Calamidades…

fevereiro 29, 2012

Calamidades nos surpreendem, nos tira do eixo e nos lembra que nossa sabedoria não serve para nada além da certeza de que em nossa fraqueza é que reside nossa força. Aquele que se enxerga poderoso um dia entenderá.

“Na verdade são vocês que estão criando seus próprios caminhos a partir das conexões que estabelecem ao longo da vida e de como lidam com elas. Vocês são todos e tudo ao mesmo tempo.

No seu interior vive um pedaço de cada ser que respira. Há um mundo inteiro em sua mente e a humanidade vive em sua alma.

Foi assim desde o início para que pudessem experimentar na plenitude o bem do amor que só é real quando compartilhado.”

Trecho do livro O ÉDEN. Mais sobre meus livros, clique aqui: http://flaviosiqueira.com/dez-historias-e-algo-mais/

Sementes do bem

fevereiro 27, 2012

Feliz quem transcende a si mesmo, supera seus proprios limites e carrega na alma a consciente dimensão do sagrado. Esse enxerga a beleza intinsica em tudo, até mesmo na dor e vive grato diante das infinitas possibilidades de cada dia, certo que absolutamente tudo contém sementes do bem. Simples assim.

O povo nas mãos

fevereiro 23, 2012

Quem souber trabalhar silenciosamente, por um lado alimentando nas pessoas a sensação de que são livres e tem pleno direito de escolha, por outro lado mantendo-as alegremente entretidas, comodamente amedrontadas, criando monstros, plantando ameaças, arquitetando labirintos para depois salvá-las, aprisionando-as até que a prisão seja chamada de um agradável estilo de vida que no fim fortalece e realimenta todo o processo em um círculo vicioso, quem faz assim, tem o povo nas mãos. – Trecho no meu próximo livro, ainda sem título, em andamento.

Fanatismo

fevereiro 21, 2012

Fanatismo: o apego a tudo o que não vale na desesperada tentativa de validar o que não é.

Olhando de longe é mais fácil compreender. Uma múltidão sem rosto, sem traços, movimentando-se em blocos entre pulos, danças e músicas pontuadas por refrões repetitivos. Se não chegarmos perto, as explicações tornam-se mais palatáveis e provavelmente acreditaremos que aquela massa informe e festiva é o retrato de um povo feliz, que apesar dos pesares, tem lá suas razões para comemorar.

Afinal, que mal há em um evento capaz de reunir milhões de pessoas, independente de classe social, idade ou raça, expondo-se em um frenesi de alegria, permitindo-se – ainda que seja uma vez por ano – entregar-se a uma explosão de felicidade ?

Mas não é preciso chegar tão perto para enxergar que a realidade não é exatamente tão bela assim. Se nos aproximarmos só um pouco, será suficiente para perceber o quanto somos regidos por nosso insitinto de manada.

Ao ver a foto exposta nessa texto ou as milhares de imagens que nessa epoca do ano tomam conta dos sites de noticias, jornais e programas de TV, confesso que tento enxerga-la a partir da perspectiva de quem está longe, mas a dificuldade em ver gente ao invés de massa torna a tarefa mais dificil.

Vejo uma multidão anônima tentando expurgar as dores e desmandos de viver no país da corrupção, onde a cada recorde anual de arrecadação de impostos mais gente morre nos hospitais, na falta de estrutura viaria, onde o ensino parece cada vez pior e não há sinais de melhora. Mas e daí ? Somos o país do Carnaval não somos?

Com enorme facilidade nos entregamos aos comandos em forma de convites de que “agora é hora de ser feliz”, afinal é carnaval, da mesma forma que seguimos o fluxo da tristeza de finados, dos presentes de Natal, do arrependimento na “quarta feira de cinzas”, consumindo, comprando, comportando-nos conforme os anúncios publicitários nos orientam a fazer. Somos serezinhos que se recusam a enxergar a volta e olhar o proprio umbigo, respondendo a vida conforme as demandas reais, indignando-nos com o que seja indigno, confraternizando-nos com o que de fato faça bem. Não conhecemos a felicidade como estado de espirito – que sabe conviver inclusive com a tristeza – e precisamos comprar a alegria falsa de corpos nus que disputam espaços na TV, abadás caríssimos que dão direito a pular perto de um Trio elétrico barulhento, povoado por pseudo celebridades, brigando, bebebdo, disperdiçando, maltratando, morrendo em nome da “alegria”.

Nossa visão é tão turva e dependente desse espírito coletivo que mesmo movimentos que teoricamente deveriam gerar contra ponto de reflexão banalizam a consciência criando discutiveis alternativas em forma de “carnavais religiosos”. Completamente patético ! Marchas para Jesus, Carnaval da fé, “Venha pular com Jesus” são apelos que exemplificam o quanto nos validamos a partir do comportamento da massa, seja em um polo ou em outro, mas o fluxo acaba sendo sempre o mesmo.

