Urubus e sabiás.

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Por Rubem Alves: “Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam… Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás… Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa , e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

– Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente…

– Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás…

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá.”

A fonte dos sons.

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Há alguns mêses, dei um violão para meu filho de cinco anos.

Ouvi-lo tocar – ainda que para ele tocar se resuma a ficar batendo nas cordas- é maravilhoso.

Ele senta compenetrado com o instrumento no colo e durante alguns minutos mexe nas cordas, dedilha seguindo um sentido próprio e tira um som que pode ser chamado de muita coisa, menos de música.

Pelo menos para os outros.

Para mim, ainda que ele não saiba tocar, vê-lo com aquele violão no colo tentando tirar dele algum tipo de som é suficiente para me encantar.

É claro que vou colocá-lo em um curso, afinal de contas, ele quer aprender, mas o que quero dizer é que a música só me agrada porque ela já está dentro de mim.

A experiência de ver meu filho tentando ser músico, só desperta algo que já é.

Por isso, tanto faz se ele dedilha corretamente.

Tenho consciência que ele não sabe tocar e até por isso evito que ele faça seus “shows” quando recebemos visitas, afinal de contas, ninguém precisa ficar ouvindo o som desafinado que sai do violão de uma criança de cinco anos..

Não sou do tipo que adora exibir o filho para os outros e valorizar seus defeitos como se fossem qualidades, até porque sei do mal que isso faz.

Mas também sei que música de verdade só existe em cada um de nós e os instrumentos só são meios para interpretá-las.

É por isso que, para mim, o som do violão do Flavinho não é qualquer som.

É o som produzido pelos dedos de quem saiu de mim e que começa a demonstrar os primeiros esboços de percepção.

Que depende dos pais para quase tudo, inclusive para aprender a caminhar na vida, mas agora se relaciona com a música do seu jeito, explorando os sons que, se para todos não fazem sentido, para ele faz.

Se é o som que meu filho percebe e o melhor que consegue fazer, não importa o ritmo ou as técnicas, para mim será música da melhor qualidade, porque nasce da percepção de que os melhores sons, sempre vem do coração.

Leia Boechat.

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Nos meus tempos de Band, trabalhei com Ricardo Boechat.

Ainda que não trabalhássemos diretamente juntos, sempre me chamou atenção seu jeito despretensioso, direto e lúcido de tratar com as notícias e as pessoas.

Lembro que, no dia do rádio, a Band fez com que alguns apresentadores da casa dessem “expediente” em outras rádios do grupo.

Eu fui dar entrevista na Nativa FM, o Boechat veio para a RST.

Sua participação foi brilhante e passei a admirá-lo ainda mais.

Confesso que, parte da minha admiração, nascia do grande contraste do comportamento dele com  parte dos jornalistas ( especialmente os da minha idade para baixo) que muitas vezes se posicionam de maneira arrogante.

Por isso ouço com atenção os comentários do meu ex colega e, quando lí essa antiga entrevista (através do site do meu amigo Caio Fabio), dada por ele em 2000, achei que valeria postar no blog.

Apesar da data, trata-se de uma matéria atualíssima, especialmente para os que, como eu, tentam entender os caminhos da notícia atualmente.

Segue abaixo

“Vitor Sznejder, atualmente responsável pela comunicação institucional do jornal O Globo, tem um espaço pessoal na Internet, com o subtítulo ‘Jornalismo e Judaísmo’, que já está se transformado em um ponto de referência para quem gosta de se informar sobre a profissão. Esta entrevista com Ricardo Boechat, que antecipamos antes mesmo de ser colocada, a partir deste domingo (22/10), no sítio do Vitor, já é a quarta, sempre com uma boa revelação da trajetória de personalidades jornalísticas. Vale a indicação para as outras três: Evandro Carlos de Andrade, Mino Carta e Merval Pereira. (André Motta Lima)

Ricardo Boechat

Ele não lerá esta entrevista, embora a tenha concedido de bom grado e com bom humor, em sua mesa na redação do Globo. Admite que não lê nada e que tem especial aversão à Internet. Ganhador de dois Prêmios Esso, trabalha compulsivamente desde os 17 anos de idade, mas não se considera um workaholic. Suas notas exclusivas pautam os meios de comunicação e ainda assim rejeita o rótulo de formador de opinião. Prefere dizer-se, ‘mal comparando, um atirador (de notícias) de elite.’

