
Nesse fim de semana fui com minha família a uma lanchonete. A TV estava ligada na Globo.
O som estava alto, a voz estridente do Faustão resoava por todo o ambiente, incomodando as conversas, tornando um lanche na tarde de domingo algo desagradável.
Pelo que pude perceber, ele conversava com um ex Big Brother de chapéu que dizia ” Valeu estar na casa. Eu queria ficar famoso, e estou aqui com você e esse auditório liiindo.”
Todos aplaudiam.
O Faustão é gente boa, inteligente e sei que se incomoda em fazer o que faz. Mas ele é um dos maiores salários da Globo, sabe como é…
Enquanto ele falava, eu olhava para o rosto das pessoas atentas e visivelmente se divertindo.
Será que o chato sou eu ?
Mulheres coreografando no silêncio, enquanto ex big brothers falam, antecipando video cassetadas e a presença de mais um ator promovendo as cansativas novelas.
A audiência é enorme.
Aí me lembrei que não é só a TV que vive disso.
No rádio, para ter volume de audiência, é necessário ser popular. Em São Paulo e Porto Alegre, por exemplo, as líderes de audiência investem em “fofoquinhas” de novela, comunicadores “carismáticos” e som de conteúdo duvidoso. Isso pra não falar das rádios do Norte e Nordeste.
Lembro que quando fui trabalhar em uma rádio popular me diziam ” Você precisa ser mais amigão no ar, mais sorriso..”
E eu argumentava “Pra ser amigo, não pecisa ser falso. Ou será que alguém chega no açougue dizendo “Olá amigo que eu gosto e quero fazer feliz ! Me dá um quilinho dessa suculenta maminha?”"
Eu saiba que para ser simpático e conquistar o ouvinte, precisava de naturalidade. Tudo bem que respeitando o padrão e o ritmo da rádio, mas com naturalidade.
Obviamente não quero dizer que tudo o que é popular é ruim.
Tem gente como o Amorim Filho (Nativa/SP) que promove um estilo de música que não é meu preferido (forró) , mas com tanto conteúdo e cultura que a audiência vale a pena.
Mas ele só fala de madrugada.
O fato é que vivemos na cultura da imbecilização.
Quanto mais imbecil, melhor.
Se o formato, discurso e conteúdo não “empolgar”, não vira.
Isso faz com que, mesmo quem tem o que mostrar, não se fixe somente no conteúdo, mas, se não colocar nele elementos de “festa”, aumentando o ritmo e fazendo concessões duvidosas, cansará quem está do outro lado e perderá “apelo comercial”.
Vivemos no país onde o Faustão ganha milhões pelo que faz, o Big Brother é considerado “experimento sociologico”, a novela “revela a vida como ela é” , a Universal cresce sem parar e o Lula tem 84% de aprovação.
Quer melhor prova de que aqui, pra dar certo, tem que se esvaziar ?
Enquanto as pessoas sorriem por aí, achando que o Datena é defensor do povo e a Tele Sena é titulo de “capitalização”, milhões de reais são investidos para que essa condição perdure.
Afinal de contas, se não fosse assim, não bastaria encher o cenário de luzes coloridas e bailarinas sorridentes, a Caras não seria sucesso, o Daniel não seria ator de cinema,os políticos teriam que apresentar propostas que não fossem slogans de campanha, a igreja teria que falar sobre Deus, mandando embora os “pastores/vendedores” e os padres sonolentos/artistas pop, o bolsa família seria programa de incentivo social e o PAC mais do que uma sigla para capitalizar em cima de qualquer tipo de obra.
Sei que essa condição não é só no Brasil, que lá fora também tem muita porcaria e que, não é porque o povo gosta que é ruim.
Mas para o povo gostar, geralmente tem que ser ruim.
Talvez esse seja um dos motivos que tenho me direcionado cada vez mais para minhas próprias mídias, tentando fazer meu próprio caminho.
Acredite, nem sempre é fácil fazer parte de uma estrutura que, para imbecilizar seus espectadores/ouvintes, imbeciliza seus próprios profissionais.
Hoje falo com menos gente, mas é com quem busca o que faz bem.
Se não tenho o mesmo “apelo”, pelo menos tento exercer minha condição de comunicador a partir do presuposto de que tenho que ter responsabilidade com o que falo.
Ás vezes é difícil, tem horas que você se sente remando sozinho e em alguns momentos dá vontade de parar.
Mas lá no fundo, a sensação de que está plantando algo no coração de quem lê/ouve, te faz perceber que realmente vale a pena.
Lá fora, todos estão anseando por serem entretidos. Estão tão cansados da vida, que querem algo que lhes desvie a atenção e dê um jeito para acreditar que o dia vai ser bom.
Tolos ! Olham pra fora, querem luzes, esperam risadas, aumentam o volume e não olham pra dentro.
Querem show, fazem farra, e não percebem que , o que buscam de verdade, não está na TV, rádio, igreja, política, mas no coração.
Dificil a tarefa de quem tenta fazer com que as pessoas percebam !
Mas , aos poucos, a conta gotas, um aqui, outro alí, vamos tentando.
Felizes os que percebem, que procuram se preencher do que edifica e entendem que a mente pode ser a mais cruel das prisões.
Enquanto isso, caminho, sabendo que o destino está contido no caminho, de modo que vale não parar.
Para onde estamos indo não sei, mas que seja com sinceridade e bom senso.
Você faz parte dessa caminhada.
Faça suas escolhas, olhe para o que tem consumido e não deixe de se questionar.
Quanto ao meu lanche de domingo, podem me chamar de chato, mas preferi pedir pra embrulhar e continuar em casa.