Imagine que enquanto você lê essa “auto apresentação”, exatamente agora, surge uma movimentação diferente ai no seu ambiente. Passos curtos e apressados em sua direção até que uma mãozinha quente, pequena e um pouco melada toque em seu braço. Você se assusta , especialmente quando percebe a familiaridade daquele olhar.
Ninguém diz nada. A criança deve ter entre sete e oito anos, veste-se como as outras (talvez um pouco mais antiquada), mas no geral não difere em quase nada de todas, a não ser por aquela inquieta sensação de proximidade, como se ela pertencesse a um momento, ambiente, grupo… não está claro de onde é… mas como lhe parece familiar !
Esse encontro poderia ser uma besteira, um episódio motivado pela aproximação repentina ou pela quebra de concentração de quem lia atentamente um texto na internet. Certamente cairia no esquecimento se não fosse por um detalhe: Essa criança é você.
O que você diria a si mesmo se tivesse que explicar – anos depois- o que fez com os sonhos de criança ? Será que teria facilidade em dizer a razão pela qual se transformou em tudo o que nunca quis ser? Necessidades, curvas da vida, escolhas de adulto, as coisas mudam, era tudo utopia, a realidade é dificil, fui forçado, levado, empurrado, coagido, subestimado, feito refém de escolhas imutáveis que me descaracterizaram e me fizeram quem sou; você acha que alguma dessas explicações lhe convenceria e evitaria encher aqueles olhinhos de lágrimas?
Olhando para seus olhos de sete ou oito anos, sentindo a tensão na respiraçãozinha de um ente que- alguns anos adiante- viraria você, que tipo de coisas diria? Faria alertas? Daria explicações? Pediria desculpas?
De vez enquando me encontro com aquele menino que fui. Conto a ele minhas histórias no rádio, os lugares por onde passei e as coisas que fiz. Inisisto em dizer que depois de 20 anos nas principais emissoras de rádio do país, decidi escrever livros, blog, fazer TV e tudo mais. Ele não parece se empolgar.
Falo sobre meus projetos, como o terceiro livro que me preparo para começar, meu trabalho na Vem e Ve TV, na Rede Pampa, até sobre esse blog aqui, mas ele fica me olhando com cara de “e daí?”.
Ai eu paro e me recordo do que era mais importante, do que eu queria ser- não fazer- do que sempre quis construir, de tudo o que mais valorizei e aproveito para reavaliar onde mudei, quais escolhas tinham a ver comigo e quais só me desviaram do meu próprio caminho.
Nessa hora paro de contar vantagens e prometo ao menino que, se um dia eu me ver tão longe ao ponto de estar perdido, recorrerei a ele, pegarei em sua mãozinha melada, ouvirei sua voz suave e inocente e deixarei que a lembrança do que um dia fui, na melhor pureza de minha inocência, me traga de volta para casa.
Sou um cara que, apesar das distâncias, faz de tudo para não se esquecer o caminho de casa.
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