Quem são e de onde vieram os Boechat?

São imigrantes suíços que vieram pra cá em meados do século passado, cento e tantas famílias atraídas por agenciadores portugueses com a oferta de terras pela Coroa brasileira. Foi um logro. Muitos morreram enquanto esperavam um demoradíssimo embarque em Portugal. Nesse bolo vieram os primeiros Boechats, desembarcaram aqui no Rio. O objetivo da viagem era ocupar terras no Sul do país, que não existiam. Todos acabaram compelidos a encontrar uma saída aqui mesmo no Estado do Rio e se fixaram na serra, onde fundaram a cidade de Friburgo. O meu velho, Dalton, é da terceira geração desses imigrantes.

O que ele fazia?

Formou-se em Filosofia, morou a vida inteira em Aperibé, na época um pequeno distrito do município de Pádua, no norte do Estado. Hoje é município.

Foi onde você nasceu?

Nasci em Buenos Aires, em 13 de julho de 1952. Meu pai era professor de línguas e filosofia e foi levado pelo Antonio Houaiss pra trabalhar como professor do Instituto Cultural Brasil-Argentina, a soldo do Itamaraty. Lá trabalhou um tempo, depois foi pra Montevidéu com a mesma tarefa, integrando a equipe de professores do Instituto Cultural Brasil-Uruguai. Nesse período conheceu a minha mãe, Mercedes Carrascal, que é argentina de nascimento mas morava em Montevidéu. Casaram-se e lá tiveram quatro dos seus sete filhos. Os três últimos já nasceram no Brasil. Meu pai voltou em 1954 pra trabalhar na Petrobrás, de onde só saiu dez anos depois, demitido por ocasião do golpe militar. Era um homem ligado à militância e à luta política. Na minha casa, política era uma coisa diária: se discutia, se falava, se lia, se debatia, muitos amigos dele freqüentavam a minha casa e alguns eram do Partidão (Partido Comunista Brasileiro).

Então você foi criado nesse ambiente altamente politizado…

No golpe de 1964 eu tinha 12 anos. Até o início da década de 70, quando a ditadura militar ficou mais violenta, minha casa continuou sendo um local de encontro, de discussões, embora meu pai, àquela altura, já estivesse cassado há anos e, vez por outra, voltasse a ser preso.

E você, o que fazia? Estudava?

Eu fui recrutado pelo Partidão com 14 anos. Fazíamos militância na área estudantil, basicamente secundarista, no Centro Educacional de Niterói, que era o meu colégio. Eu decidi abandonar a escola quando tinha 17 anos, não terminei sequer o curso Clássico, que equivale hoje ao período de 5a. a 8a. séries do 2o. grau. Não queria mais ficar numa sala de aula ouvindo, anotando, estudando coisas – eu queria fazer coisas.

Fazer, o quê? Já pensava em Jornalismo?

Nunca tinha pensado claramente em ser jornalista. Tentei emprego numa empresa que vendia material pra escritório, e fui vender livro com a minha mãe. Meu pai chegou a ser um dos maiores vendedores da Barsa, que era a (enciclopédia) Britânica Brasileira.

A propósito, dizem as más línguas que você hoje em dia quase não lê, é verdade?

Hoje apenas folheio jornais e revistas, e não leio livros há muitos anos…

E a Internet? Algum site que lhe interesse?

Pouquíssimos, pouquíssimos, e quando me seduzem logo na chamada. Nem sei mexer, não sei acessar, nem quero aprender, não tenho saco!

Bom, mas voltando ao trabalho e ao Jornalismo…

Eu tinha gosto pelo noticiário político, mas vivíamos um período de censura. Então devorava o noticiário internacional. Era capaz de descrever nomes de aldeias e de oficiais envolvidos na guerra do Vietnã, Camboja, Laos etc. E, por sorte, aprendi datilografia no colégio. Essas eram as minhas duas afinidades primárias com o jornalismo. Meu primeiro emprego com carteira assinada e rotina foi no Diário de Notícias, pra onde fui em 1970. Quem me levou foi Kleber Saboya, que era o diretor comercial do jornal, pai de uma colega de escola.

Mas você foi contratado para fazer o quê?

Eu fui para lá sem função definida, porque eu não sabia rigorosamente porra nenhuma de jornal. O Kleber me deu uma oportunidade, me encaminhou prum chefe de reportagem e disse: ‘ó, vê se esse menino dá pé, bota ele pra fazer algumas coisas aí’ , e eu fiquei ali, meio largado nesse ambiente, movido apenas pela vontade de fazer alguma coisa diferente do que eu vinha fazendo até então.

