Ontem acompanhei um debate sobre o posicionamento da imprensa diante do acordo feito ano passado entre o governo brasileiro e o Vaticano, onde, no entender da maioria, foi concedido uma serie de privilégios para a igreja católica como o poder de anular casamentos no civil e sobretudo o tão controverso ensino religioso.
A tônica do debate era no sentido de entender por que a imprensa aparentemente teria se omitido em divulgar os itens desse acordo.
Enquanto jornalistas e representantes católicos e evangélicos discutiam, pensei como se usa o nome “Deus” na tentativa de disputa de poder.
Os que defendiam um “estado com Deus”,argumentavam sobre a necessidade de disseminar na sociedade, especialmente entre as crianças, valores cristãos.
Mas quais são os valores cristãos ? Paz ? Respeito ? Amor ? 
Ora, que eu saiba esses valores não representam religião alguma, mas devem ser considerados universais, a medida que estão presentes na base do bom convivio social.
O problema é que faz séculos que o cristianismo se arroga no direito de deter a verdade, implicitando que se o individuo não fizer parte de sua estrutura institucional, consequentemente está abrindo mão desses valores.
É por isso que os ateus ou agnósticos são vistos como seres “do mal”.
Quando se relaciona valores universais a prática religiosa está se declarando que, fora da religião, não há virtude.
Aliás, com outras palavras, esse tem sido o discurso há muito tempo.
Diante disso, quem não consegue se adequar a nenhum tipo de estrutura religiosa, acaba optando pelo secularismo fanático.
Isto é, usando os mesmos principios religiosos para defender seus posicionamentos anti religiosos: guerreiam, discutem, se ofendem e pré julgam.
Por isso é tão difícil desvincular Deus de religião.
Dificil, mas a meu ver extremamente necessário.
Quem mais falava sobre isso foi Jesus, que por sinal, não fundou o cristianismo -que nasceu séculos depois da crucificação.
Seus embates mais tensos não era com aqueles que as religiões cristãs discriminam, mas justamente com os religiosos que gostavam de discriminar.
“Ele se mistura com pecadores”, “Ele transgride nossas leis”, “Ele tem a simpatia do povo” , eram constantes reclamações daqueles que mais tarde o sentenciariam a morte.
Se hoje o discurso de Jesus soa insuportável para as religiões, imagina há mais de dois mil anos ?
Ele falava sobre nosso livre acesso a Deus, sem a necessidade de intermediadores. Ensinava que nossa espiritualidade nasce no coração e que manifestações religiosas performáticas fazam muito mal. Dizia que Deus se relaciona com todos só porque Ele quer e não porque somos bonzinhos ou moralmente virtuosos. Aliás, esse era outro ponto destacado por Jesus : nossa maior virtude passa pelo reconhecimento de nossas fraquezas e não pelo ensoberbecimento de caráter, de modo que, quanto mais “Virtuoso” o sujeito quiser aparentar pra fora , provavelmente mais corrompido será por dentro.
Ele estabeleceu essa relação que começa no coração, no quarto fechado, no íntimo e depois ilumina o exterior, nunca o contrário.
Sobretudo humanizou a Deus e ensinou que ele se relaciona com gente, não com instituições.
O problema é que os que deveriam se incomodar com isso, se apoderaram da mensagem e a colocaram em redomas, criando o cristianismo.
Não era pra ser assim.
Enquanto se discute se o Vaticano pode ensinar religião na escola , se os evangélicos podem assumir concessões de rádio e tv ou criar partidos políticos, se essa ou aquela religião tem razão, usa-se o nome “deus” e transforma-o em símbolo de poder.
Triste os que precisam disso para alimentar sua fé, sem saber que aquilo que não produz consciência, faz mal.
“Se não é por amor, é pecado”.
Essa briga será eterna e a disputa por espaço nunca diminuirá.
A não ser que despertemos em consciência, não nos deixando manipular virando número em curral religioso, entendendo que é preciso questionar, afinal de contas,os valores universais não pertencem a nenhuma instituição.
Se você os tem no coração e em sua prática de vida, guarde-os como tesouro, porque, mais do que nunca, tem poderes interessados em domesticar o indomesticável, em deter o que não se detem, em se apoderar do que é de todos.
É assim hoje, e será bem mais amanhã.
Olhe a sua volta e pense no que vê.
