Em casa.
fevereiro 14, 2009
Em fração de segundos, revi tudo:
A luz forte, a falta de ar, os cheiros que nem me lembrava.
Os primeiros sinais de consciência, as duvidas, os medos da noite. Ouvia meu choro agudo e suplicante, sabendo que vinha de um tempo que ficou lá atrás, mas agora, para minha surpresa, jorrou como se nunca estivesse ido embora.
Tudo girava.
A velocidade era espantosa, mas o que dava vertigem era a sensação de sair de um tempo e cair em outro, como se todos os tempos existissem ao mesmo tempo.
Sentia como se não houvesse fronteiras, tudo acontecia em um segundo.
Meus amigos ! Lá estavam os primeiros, aqueles que nem me lembrava, depois vieram o Guto , o Nando e o Rafa: todos corriam, gargalhavam, mas não me viam.
Enquanto as imagens se esvaiam como areia, eu ouvia vozes que, por mais que me parecessem familiares, não conseguia identificá-las ou sequer entender o que diziam.
Tinha muito vento também. Quase como se eu estivesse no meio de um vendaval.
De repente era outro tempo: Eu estava em uma estrada a noite, no rádio do carro uma música do Jonny Rivers, meu coração batia descompassadamente.
Antes que pudesse entender o que era aquilo, apareci em uma praça. Crianças brincavam e eu me sentia angustiado.
É como se estivesse voltado a tarde da perda.
Mas não deu para sentir nada tamanho a velocidade em que os cenários se alteravam.
Rostos, cheiros, paisagens, sensações, iam e vinha, quase como uma agulha de uma costureira que fura aqui, passa linha alí, vai e vem até que a costura esteja pronta.
As coisas começavam a fazer sentido.
Passeando entre elas, olhando minha vida daquele ponto, senti como se tudo fizesse parte de uma coisa só.
Olhava as grandes alegrias e as terriveis tristezas como fruto de uma única coisa que, no fim das contas, me trazia até aquela hora.
As imagens foram sumindo.
Me sentia leve e a intensidade das emoções que acabara de reviver estavam diminuindo, cedendo lugar a uma espécie de êxtase.
O vento se aquietou, as vozes se calaram e agora tudo era silêncio e, no silêncio, tinha paz.
Acolhimento. Talvez seja a melhor descrição.
Abri os olhos lentamente e uma senhora grande e negra com olhos penetrantes , sorriso que reproduzia a mais intensa e sincera felicidade veio em minha direção.
Eu não sabia onde estava, mas sabia que era alí o meu lugar.
Ela me abraçou.
“Estive contigo o tempo inteiro, cuidei de você em cada instante e agora você voltou pra casa”- disse a senhora , agora me olhando com amor quase palpável.
“Onde estou ? O que eu tenho que fazer? ” – perguntei confuso, mas quase esperando a resposta que viria:
“Você já fez. Alías, quem fez fui eu e o que eu quero é o que sempre quis: Que você descanse em mim. Tudo o que você viveu contribuiu para que chegasse até aqui. Essa é sua casa.”
As memórias ficaram para trás. Já não importava mais o que tinha sido porque agora tudo estava no lugar.
-Quem é você ? perguntei.
-Eu sou, e isso basta.
-Eu nunca ví a senhora, mas sinto como se sempre tivessemos sido íntimos.
-Sempre fomos porque você veio de mim. Sua essência é a minha e nunca houve nada que não saisse de mim.- sua voz soava como música. Quando ela falava, parece que o mundo de aquietava.
- Já nos vimos antes?- eu ainda estava confuso.
- De varias maneiras. Com vários rostos, em varios sons, o tempo todo.
Ela já não tinha mais a mesma fisionomia. Seu rosto já não se parecia mais com homem ou mulher, apesar de traços humanos.
- Você é Deus ?
- Me chamavam assim também.- ela continuava sorrindo.
- Então você é Deus ! concluí.
Ele ( ou ela?) sorriu acolhedoramente, chegou mais perto e disse:
- Sou quem sempre fui. Deus é o nome que escolheram me chamar, mas Eu Sou. E você é, em mim.
- Ainda não entendo- tive que confessar.
- Você ainda está cheio de conceitos errados. Esperava encontrar um velho justiceiro que agora leria seu juizo e determinaria seu destino eterno. Não sou assim. Nunca fui. Você está em casa e todas as suas angústias passadas tinham a ver com o fato de que estava longe daqui. Mesmo assim, sempre estive contigo e minha morada sempre foi em seu coração. Não existe separação entre nós. Nunca existiu.
Eu não conseguia mais falar. Ele continuou:
- Agora é hora de se desvencilhar de suas concepções religiosas. Daqui a pouco você verá muitas coisas que não se parecem com o que via nas casas de pedra, que diziam ser minha casa. Verá muitos homens e mulheres diferentes daqueles que se proclamavam meus embaixadores. Aqui não há limite de tempo e espaço e nem separação. Aliás, sempre foi assim. Experimentará a plena sensação de unidade e saberá que faz parte de tudo.
Enquanto falava, sua fisionomia se humanizava.
Agora tinha rosto de homem com feições palestinas.
- Venha, vou te contar o que quiser saber. Chegou a hora de conhecer a verdade e ela te libertará- Ele caminhava e fiquei olhando por alguns instantes.
Não parecia ser diferente dos outros palestinos a não ser pelo seu olhar que me descortinava a alma.
Ele sorriu. Parecia saber o que eu estava pensando.
Não consegui mais resistir e fui em sua direção sabendo que tinha muito a ouvir:
- Quem me vê, viu o que precisava ver. Os que são meus, sempre reconhecem minha voz.
Segui caminhando , ouvindo atentamente e, apesar de não saber exatamente onde estava, sentia nitidamente que finalmente estava em casa.