Como era o jornal?

O Diário de Notícias tinha naquela época um caderno escolar que dividia com um similar do Jornal dos Sports o mercado de anúncios e de notícias na área de cursinhos e vestibular. Esse era um tema que, durante determinado período do ano, era de alto interesse para a faixa de leitores jovens, que tentava ingressar na universidade, e suas famílias. Eu me engajei, digamos, como um pré-foca desse caderno, primeiro anotando coisas, recados, pautas, organizando os releases que chegavam… Os resultados dos vestibulares eram divulgados em listas datilografadas, às vezes com as notas manuscritas, aluno por aluno, prova por prova, e o jornal publicava essas listas. Em algumas ocasiões, não poucas, eu ia pras faculdades copiar isso aí. Dentro da redação, quando essas listas eram divulgadas, milhares de alunos ligavam aflitos pra tentar saber se tinham sido aprovados e eu também ficava atendendo esses telefones… Isso foi em 1970, 1971 e o Nilo Dante, que era o editor-chefe do jornal, me via todo dia ali — eu chegava muito cedo e saía muito tarde. Foi ele quem me levou para trabalhar com Ibrahim Sued.

Então você já era esse workaholic, como é conhecido?

Eu não sou propriamente ‘workaholic’, eu apenas sei que se eu trabalhar menos, não consigo notícias. Não é um problema de gosto.

OK, voltemos ao Nilo.

Um dia ele me chamou e disse: ‘ garoto, você quer fazer um bico?’ Eu quero, Sr. Nilo! Ele disse: ‘ então vai nesse endereço aqui e procura o Ibrahim Sued.’ Eu tomei um susto! Porque o Ibrahim era uma celebridade, porque eu estava com 17 pra 18 anos, com todos aqueles valores e convicções da juventude, e de repente tenho esse dilema: ou faz a tua opção pelo que você imagina ser uma grande coerência ideológica…

Ou vai ganhar dinheiro? (risos)

O Diário pagava 400 cruzeiros por mês e pagava atrasado, na época já era um jornal pré-falimentar. O Ibrahim me ofereceu 600.

E como foi o seu primeiro contato com ele?

Cheguei lá no sábado, dei de cara com aquele mito, aquela figura. Ele me perguntou assim (imitando a voz e o jeito): ‘Você é de esquerda?’ Eu disse: ‘não, seu Ibrahim, só se for da festiva’ (risos), porque naquela época você não brincava com isso! E ele retrucou: ‘Ah, essa é a pior de todas!’ (risos)

E me explicou que aquilo era um estágio, um bico. ‘Você tem uns cadernos de telefone ali naquela gaveta (eram os cadernos que tinham sido deixados pelo João Bosco Serra, a quem eu estava substituindo). Pega ali os telefones e vai ligando. Diz que trabalha pra mim, pede notícia e escreve numa lauda e me dá.’

Vem daí o seu hábito de manter telefones anotados nesses ‘sebosos’?

É! (mostra e folheia, orgulhoso, cadernos em espiral com folhas amareladas pelo tempo.) Passei a trabalhar no Ibrahim e pra você ter idéia de como foi difícil a adaptação, depois de quatro anos lá, eu desci no elevador com ele às 13h30 de um sábado, e ele disse assim: (imitando) ‘Ó, garoto, rasguei o teu bilhete azul ontem! Até ontem tu tava com o bilhete azul na minha gaveta!’ Queria dizer que era a minha demissão, porque ele achava que até o quarto ano eu ainda não tinha aprendido a fazer aquilo, e provavelmente estava certo.

Difícil, hein? (risos)

Tinha que ter estômago …

Seria essa a origem da tua gastrite?

Pode ser, provavelmente… Eu ralei muito lá, ah, penei muito. Não tinha conversa! Eu trabalhei lá 14 anos e sofri 14 anos, até 1983!

Mas provavelmente aprendeu muito, né?

Eu costumo dizer que o Ibrahim era um excelente professor e um péssimo patrão. O Turco era um grande colunista, o maior colunista, mas ele era um personagem do seu próprio noticiário: era a visão dele, o comentário dele, era muito a primeira pessoa… e ele tinha notícia como ninguém, e tinha um faro inigualável. Mas a notícia pro Ibrahim era sempre parte de um universo que ele tratava como algo que partia ou vinha pra ele.