Sei que muitos me verão como ranziza, contra festas ou comemorações populares, mas prefiro correr o risco até porque sei que outros poucos entenderão. Extistem movimentos de catarses populares naturais e genuinos e não vejo mal neles, mas aqui me refiro ao espirito coletivo que toma conta de nossas mentes e corpos mais do que nunca nessa epoca do ano e que não passam de desinibidores que destampam alminhas angustiadas.

O que me incomoda é nossa incapacidade de nos enxergarmos, de olharmos para as questões que geram – e roubam – vida com a mesma intensidade que nos entregamos ao fluxo e seguimos as ordens sutis, sedutoras e intensas à manada.

Sair desse fluxo requer a capacidade de interpretar a vida com espírito critico, distanciar-se , mudar a perspectiva. Encontrar-se com a própria essência pode não ser tarefa fácil e o caminho de um certamente não será exatamente o caminho do outro, mas em todos os casos a necessidade do constante verificar suas reais motivações e as razões de suas escolhas. Esse é um trabalho necessário para todo o que resolve conhecer-se.

Caso contrário continuaremos engordando no pasto, comendo capim e seguindo a manada até chegar o dia do abate onde assustados olharemos a volta sentindo pela primeira vez que talvez seja tarde demais.

Enquanto isso a gente pula e se entrega a todas as pulsões na expectativa de que uma quarta feira de cinzas nos expurgará e renovará todas as coisas, até o ano que vem.

Os sons do silêncio

fevereiro 18, 2012

A razão pela qual a maioria de nós não suporta o silêncio é que nele há sons que o barulho esconde.

Os sinais. (Um conto)

fevereiro 17, 2012

Olhando de longe e no escuro ele parecia um monte de feno. Tinha olheiras permanentes e sua pele aquela cor que os bebados tem. Brincava com pedaços de madeira, jogando sem força para o cachorro que parecia não se cansar nunca.

Depois chegou o magro com mãos grandes e dedos longos, olhava como se estivesse com a cabeça em outro planeta e tinha mania de fazer um irritante “hã hã” enquanto alguém lhe dizia alguma coisa que não lhe interessava.

Sentou-se ao lado do gordo e não disse nada. Com o tempo os barulhos dos passos apressados do cachorro, os latidos de animação, a respiração ofegante, foram ficando mais baixos do que os pássaros que aninhavam-se saudando o fim da tarde. Raios de sol alteravam a luminosidade, empurrando as sombras, envolvendo as folhas e depois indo embora, clareavam pequenos pontos da terra que logo em seguida escureciam.

Um pássaro noturno atravessa o espaço entre duas árvores gigantes e um dos homens, o gordo, que até agora a pouco olhava o cãozinho dormindo em seu pé fala com voz grave a abafada:

“Você não sabe, mas estou para morrer.”

O magro olha para ele com aquela cara que não vê e só responde com “hã hã”.

“Tenho umas dores esquisitas aí, umas tonturas, essas coisas de corpo velho. No começo não liguei, sabe como é, quando a gente vai atrás a doença gosta e começa a aparecer tudo de ruim. Quando era meninote tive uma dessas doenças de moleque e a Sra Síndoch, acho que era assim que falava aquele nome dos estrangeiros, veio com uma conversa de levar pro doutor, dar remédio e só sei que quase parti dessa pra melhor ainda de calça curta.

Depois me recuperei e fiquei forte como um touro, até que agora fiquei ruim de novo.” Ele mexe no cachorro que treme uma das patinhas, talvez estivesse sonhando, pega um dos pedaços de madeira que ficou no chão e olha para o colega que só balança a cabeça.

“Semana passada tive um pesadelo e uma dona enorme, parecida com a Sra Síndoch só que maior e mais morena, apareceu e disse que veio me levar. Depois senti uma tremedeira dos pés a cabeça e acordei todo suado, mas ainda assim não levei a sério. Na manhã seguinte nem pensava mais na história até que, tomando uma com o pessoal, ouvi alguém falando que quando a morte quer nos buscar ela nos avisa nos sonhos. Você acredita nisso, não?”

“Hã hã”. Limitou-se o amigo em responder.

