História: Quando me fecharam as portas.

outubro 20, 2008

Quando a gente começa em uma profissão, tem dificuldades em imaginar o que vai ser lá na frente.

Sonhos todos tem, mas confrontados com a realidade e os desgastes do dia a dia, correm o risco de ficarem lá, só como sonhos.

Eu estava ainda na minha primeira rádio. Era um profissional com três anos de experiência e, como acontece nas empresas, comecei a ter problemas com um colega.

Eramos amigos, ele um pouco mais velho do que eu, buscava a possibilidade de ser coordenador da nossa equipe.

Sempre fui curioso, admito que muitas vezes impetuoso e isso gerou nesse colega a sensação de que eu entrara na disputa. ( situação que se repetiria algumas vezes depois, inclusive rescentemente)

Confesso que não tinha a menor intenção.

O fato é que, com o tempo, fomos nos desgastando a ponto de chegar o momento em que eu simplesmente decidira mudar de rádio.

Não consigo fazer nada quando não acredito mais, não tenho espírito de burocrata, preciso de espaço para colocar alma no que faço, caso contrário vou embora.

Finalmente fiquei sabendo que uma rádio estava fazendo testes e fui lá.

Enquanto aguardava na recepção, encontrei um outro colega da atual rádio que também tinha ido fazer o teste.

Quando me viu, “desceu a lenha” nos diretores, colegas e tudo mais e eu quieto. Afinal de contas, não seria ético ou sequer inteligente ir procurar trabalho em uma empresa falando mal da outra.

Alguns dias depois, recebi a ligação do tal colega que vinha tendo problemas:

- Fiquei sabendo que você foi na rádio “tal” fazer teste e lá falou mal de todo mundo. Pois saiba que tenho amigos no rádio e sua carreira terminou. Enquanto estiver aqui terá que lidar comigo e, quando sair, pense em outra profissão porque rádio não mais.

Ele tinha mais experiência do que eu, estava magoado e talvez tivesse me fechado as portas.

Lembro que tinha chegado no meu limite.

Aquilo não era para mim e não estava disposto ( como nunca estive) em entrar em guerrinhas de egos e acusações em disputa de um cargo.

Desliguei o telefone com um peso de duas toneladas nas costas e tive uma conversa com Deus:

- Acho que você me conhece o suficiente para saber que para mim não dá mais. Não quero continuar nisso. Me ajuda a conseguir um trabalho. Pode ser em qualquer área, fora do rádio se for o caso. Açougueiro, bancario, taxista…o que for. Só não quero mais ficar alí e te peço ajuda nisso.

Terminei a conversa e meu pager (naquela época era pager) tocou:

“Ligar para a rádio “tal” e falar com o corrdenador.”

Meu coração disparou.

Telefonei para a rádio e tivemos a seguinte conversa:

- Oi Flavio, me diz uma coisa, conhece o “fulano” ? – O coordenador se referia ao meu colega que, minutos antes, “fechara” as portas do rádio para mim.

- Sim, conheço, trabalhamos juntos.

- Ele me ligou agora a pouco falando muito mal de você. Disse que é mal caráter e que está sendo expulso da sua atual rádio. Recomendou que não te contratasse pois certamente me arrependeria. Confesso que não te conheço mas também pouco conheço ele, então resolvi te dar um voto de confiança e convidar para estreiar hoje a noite.

Deus não queria que eu fosse açougueiro !

Saí de casa leve e com a sensação de que, mesmo quando os outros nos oprimem, não estamos sozinhos. Que, por mais que as vezes tenhamos problemas, vale a pena colocar verdade e coração na vida.

Entender que nossa sorte não depende de conchavos ou ataques a nossa consciência é o princípio para caminharmos éticamente, sabendo que lá na frente, mesmo quando as “portas se fecham”, outras se abrem.

Naquela tarde, percebi que eu estava no caminho certo e que valeria a pena seguir adiante.

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2 Responses to “História: Quando me fecharam as portas.”


  1. Flávio , infelizmente essa luta entre colegas da mesma rádio , acontece em muitos sítios.Alguns ficam com medo de perderem o seu espaço ou do programa do outro ter mais sucesso e audiência . Não sabem que nós conquistamos o nosso espaço e o sucesso através de muito trabalho e dedicação como tu tens feito ao longa da tua carreira no rádio…

  2. Raquel de Oliveira Says:

    Quando decidi abrir o meu próprio escritório de advocacia, foi num momento em que eu já trabalhava há muitos anos para empresas como empregada, e confesso que já estava cansada desse “clima” de pessoas inseguras achando que outras estavam “roubando” as suas chances ou lugares.
    E ao optar pela carreira jurídica, eu deveria também fazer escolhas, e eu escolhi trilhar um caminho limpo e a só defender o que eu verdadeiramente acredito ser bom.
    E uma área que remunera bem, é a criminal, mas do ponto de vista ético, ela nunca me atraiu.
    É uma questão de conduta!
    Até porque tem a lei da atração e reação, não é?


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