Neste sentido você faz um trabalho completamente diferente…

Eu lido com a notícia como qualquer editor aqui. Nesse sentido, eu tenho mais instrumentos de discussão jornalística do que ele tinha e eu boto isso num grau de exigência que, reconheço, tem feito mal, física e psicologicamente, a mim e a quem trabalhou comigo…

E dava pra viver bem com aquela grana?

Enquanto estive no Ibrahim, sempre tive paralelamente outro trabalho! Como pagava muito mal, e talvez percebendo que fosse bom para ele e para você ter outras experiências, ele ia te indicando para bicos, para assessorias etc.

Por exemplo?

Ele me indicou para o editor-chefe da Rádio Nacional, onde eu trabalhei durante uns dois anos e meio; também por dica dele, fui assessor de imprensa da Embratel e do Copacabana Palace.

Mas então, por que você se irrita tanto com os assessores de imprensa?

Não, ao contrário! Na verdade, tenho bronca é de qualquer um que esteja militando nesta atividade e se esqueça que o seu produto é notícia. Esses tomam o teu tempo, te ligam nas horas de fechamento, nas horas mais absurdas… Mas não tenho nenhum preconceito! Penso que as corporações, as instituições, os governos, têm que ter as suas estruturas para lidar com a mídia, e essas estruturas, não raro, têm acesso privilegiado a determinadas notícias e essas é o que eu quero, através dessas é que eu quero me relacionar com elas. O resto, doutor, não me interessa — e eu digo isso para eles! Então, pode parecer que há uma certa resistência à função, mas não é. E é muito comum você ver jornalistas se esquecerem que são jornalistas e pensarem que se formaram em assessores, o que não existe.

Pois eu tinha a impressão de que você só atende a algumas pessoas…

Não, eu atendo todo mundo! Aqui (na equipe) todo mundo atende tudo, nós não temos secretária!

Você atenderia ao assessor da Carla Perez? (risos)

O que eu não quero é atender o assessor da Carla Perez pra qualquer coisa que não seja notícia… Mas, atenção! Também não quero perder tempo com o assessor do presidente da República pra qualquer coisa que não seja notícia!

Essa regra vale pra todo mundo, inclusive para amigos como o Moreira Franco, de quem você foi assessor de imprensa?

Todo mundo! E o Moreira é um belo exemplo, porque é uma fonte horrorosa, nunca teve sensibilidade pra saber o que é notícia, mas ele reconhece isso… (risos)

Como foi essa assessoria? Ele era de Niterói, não?

Moreira Franco saiu candidato a deputado federal pelo MDB do Estado do Rio em 1974; era genro do almirante Amaral Peixoto, um político com quem o Partidão tinha relações muito boas. O almirante era um contribuinte contumaz, nas campanhas de arrecadação para as finanças do partido. A política do Partido Comunista Brasileiro era ter candidatos próprios, quadros que ainda estivessem na legalidade, o que era difícil… E como eram poucos, o partido apoiou, aqui e acolá, outros candidatos, numa política de ampliação de alianças.

Trabalhei pela eleição do Moreira em função dessa circunstância. Tive poucos contatos com ele, e muito superficiais, em panfletagens e comícios. Mas em 1976, quando ele se elegeu prefeito de Niterói, novamente foi apoiado pelo Partido, que teve a prerrogativa de fazer algumas indicações. Eu fui levado para a assessoria de imprensa do Moreira como uma tarefa do partido — e continuei trabalhando com o Ibrahim!

Mas com era possível conciliar essas coisas?

Eu ia pra prefeitura de manhã cedo, muito cedo, dava os primeiros encaminhamentos e vinha pro Rio fazer a coluna do Ibrahim . Era muito mais fácil fechar a coluna do Ibrahim do que fechar uma coluna como a minha, hoje.

Por quê?

Não havia essa enorme quantidade de colunas especializadas disputando notícias, e, paradoxalmente, a censura era um fator de vantagem porque a coluna transitava por bastidores, permitia-se abordagens mais informais, declarações em off etc.. Além disso, a figura do Ibrahim era vista como aliada do sistema, então você abria algumas portas quando ligava… O ministro Armando Falcão, que não tinha nada a declarar pra ninguém, era uma belíssima fonte, em off, claro, mas dava notas importantes, antecipava coisas.

