seus minutos de fama, o rapaz parece ter percebido que, enquanto mantivesse aquele circo, permaneceria diante das cameras e dentro dos lares dos brasileiros. 
Esse caso me lembrou alguns filmes como “O quarto poder” com John Travolta e Dustin Hoffman e “Um dia de cão” com Al Pacino. Nos dois casos, levados por inusitados motivos, cidadãos desesperados sequestram e, diante da exposição, se empolgam com seus atos.
Alguém se lembra do caso Isabella Nardoni que, por incontáveis dias monotematizou jornais, movimentou reporteres, agregou gente fantasiada e sorridente com cartazes em frente as delegacias ou casas de acusados diante de reporteres e vendedores de pipoca, um verdadeiro espetáculo do horror ? Que fim levou?
Essa exposição é capaz de mexer com nossas fantasias e alimentar uma de nossas caracteristicas mais perigosas: a vaidade.
Lindemberg, que era considerado pacato pelos amigos e ciumento pelas amigas da namorada,poderia perfeitamente se assemelhar a muitos jovens que cruzamos, tanto na periferia, quanto nos bairros de classe média.
Trabalhava, tinha amigos, jogava futebol e, de repente, surtou.
Como agir ? A resposta não é simples mas o fato é que , disputar entrevistas, fazer histórico da vida, colocar parentes e amigos no ar, alugar apartamentos na redondeza para posicionar cameras, não ajuda em nada a não ser em satisfazer nossa mórbida curiosidade o que, por sua vez, rende audiência e dinheiro para as TVS.
Parece que o argumento de que o circo é armado em nome da “informação”, justifica a espetacularização da tragédia.
O país acompanhava esse caso, não porque fosse único ou pior do que tantas outras tragédias que estão acontecendo nesse momento, mas como forma de, em mais um “reality show”, aguardar pelo desfecho na expectativa de saber se no fim a mocinha morre.
A preocupação é tanta, que dois ou três dias depois ninguém mais lembra de nada e seguimos em direção a próxima novela da vida real, assim como foi no caso Isabella.
Criam comoção, reforçam o tom da tragédia, carregam as narrativas, hipnotizam o público que, sedento por uma pseudo justiça, grudam em frente a televisão enquanto esperam pelo próximo capítulo.
Gostamos disso, alimentamos essa industria que transforma um sequestrador em celebridade.
Compramos o que nos vendem e acreditamos no que nos dizem, entre outras coisas, que vale qualquer coisa pelos minutos de fama.
Se a tragédia não virasse show, situações como a dessa semana ainda aconteceriam, mas, talvez em muitos casos o resultado seria diferente, afinal de contas, quando a luz vermelha das cameras acendem, ninguém preve como será a reação de quem aparece, além da pressão adicional em quem está responsável pelas negociações.
O fato é que, com raríssimas e honradas excessões, jornalismo virou show e, se no fim das contas o que vale é o dinheiro, que venham as tragédias.
Somos todos cúmplices.
Nos preocupamos com a vida da menina da mesma maneira que torcemos para a mocinha da novela.
Para nós, real é o que aparece na tv e só enquanto está na tela. Depois do tiroteio, tragédia e morte entram os comerciais.
Hora de prestar atenção, afinal de contas, vem aí as ofertas do supermercado e rações para cachorro.
E não perca ! Depois das imagens do sequestro em ângulos exclusivos, mais uma edição de sua novela preferida.
Até a próxima tragédia show.
