História: Salvando uma vida pela rádio.

outubro 22, 2008

Faço rádio desde os meus dezesseis anos.

De lá pra cá, já trabalhei em todos os estilos e fiz quase tudo o que você pode imaginar.

É claro que isso rende boas histórias, mas confesso que a mais significativa para mim aconteceu no ano passado.

Na rádio Sul América trânsito eu ficava no ar durante seis horas (depois de um tempo diminuiu para cinco) falando sem parar.

Além de operar a mesa de som, cobrar envolvimento dos estagiários, procurar informações sobre o trânsito, ler notícias, testemunhais, também falava com os ouvintes no ar.

Eram cinquenta, sessenta ouvintes por hora, quase todos com perguntas, alguns irritados, outros perdidos e não havia nenhuma triagem a não ser um” seu nome?” ” um momento que vai falar ao vivo”. Era isso e esperar para entrar no ar.

Com o tempo você aprende a identificar no “alô” do ouvinte qual categoria ele pertence: dos irritados que vão te culpar pelo trânsito, os bem humorados que vão elogiar a rádio, os perdidos que não sabem como chegar …

Certa manhã, ao chamar o ouvinte, uma voz desanimada do outro lado e eu perguntei:

- O que acontece, está triste ?

- Não, com dor.

- Ah…jogou bola a noite toda ontem né?- ainda binquei.

- Bem que poderia ser isso, mas estou realmente passando mal.

Percebi que a coisa poderia ser seria e continuei:

- O que está acontecendo contigo ?

- Saí de casa em direção ao interior, estou na Anhanguera mas comecei a passar muito mal e não tenho condições de prosseguir viajem, preciso ir urgentemente ao hospital.

Imediatamente olhei para o mapa da CET e a cidade estava congestionadíssima. Eu tinha que dar um bom caminho para um ouvinte passando mal, sem saber para qual hospital seria mais indicado.

Se ele esperasse um retorno e voltasse para a Marginal demoraria muito. O jeio era o Rodoanel.

- O que você acha de seguir ao hospital São Luiz do Morumbi ? – perguntei.

- Perfeito.

Como ele ainda não tinha passado o acesso para o Rodoanel, não precisaria fazer retorno e, de lá, sairia na Francisco Morato e depois , cortando pelo Morumbi, teria condições de chegar a tempo.

Indiquei o caminho e pedi para a estagiaria ligar para ele de tempo em tempo, não só porque se acontecesse algo teriamos como localizá-lo e pedir socorro, como também para que ele permanecesse acordado já que não sabia do que se tratava.

Enquanto isso eu repetia no ar a todo instante dicas como :

- Para o ouvinte colaborador Paulo, vejo que a francisco morato continua boa, mas complica um pouco depois do shopping butantã, saia antes, siga pela jorge joão saad, vá com calma, tudo vai dar certo.

O tempo passou e não conseguiamos mais contato com ele.

Tempos depois, recebemos a ligação da sua filha.

Ela dizia que o pai estava com um quadro de meningite e ao chegar no hospital desmaiou e foi prontamente internado.  Era coisa séria e os médicos diziam que , se demorasse um pouco mais, o desfecho seria imprevisivel.

Quando soube do que ocorreu, fiquei feliz por ter ajudado.

Nessa hora você esquece os problemas e sente que está no lugar certo.

Depois o Paulo foi na rádio me esperar para agradecer e desde então nos tornamos amigos.

Ainda hoje eventualmente trocamos e-mails e é bom saber que está tudo bem com ele.

Coincidentemente, fiquei sabendo depois que a sua filha trabalhava em uma das TVS da Band e certo dia a encontrei na saída da Band.

Por se tratar se uma história única, fiz questão de gravar seu depoimento:

Histórias como essa dão sentido a profissão.

De tudo o que vivi lá, é disse que sinto falta.

Faz com que você testemunhe o quanto falar ao microfone pode interferir no dia a dia das pessoas.

Nunca vou esquecer o caso do Paulo e de como pude naquela manhã influenciar na vida dele e de sua família.

Aqui uma edição feita pela rádio logo depois do ocorrido:

Existem outras histórias que ainda comentarei aqui no blog.

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3 Responses to “História: Salvando uma vida pela rádio.”


  1. Esse foi um dos dias, se não o dia mais sensacional de toda a história da rádio.

    Eu estava na escuta e era impressionante o envolvimento de toda equipe em ajudar um ser humano, o envolvimento dos outros ouvintes que ligavam dando dicas, realmente esse foi um dia muito especial na historia da rádio.

    Graças a Deus a rádio existia, e graças a ele tinhamos alguém muito profissional, mas principalmente humano na ancoragem naquele momento.

    Melhor parar por aqui.

    Grande abraço

  2. Bruna Carolina Says:

    Oi Flávio. Tinha até me esquecido desse vídeo!
    Acho que não preciso falar mais nada não é?
    Não tenho palavras para te agradecer e agradecer ao trabalho da rádio!

    Mil beijos e muito sucesso…

    Até mais!

  3. Paulo Francisco da Silva Says:

    Salve Flavio meu querido amigo.

    Desse jeito meu coraçãozinho não agüenta…rs…rs…rs…rs…rs…

    Voltei ao dia, as incertezas às minhas inseguranças… UUUUAAAAAUUUUUU……

    Passou meu amigo…passou… sinto falta deste seu vozeirão… quando retorno a Sampa das minhas viagens a trabalho durante a semana… o Incrível é que lembrei do amigo ontem, retornando a Sampa e ao sintonizar a rádio, veio uma voz desconhecida, ouvi o que precisava e mudei de estação… não parece a mesma coisa.

    Bom, cada um está fazendo o seu trabalho e eu só posso agradecer a todos e sempre em especial, a você Flávio.

    Um super mega hiper, blaster abraço, com saudades e desejos de muito sucesso a você meu grande amigo…

    No momento que eu mais precisei de um amigo… Papai do céu me enviou você e toda uma equipe de anjos da guarda dos motoristas paulistanos… que bom!

    Carinhoso beijo no seu coração e da esposa tb.

    Paulão


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