Voltando à prefeitura…

Fiquei na prefeitura até o Moreira ir pro PDS, naquele racha do MDB do estado… não me lembro o ano, sei que houve um processo de rompimento no MDB, quando houve a fusão (dos estados do Rio e da Guanabara).

Mas vocês permaneceram amigos?

Ainda que eu tivesse ido pelas razões que já descrevi, a gente criou uma relação de amizade e passei a ser um amigo pessoal dele. E ainda sou, embora as nossas rotinas se tenham distanciado já há muitos anos. Mas ainda nos falamos com freqüência..

Você tem consciência de que a suas notas pautam o Brasil?

Essa é uma característica das colunas no Brasil. Pode-se admitir que a minha faça isso com mais freqüência. Tenho uma equipe talvez mais equilibrada, num jornal grande, a televisão dá mais visibilidade, enfim…

Qual é a missão do jornalismo?

Informar, difundir fatos.

E que tal ‘formar’ cidadãos ?

Quem forma é a família, a escola, é o núcleo de vida do cotidiano do cidadão, é a sua comunidade, a sua cultura, sua religião, isso forma..

Sua opinião sobre o jornalismo praticado hoje, de maneira geral, não parece ser das mais elogiosas…

O jornalismo brasileiro é repetitivo, oficialista, depende assombrosamente do mundo institucional. Alimenta-se daquele Triângulo das Bermudas formado pela Câmara, Senado e Planalto numa intensidade que talvez não interesse ao Brasil verdadeiro, à sociedade, ao cidadão comum. E todos os jornais fazem igual, o que talvez explique aquele fenômeno sobre o qual já falamos, de as colunas brasileiras serem tão mais lidas, e pautarem tão mais do que no resto do mundo.

Percebo que você é generoso com os que o cercam…

Minha maneira de lidar com o mundo nada tem a ver com o fato de exercer o jornalismo. Sou o que sou porque fui educado assim. Se posso ajudar alguém, ajudo. Mas, atenção, não sou uma patronesse da ABBR ou a Irmã Dulce. Estou muito aquém do que um homem com as minhas condições pode fazer! Talvez eu esteja muito além da média do que a sociedade brasileira… Como as sociedades do mundo contemporâneo transformaram-se em predadoras de si mesmas e dos seus semelhantes numa intensidade que o mundo jamais viu, eu talvez não esteja acompanhando esse processo de desumanização na mesma violência e rapidez.

Mudando de assunto: você é o apresentador do vídeo institucional da Infoglobo. A que se deve a sua escolha? Por você representar a imagem do jornal? Por integrar, por assim dizer, a sua cúpula?

Atendi a um pedido da Ana Luisa Marinho (gerente de marketing institucional da Infoglobo), por quem eu tenho um grande carinho; e não posso negar que é motivo de orgulho saber que uma pesquisa identificou a imagem da minha coluna com a do Globo. Quanto a integrar a cúpula do jornal, de jeito algum — sou como todos aqui dentro. No máximo, eu sou alguém que eles ouvem. Além disso, seria uma apatia muito grande, minha, uma negação da minha própria personalidade, não ir lá encher o saco deles. O que eu faço, isto sim, é permanentemente encher o saco deles! Eu provoco, eu me considero um provocador.

Como no caso do Dossiê Cayman, por exemplo?

Eu fui o primeiro a ter a informação de que existia o dossiê. Até hoje acredito que existe um dossiê sério, verdadeiro, como acredito piamente no fato de que o ministro Sérgio Motta e seus companheiros de São Paulo deram um destino qualquer à monumental sobra de dinheiro da campanha da primeira eleição do Fernando Henrique Cardoso. E não creio que esse destino tenha sido a ABBR, ou a APAE ou o Instituto do Coração. Confio no caráter, na probidade, na seriedade de propósito, na sinceridade religiosa do pastor Caio Fábio! Tenho absoluta convicção de que ele estava falando de alguma coisa muito mais séria do que a contra-informação do governo conseguiu fazer crer, com a ajuda da mídia.

Mas ao apostar nessas coisas você corre um grande risco, não é, tem uma enorme margem de erro?

