A volta.
maio 12, 2010
De repente as pessoas foram chegando.
Aquele barulho que rangeu durante toda a madrugada cessou o que dava a entender que a porta estava aberta: -Pelo menos não me incomodarei mais com ela.
Na verdade, nada me incomoda mais – pensou enquanto percebia as pessoas chegando – Nem as pessoas, barulhos, problemas….
Vendo daqui, lamento por ter me preocupado tanto. Se eu soubesse que simplesmente não valeria a pena… Alguém segura sua mão: – Fique tranquilo, estou aqui. – A voz era conhecida, mas ele estava cansado demais para olhar.
Os pensamentos não cessavam: Porque será que consigo sentir a energia das pessoas ? Parece que, invisiveis, elas invadem o ar e cada particula de oxigênio fica impregnada de tudo o que sai de seus corações.
Ouço vozes, mas estou em silêncio. Quanto mais quieto, mais me ouço… Agora a porta rangeu, parecia sendo fechada. Se fecharam, é porque todos estão aqui- pensou.
O que será que vão fazer depois ? Que música é essa ? Parece vir do estacionamento… Intrumento de corda, vozes…coral ? Deixe-me ouvir… A melodia que vinha do estacionamento não conflitava com a que ouvia nas vozes dos que se concentravam alí, apesar de serem ouvidas ao mesmo tempo. Quer dizer que nessas horas a gente ouve música… Porque será que não percebo mais o tempo ?
Parece que 40 anos acontecem em um instante. Vejo tudo : As árvores da rua, mãe chorando, brincadeiras de criança, os passos, voltas, idas, vindas, choros, sorrisos…Tudo de volta ! Ou será que nunca saíram daqui ?
De repente sou que sempre fui e não consigo mais me dissociar em fases. Sou e pronto. Sinto como se em mim encerrasse o menino que subia em árvores, o adolescente tímido, o homem que cantava, a criança que chorava a noite e o pai que levantava para cuidar. Sou todos eles e aquele que não vou ser: O senhor grisalho, o avô pacificado; estão todos em mim.
Ouve alguém soluçando mas isso não o detém: É como se o tempo não existisse mais. Sou todos que fui e serei, o tempo agora vive em meu coração. Se o passado e futuro estão no agora, finalmente percebo que não tenho fim.
O volume da música do estacionamento aumenta a medida em que as vozes do quarto diminuem: Agora sei. Essa música…- Era harmoniosa, parecia som de violino mas sabia que não era- …essa música, eu conheço… Começa a lembrar dos frequentes sonhos onde era compositor.
Neles, as músicas fluiam e se pareciam muito com a que ouvia agora.: Sou todas as estações e um pouco de cada tempo. Tudo o que fui ainda é, e o que serei reflete em mim. O tempo já foi, e agora vejo tudo em um plano só. Foi hoje que nasci, cresci, amadureci e hoje voltarei para casa.
Não precisava abrir os olhos: ele via. As vozes ficavam ainda mais distantes, ainda cantavam algo sobre um vaso na mão de um oleiro, mas estavam distantes. Os pensamentos cessaram. A sensação era de leveza, paz , acolhimento inexplicável. Já não ouvia vozes.
Agora a música estava nítida e nada mais parecia tão importante. Uma incrivel sensação de unidade e a percepção de que o momento seria eterno.
As mãos que seguravam a sua se transformam em abraço. Não vê ninguém mas sente. Agora tudo estava em paz.
Tinha voltado para casa