“Eu também não, mas a história não termina ai. Quando ouvi aquela conversa de morte dei um jeito de ir embora logo e pensar em outra coisa. Encontrei o Ze na rua, falei com o Sanchez e continuei caminhando junto com o Fedido que agora até dormiu de tanto brincar. Já ia até me esquecendo disso quando, de novo ela, me lembrei da Sra Síndoch que vivia falando no tal pássaro da morte. Sempre que ela via um pássaro noturno, fazia uma expressão de bruxa velha e falava com voz monstruosa que ele estava indo buscar alguém. Sempre achei tudo balela, mas agora são muitas coincidências ao mesmo tempo.” Uma tosse prolongada deixa suas bochechas mais vermelhas e interrompe a fala assustada.

“E o que isso tem a ver com sua morte?” O amigo magro resolve falar com tom levemente irritado e olhar de desdém.

“Você não percebe?”

“Hã hã”

“São sinais, meu colega, são sinais. Se fosse só uma coisa isolada não teria importância, mas junte-se as dores o sonho com a Sra Sindoch aumentada, a conversa no bar sobre a morte e agora esse pássaro que quase sujou nossas cabeças”

O outro fica calado.  Simon olhou para o colega que fez mais um ou dois “hã hã” esperando que dissesse alguma coisa, mas ele só acendeu um cigarro enquanto olhava para a lua, forte, clara, iluminando tudo a volta.

Havia barulho de grilos e insetos na mesma quantidade das estrelas que pipocavam em toda a parte do céu que rapidamente se desenrolou sobre os dois em silêncio.

Fedido acordou com o barulho de um bichinho que passou correndo mas não deu muita bola, nem ouviu um latido distante e insistente. Levantou uma das orelhas e se coçou antes de deitar a cabeça na bota de Simon e voltar a dormir. Lá longe o farol de um carro corta a estrada em velocidade, depois some.

“Vai ficar ai a noite toda?” O homem magro se levanta olhando para o gordo que não ouve. Ele parece fixado em suas ideias enquanto olha o horizonte apagado e murmura: “Ninguém mais vê os sinais. Ninguém enxerga mais nada.”

O outro ignora. Passa as mãos na calça amassada, dá uma tragada e vai embora pensando em outra coisa. Atrás dele a silhueta encorpada parecendo um monte de feno ou de terra ou quem sabe um pequeno monte. Falava baixo com tom lamentoso, balançando a cabeça gorda sobre o papo mole. “Os sinais, ninguém mais vê os sinais.”

A remuneração do autor.

fevereiro 17, 2012

Nada vale mais para um autor do que ler um e-mail como o que o leitor Osmi Vieira me encaminhou hoje. Escrevo para oferecer uma experiência à quem lê, e sempre que constato que deu certo, sinto que recebi a maior remuneração que um autor pode receber: O depoimento de alguém que leu e que a leitura fez diferença.

Decidi compartilhar o e-mail dele com você:

Oi, Flávio.

Recentemente li o seu livro “O Éden” e fiquei surpreso com a qualidade de sua obra.
Não encontrei o livro aqui em Brasília, mas não desisti e consegui comprar em São Paulo, e esta pequena dificuldade apenas acendeu a minha vontade, pois havia lido uns pequenos trechos e pensei: ”rapaz, que livro difícil de encontrar, deve ser mesmo muito bom!”
Resultado: li em dois dias, enquanto não terminei, não sosseguei e imediatamente presenteei uma das pessoas mais queridas que conheço, minha melhor amiga.
É claro que seu livro contém referências sutis a um sem número de outras obras de contéudos filosóficos, científicos, etc.
e poderia citar Carl Sagan, Herman Hesse, Khalil Gibran (autores que aprecio tanto), entre outros e ideias de conexão com a natureza que estão presente desde sempre em muitas culturas orientais. Tudo feito com muito cuidado e de certa forma renovando estes conceitos com uma trama cativante e uma linguagem simples e bonita, parabéns!
Sem dúvida é uma obra que está além das diferenças das crenças e é impossível alguém ficar indiferente com o que é proposto ali. Veio em momento muito importante de minha vida e tudo o queria dizer é muito obrigado!
 
Já algum tempo, criei coragem para publicar alguns textos de minha autoria num blog.
Se tiver um tempinho, gostaria que lesse um em especial que fala mais ou menos sobre o que é exposto no seu livro, é claro que de uma forma totalmente diferente, mas é sobre esta coisa das pessoas se afastarem de si mesmas. Usei uma linguagem mais hermética e se parece mais com uma parábola, do que um conto.
 
Segue o link do referido texto.
 
Grande Abraço,
 
Osmi Vieira
osmivieira@gmail.com

A semente da ganância

fevereiro 15, 2012

A semente do amor ao dinheiro é contraditóriamente um dos maiores fatores de empobrecimento em todos os níveis. Ela é plantada e regada pelos que lucram em manter as pessoas cegas em eterna busca entre labirintos e prisões.

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