Mal comparando, é como se eu fosse um atirador de elite, tá? O atirador de elite não é o chefe de polícia, ele não é o teórico da segurança pública, não é o ator principal do filme, ele não é merda nenhuma; ele é um figurante, mas tem uma função específica e vital que é a de disparar uma única bala e resolver o problema. Você tem que aceitar como parte desta atividade uma margem de erro, porque se não tivesse margem de erro, o atirador seria o herói do filme. Eu estou aqui dando tiro o dia inteiro. Cabe ao público concluir que minha média de acertos justifica que ele volte a ler a minha coluna no dia seguinte. Eu estou no Globo há 17 anos e na batalha há 30. Todo dia este contrato é renovado por pessoas que eu não conheço. Então, eu acho que a margem de acerto tem sido satisfatória. Quanto aos erros, tenho que agir com honestidade, corrigi-los, desculpar-me e pagar um preço por isso se o atingido resolver ir à Justiça também.

Pai amantíssimo de cinco filhos, por que, em sua opinião, é mais difícil manter um casamento do que cuidar de filhos?

Casamento é mais difícil, é a relação entre dois iguais, entre dois adultos que já delinearam a sua personalidade, seu universo, seus interesses, idiossincrasias, neuras, desilusões etc… O filho, além de não estar ainda maculado por tudo isso, ainda é mais permeável à tua influência e autoridade. Além do que, a relação com os filhos está revestida de um fatalismo maior: não há ex-filho, você tá ali na compulsoriedade! (risos)

Você sabe do poder de sedução que exerce sobre as mulheres da redação, não sabe? (sorriso)

Eu? Nem eu sabia disso! (sério) Nunca fui conquistador nem mulherengo. Casei muito cedo, fui monogâmico. Mais monogâmico do que fiel. (risos)

Explica a diferença, por favor?

Monogamia é um fato estatístico, a fidelidade é um fato afetivo, moral, ético. Além do mais, sempre achei muito trabalhoso pular a cerca. O infiel tem que ter boa memória, tem que guardar uma quantidade monumental de álibis e versões… (ar de cansaço) … Eu vou te dizer, você vê a hora que se chega aqui, a hora que se sai, a rotina que se leva… chega num fim de semana ou numa hora que você possa sair mais cedo, eu quero ir pra casa, eu quero ficar quieto, não quero pensar, quero tomar um banho, quero ver um filme, entendeu?

Que tipo de filme?

Qualquer um. Eu vejo qualquer porcaria…”

Movidos pelo medo.

Pare um segundo e pense no que é mais valioso para você.

Eu falei sério, pare um pouco e pense.

O que pensou ?

Se você tiver filhos, provavelmente pensou neles. Talvez o marido, esposa, irmãos, pais…Tem aqueles que, quase incofessávelmente, pensaram no carro, apartamento, carreira.

Apesar de, em muitos casos, as prioridades coincidirem , nada é para os outros exatamente como é para você.

Mesmo que grande parte das pessoas compartilhem dos mesmos anseios, no fim das contas, eles servirão para preencher lacunas absolutamente específicas.

Se pudessemos enxergar nossas dinâmicas interiores em uma tela de computador, veriamos que tudo o que está na superfície – e naturalmente visivel- nada mais é do que o resultado de combinações do que se esconde nas profundezas.

Básicamente, é a soma de nossos medos que produz grande parte de nossas motivações.

Nos deixamos mover pelo medo.

O caminho entre esses dois pólos – medo e motivação- é pavimentado a partir do significado que damos a cada coisa.

É você quem decide o quanto vale cada passo, recuo, baque, conquista, tragédia, traição, perda, decepção ou surpresa.

Cada um desses elementos, estão presentes na vida de todos.

Muda a intensidade, variam os tons, mas ninguém vive até a maturidade sem experimentar cada uma dessas circunstâncias e, de alguma maneira, ver seu caminho influenciado por elas.

Basta um pouco de atenção para que você perceba que acontecimentos iguais, causam impactos completamente diferentes entre as pessoas.

Isso porque, quem dá significado é você.

Para extrairmos o real valor de cada coisa, é preciso que o percuso entre o medo e a motivação seja iluminado pela luz do auto conhecimento.

O caso Susan Boyle e a Graça.

Você já deve ter ouvido falar sobre a gordinha desajeitada que, ao abrir a boca, conquistou o mundo.

A escocesa Susan Boyle ficou famosa depois que participou de uma espécie de “idolos” da tv da Grã Bretanha.

