
Desde ontem venho recebendo inúmeros e-mails comentando sobre o post “donos da fé”.
Aliás, esse foi o tópico que mais rendeu frequência na página desde que foi criada, em junho do ano passado.
“Sujeito tacanho”, “fundandor de novo evangelho”, “analfabeto religioso”, “mais um mal informado fazendo blog”, foram alguns dos adjetivos que me deram.
Sim, recebi mensagens legais de identificação com o conteúdo do texto, mas a maioria foi daí pra baixo.
O que será que desperta tanta ira ? Percebi que, na grande maioria, as mensagens foram enviadas por pessoas ofendidas por sentirem que minha postagem questionava a “legalidade” de suas religiões.
“Claro que reconhecemos que há virtude fora de nossas estruturas, mas quem não for da nossa religião irá para o inferno e isso é lógico”, dizia uma das mensagens.
Não entendi. É virtuoso mas vai para o inferno ?
Uns me acusaram de interpretar as escrituras a meu bel prazer, dizendo que nela está muito claro que Deus fundou uma única religião cheia de regras e homens de batina e, negar isso, só pode ser fruto de um coração mau intencionado.
Desde criança relacionei espiritualidade como parte da existência.
Nunca departamentalizei a fé, achando que existe lugar, hora, regras ou ritos que me conectassem ao que já vivia em mim.
Sempre acreditei que oração não é juntar as mãos, fechar os olhos e repetir frases prontas, mas uma constante sensação de gratidão e acesso a Deus.
Nunca achei que igreja fosse prédio cheio de gente, mas gente cheia de Deus. Estejam elas onde estiverem, sejam quem forem, não importa.
Se esse tipo de mensagem ainda dói tanto e provoca tanta ira, é porque estamos tão arraigados a determinadas estruturas que, ao menor sinal de questionamento, sentimos que o chão se abre e os apoios se abalam.
Liberdade produz vertigem, por isso a necessidade de se agarrarem em regras, leis, e instituições.
Precisamos do lider e do exemplo que legitimem nossa condição.
Quem ousa andar em liberdade ? Não é fácil romper com nenhum tipo de estrutura (seja ela religiosa ou não) que nos sirva de amparo, alimentando a sensação de que temos onde apoiar.
Para abrir mão dessa condição, é necessário que nos espelhemos nas crianças que acabaram a aprender andar. Primeiro seguram nas paredes, sofás, andadores…Se tivessem consciência que, ao largarem, cairiam, talvez nunca o fizessem, mas um dia tentam e os primeiros passos “solo” produzem quedas.
Mais do que nunca, ficou claro para mim o quanto precisamos disso.
Estruturamos nossas vidas a partir do que nos dá sensação de segurança, mesmo que para tal, negociemos nossa liberdade de ser, pensar, sentir.
Nos adequamos, aquietando a mente e abafando inquietações intimas sob a ameaça de que “pensar faz mal”.
Arquitetamos lógicas e as defendemos cheios de ardor quando sentimos que alguém as questiona.
Será que precisa ser assim ?
Quem dá o primeiro passo é você, a partir do momento em que sente necessidade de mais ar, mais espaço, mais mundo.
Sair da caverna de Platão e depois voltar dizendo que há vida lá fora, pode provocar muita revolta, mas as vezes é preciso colocar a cabeça do lado de fora, pelo menos para ver se existe vida fora do buraco.
Nunca é fácil. Estamos tão arraigados a determinadas estruturas que, aos questioná-las, colocamos em cheque a nós mesmos.
Cômodo é permanecer do lado de dentro, segurando nas bóias que nos dão e atacando a todos os que dizem que existe mais espaço, que é possivel ser livre.
Dificil conciliar liberdade com fé. Quem quer repensar seus caminhos e arriscar a mudar tudo ?
Para isso é preciso consciência.
No entanto, preferem se agarrar, fechar os olhos, as mãos, o coração e a mente.
Mais cômodo acorrentar a alma e calar a consciência.
Busquemos uma referência, sejamos iguais na fala, trato, posturas e idéias.
Continuemos acreditando que somos livres, afinal de contas, podemos escolher nossas roupas e comer o que queremos, não é ?
Deixemos que a vida corra em uma única direção, aceitando os padrões seculares. Se estou seguro aqui, porque questionar ?
Nasci para crescer, trabalhar, me reproduzir e morrer, quem pode mudar isso ?
As vezes alguém percebe.
De vez enquando gritam avisando que somos mais do que isso, acreditando que , para que haja consciência, é necessário liberdade.
Ontem minha caixa de e-mails lotou de gente brava e ofendida.
Hoje, mais do que nunca, sei que é bom andar com as próprias pernas, pensar com a própria mente e dar ouvidos ao coração.
Nem sempre é fácil, mas, acredite : vale a pena.
