Arquivo para ‘Poetas e escritores’

dezembro 13, 2008

Homem universal.

O homem de muitas perfeições vale por muitos.

Ele torna a vida feliz e transmite este prazer aos amigos.

A variedade casada com perfeição torna a vida agradável.

É uma grande arte saber aproveitar tudo o que é bom.

A natureza fez do homem sua obra prima, um resumo das qualidades naturais.

Que a arte o converta, pelo exercício e pelo cultivo, em um universo tanto de bom gosto como de inteligência.

Baltasar Gracian- A arte da prudência.

novembro 20, 2008

Ostra feliz não faz pérola

Um dos meus passatempos preferidos aqui em Porto Alegre é passear entre os livros da livraria Cultura do Bourbon Country.

Entre um e outro, vi o livro do ótimo Rubem Alves : “Ostra feliz não faz pérola” rubem_alves2

Na parte de trás o texto era mais ou menos assim : Se na ostra não houver um grão de areia, não existiria a pérola.

Ela pensa “esse grão me arranha, machuca, faz mal. Construirei uma superficie lisa que me propicie conforto e me livre desse incomodo, depois faz a pérola.”

Seres humanos permanentemente felizes não criam. Tem que ter um incomodo, uma coceira que não deixa parar e nos faz queremos transformar areias e pérolas.

Grande Ruem Alves !

outubro 30, 2008

Variar o modo de agir.

Assim se confundem os outros, especialmente os competidores. Não se deve agir sempre igual, pois a rotina se tornará uma armadilha e as ações serão antecipadas e frustadas.

É mais fácil matar a ave que tem um vôo uniforme que aquela que troca sua trajetória.

Também não se deve usar os mesmos truques, pois a armadilha será descoberta quando repetida.

A malícia espreita a ocasião, é preciso grande sutileza para despistá-la.

O jogador astuto nunca move a peça que seu oponente espera, e menos ainda a que ele deseja.

Baltasar Gracián em A Arte da Prudência

outubro 28, 2008

Onde estava o dinheiro ? José Saramago.

Declarção recente do escritor português José Saramago ao analisar a atual crise financeira:

“Onde estava todo esse dinheiro (desbloqueado para resgatar os bancos)? Estava muito bem guardado. Logo apareceu, de repente, para salvar o quê? vidas? Não, os bancos… Marx nunca teve tanta razão como agora”

outubro 25, 2008

Melhor ser um louco entre muitos do que um sábio sozinho.

É o que dizem os políticos. Afinal, se todos são loucos, não há nada a perder. E se a sabedoria estiver só, será considerada loucura. Por isso, é muito importante seguir a corrente. A grande sabedoria, ás vezes, está em não saber ou fingir não saber.

Temos de viver com os outros, e os ignorantes são maioria. Para viver isolado é preciso ser quase divino ou quase besta. Eu, porém, moderaria o aforismo dizendo: melhor ser um sábio entre muitos do que um louco sozinho.

Baltasar Gracián- A arte da prudência.

outubro 23, 2008

Evitar as vitórias sobre o chefe.

Mais uma do Baltasar Gracián ( essa eu deveria ter lido antes !*rs):

 

Toda derrota é odiosa e, se é sobre o chefe, ou é tola ou é fatal.

 

 A superioridade sempre foi odiada, mais ainda pelos superiores. O sábio deve ocultar as vantagens mais comuns, assim como se disfarça a beleza com o desalinho.

 

É possível encontrar quem aceite ser superado em sucesso e em caráter, mas ninguém quer ceder em inteligência, muito menos um superior.

 

É este o maior dos atributos e por isso qualquer crime contra ele será de lesa-majestade.

 

Quem é poderoso quer sê-lo no mais importante.

 

Os chefes gostam de ser ajudados, mas não superados. Ao aconselhá-los, é melhor que o aviso pareça uma lembrança de algo esquecido, em vez de ser luz do que não se alcançou.

 

Os astros, com acerto, nos ensinam essa sutileza, pois ainda que sendo filhos brilhantes nunca competem com o brilho do Sol.

outubro 22, 2008

Jogar Limpo.

Baltasar Gracián, um dos grande escritores do barroco espanhol, viveu entre 1601 e 1658.

” A arte da prudência” foi escrito em 1647 com a intenção de ofercer aos seus contemporâneos uma espécie de guia que lhes ajudasse a enfrentar os embates do dia a dia.

No trecho a seguir, fica claro que sua obra ainda é muito atual:

 

O homem prudende pode ser obrigado a lutar, mas não com jogo sujo: cada um deve agir como quem é e não como o obrigam.

Na competição, a elegância é plausível :deve-se lutar não somente com poder, mas também com descência. Vencer com a maldade não é vitória, mas rendição. A generosidade sempre foi superior.

O homem de bem nunca usa armas proibidas. Como, por exemplo, usar os conhecimentos sobre o amigo com quem brigamos para alimentar o ódio recém nascido.

Não se deve usar a confiança para a vingança.

Tudo o que cheira a traição contamina o bom nome. Nas pessoas de espírito elevado, qualquer átomo de baixeza é muito estranho. É melhor pensar que, se a elegância, a generosidade e a fidelidade se perdessem no mundo, deveriam ser procuradas em seu peito.

outubro 17, 2008

Machado de Assis: O tempo e a liberdade.

UMA VEZ, ACONTECEU que iam falando das vantagens da riqueza.

- Valem muito os bens da fortuna, dizia Estácio; eles dão a maior felicidade da terra, que é a independência absoluta. Nunca experimentei a necessidade; mas imagino que o pior que há nela não é a privação de alguns apetites ou desejos, de sua natureza transitórios, mas sim essa escravidão moral que submete o homem aos outros homens.

A riqueza compra até o tempo, que é o mais precioso e fugitivo bem que nos coube. Vê aquele preto que ali está? Para fazer o mesmo trajeto que nós, terá de gastar, a pé, mais uma hora ou quase.

O  preto de quem Estácio falara, estava sentado no capim, descascando uma laranja, enquanto a primeira das duas mulas que conduzia, olhava filosoficamente para ele. O preto não atendia aos dous cavaleiros que se aproximavam. Ia esburgando a fruta e deitando pedaços de casca ao focinho do animal, que fazia apenas um movimento de cabeça, com o que parecia alegrá-lo infinitamente.

Era homem de cerca de quarenta anos; ao parecer, escravo. As roupas eram rafadas; o chapéu que lhe cobria a cabeça, tinha já uma cor inverossímil. No entanto, o rosto exprimia a plenitude da satisfação; em todo caso, a serenidade do espírito.

Helena relanceou os olhos ao quadro que o irmão lhe mostrara. A passarem por ele, o preto tirou respeitosamente o chapéu e continuou na mesma posição e ocupação que dantes.

- Tem razão, disse Helena: aquele homem gastará muito mais tempo do que nós em caminhar. Mas não é isto uma simples questão de ponto de vista? A rigor, o tempo corre do mesmo modo, que o esperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muito cousa no menor prazo; é fazer muita cousa aprazível e útil.

A rigor, o tempo corre do mesmo modo, que o esperdicemos, quer o economizemos. O essencial não é fazer muito cousa no menor prazo; é fazer muita cousa aprazível e útil.

Para aquele preto o mais aprazível é, talvez, esse mesmo caminhar a pé que lhe alongará a jornada, e lhe fará esquecer o cativeiro, se é cativo. É uma hora de pura liberdade.

Machado de Assis em “Helena” – Livraria Garnier, Rio de Janeiro, p.49-50.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 77 other followers