Inicialmente ao vê-la no palco, os jurados não esconderam as expressões de desprezo, logo substituidas por embasbacamento assim que a cantora iniciou sua interpretação de “I dreame a dream”

Desde então, ela já virou fenômeno na rede com milhões de acessos, o que lhe rendeu propóstas tentadoras de grande gravadoras.

Para mim, o caso Susan traz algumas lições:

1- No mundo onde novos cantores tentam se parecer com modelos, chocou a imagem da mulher que não se parecia com a voz.

2- Talvez seja sinal de que as pessoas estão cansadas das mesmas caras e bocas das “celebridades” cantoras.

3- Vivemos na era da aparência, onde mais do que talento a grande preocupação é parecer talentoso.  Susan provou que não precisa ser assim.

4-Sua humildade e bom humor diante das expressões de julgamento negativo, deram o tom de confiança de quem não precisa mais do que do talento.

5- Será que se ela chegasse com sua demo em uma gravadora, alguém a receberia?

Mais do que qualquer coisa o caso de Susan Boyle chamou atenção para que lembremos que os dons,vem de graça.

Se somos levados a fingir o que não somos ser, somente na expectativa de que agraderemos, é bom nos lembrar que não precisa ser assim.

Talento é graça, e graça, é favor imerecido.

Ninguém é dono, ninguém merece.

Susan venceu porque foi ela mesma.

Não tentou se passar por quem não era e somente deixou que a graça os levasse.

Todos se espantaram.

Diante de tanta fabricação, é bom ver a algo genuino no palco da Grã Bretanha.

E as expressões sem graça diante da graça ?

É sempre assim.  Quando menos se espera ela chega.

Pode ser em uma senhora gordinha ou na menina da favela, não importa, você nunca conhecerá sua lógica.

A Graça é livre, e vem de Deus.

Ela preenche os vilarejos escoceses, as favelas paulistas, os morros cariocas,os faróis de Porto Alegre e os becos mais escondidos do mundo.

Ninguém a manipula.

Felizes os que sabem que isso não depende de nossas performaneces, seja nos palcos, seja na vida.

Não é por mérito, para que ninguém se glorie.

Naquele programa de tv e depois no mundo, todos se renderam a graça em Susan Boyle.

Como dizer que é diferente ?

Não sei porque, mas todos os videos relacionados a Susan Boyle tem dado erro aqui no wordpress. Caso não tenha conseguido ver, clique duas vezes sobre a imagem do video, ou vá ao link:

Voce percebe ?

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O mundo é sempre o mesmo.

Todos os dias o sol nasce de manhã e depois se põe.

Enquanto uns dormem, outros trabalham durante as madrugadas.

Nas ruas os carros vão e vem, enquanto executivos, estudantes e donas de casa dividem apressadamente a mesma calçada.

Apesar dos visíveis avanços tecnológicos e cientificos, como diria o escritor de Eclesiastes, nada é novo debaixo do sol.

No entanto, apesar dos bilhões de anos da Terra, a existência só tem a idade de nossa percepção.

Foi quando o homem discerniu que existia e começou a estabelecer referências que de fato a vida começou.

É nossa capacidade de perceber que traz luz aos contextos e faz com que, a partir de então, passem a existir.

O mundo é sempre o mesmo porém o que muda é o olhar.

A maneira que percebemos as coisas reflete exatamente como está nossa condição interior e isso faz toda a diferença.

Temos a tendência de culpar possíveis traumas de infância, má sorte na vida, falta de amor da esposa ou dos pais por nossos desacertos. A verdade é que frequentemente nos escondemos atrás de desculpas.

Seu olhar denuncia o que te habita.

Se seu coração for cheio de paz, a vida parecerá mais leve.

Se nele habitar mágoa, seu espírito será de acusação, sempre na defensiva e cobrando da vida como se todos te devessem alguma coisa.

Para esse o oceano será somente um ajuntamento de água, o céu azul uma mistura de gases, o amor somente reflexos químicos ativados por carências psiquicas.

Quando estamos sem luz o olhar não vê nada além de nossa própria escuridão.

Problemas todos tem mas a maneira como olhamos para eles muda tudo, afinal de contas, um olhar sereno, cheio de sabedoria, tem a capacidade de dissecar o mal, absorvendo da calamidade o que faz bem.

Como já falamos aqui, não existe o mal que é sempre mal, assim como o bem que é sempre bem.

Bem e mal convivem a partir de bilhões de possibilidades em todos os desdobramentos que as situações podem desencadear em nossas vidas.

A grande questão é : você percebe?