Música

Relendo o blog me deparei com esse artigo escrito em 2008. Foi no tempo em que cheguei em Porto Alegre e me reacostumava a outro ritmo.

O bom em ler textos escritos pela gente em outros momentos é que eles nos soam como novidade. No meu caso, passo a ser mais um leitor e acabo absorvendo o que eles dizem a partir de outra perspectiva- a percepção do leitor é diferente da de quem escreve.

No rádio de novo, preciso rele-lo com certa periodicidade para que não me perca do bem que a música sempre me trouxe.

O texto é o seguinte:

Sempre gostei de música.

Antes de imaginar que um dia eu seria locutor de rádio, foi a música quem me atraiu.

Quarto escuro, luzes apagadas, mente distante….música.

Com o rádio ligado, esperava com o pause, play e rec acionados para, ao som da música preferida, disparar minha fitinha k7 a gravar.

Ia ao Mappin Itaim em São Paulo com meu irmão comprar discos e aquilo era muito bom.

Quando comecei no rádio, ainda em 1991, o LP era usado. O bom do disco é que você quase “pega” a música, escolhe a faixa, o lado…Às vezes, depois de sair do ar, ia a discoteca, pegava um disco, encontrava um estúdio vazio e ficava lá, ouvindo…

O tempo passou, a tecnologia mudou, andei por diversas emissoras, vários estilos e a música foi virando elemento de trabalho.

Se antes eu tocava rock, depois axé, eletronico, pagode ou jazz, ficava dificil ser muito crítico. ( nota atual: até rebolation já toquei…rs)

Profissional tem que ser assim, dizem.

Musica foi virando a hora de beber água, da preparação da vinheta, da busca do próximo texto, de atender ao telefone…

Aí você vai trabalhar de madrugada.

 Poucas profissões são mais solitárias do que a do locutor que fica nas madrugadas no ar falando, brincando, criando, enquanto a maioria dorme.

Rádio escura, segurança dormindo e você lá: falando, sorrindo…quantos ouvindo?

Nessas horas a gente buscava alguma coisa  pra fazer : Jogo de paciência depois internet, livros…

Quando você sai do ar não quer mais ouvir música nenhuma sob o risco de não conseguir convencer a mente que agora é hora de descansar.

O resultado é que chega a hora em que a paciencia para ouvir música termina, a não ser profissionalmente.

No rádio do carro noticias ou “monitoramento profissional” dos brecks, colegas, vinhetas, estratégias das concorrentes, de tal forma que, quando entra a música, a gente muda o dial.

Faz pouco mais de dois mêses que não abro um microfone de rádio. Faz poucas semanas que voltei a ouvir música.

Impressionante, mas agora consigo parar, prestar atenção na letra, deixar a música falar.

Acho que eu estava precisando disso.

Sem obrigação ou espirito crítico, só me deixar levar…ir para onde a mente quiser.

E, saiba, isso é bom.

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A volta.

De repente as pessoas foram chegando.

Aquele barulho que rangeu durante toda a madrugada cessou o que dava a entender que a porta estava aberta: -Pelo menos não me incomodarei mais com ela.

Na verdade, nada me incomoda mais – pensou enquanto percebia as pessoas chegando – Nem as pessoas, barulhos, problemas….

Vendo daqui, lamento por ter me preocupado tanto. Se eu soubesse que simplesmente não valeria a pena… Alguém segura sua mão: – Fique tranquilo, estou aqui. – A voz era conhecida, mas ele estava cansado demais para olhar.

Os pensamentos não cessavam: Porque será que consigo sentir a energia das pessoas ? Parece que, invisiveis, elas invadem o ar e cada particula de oxigênio fica impregnada de tudo o que sai de seus corações.

Ouço vozes, mas estou em silêncio. Quanto mais quieto, mais me ouço… Agora a porta rangeu, parecia sendo fechada. Se fecharam, é porque todos estão aqui- pensou.

O que será que vão fazer depois ? Que música é essa ? Parece vir do estacionamento… Intrumento de corda, vozes…coral ? Deixe-me ouvir… A melodia que vinha do estacionamento não conflitava com a que ouvia nas vozes dos que se concentravam alí, apesar de serem ouvidas ao mesmo tempo. Quer dizer que nessas horas a gente ouve música… Porque será que não percebo mais o tempo ?

Parece que 40 anos acontecem em um instante. Vejo tudo : As árvores da rua, mãe chorando, brincadeiras de criança, os passos, voltas, idas, vindas, choros, sorrisos…Tudo de volta ! Ou será que nunca saíram daqui ?

De repente sou que sempre fui e não consigo mais me dissociar em fases. Sou e pronto. Sinto como se em mim encerrasse o menino que subia em árvores, o adolescente tímido, o homem que cantava, a criança que chorava a noite e o pai que levantava para cuidar. Sou todos eles e aquele que não vou ser: O senhor grisalho, o avô pacificado; estão todos em mim.

Ouve alguém soluçando mas isso não o detém: É como se o tempo não existisse mais. Sou todos que fui e serei, o tempo agora vive em meu coração. Se o passado e futuro estão no agora, finalmente percebo que não tenho fim.

O volume da música do estacionamento aumenta a medida em que as vozes do quarto diminuem: Agora sei. Essa música…- Era harmoniosa, parecia som de violino mas sabia que não era- …essa música, eu conheço… Começa a lembrar dos frequentes sonhos onde era compositor.

Neles, as músicas fluiam e se pareciam muito com a que ouvia agora.: Sou todas as estações e um pouco de cada tempo. Tudo o que fui ainda é, e o que serei reflete em mim. O tempo já foi, e agora vejo tudo em um plano só. Foi hoje que nasci, cresci, amadureci e hoje voltarei para casa.

Não precisava abrir os olhos: ele via. As vozes ficavam ainda mais distantes, ainda cantavam algo sobre um vaso na mão de um oleiro, mas estavam distantes. Os pensamentos cessaram. A sensação era de leveza, paz , acolhimento inexplicável. Já não ouvia vozes.

Agora a música estava nítida e nada mais parecia tão importante. Uma incrivel sensação de unidade e a percepção de que o momento seria eterno.

As mãos que seguravam a sua se transformam em abraço. Não vê ninguém mas sente. Agora tudo estava em paz.

Tinha voltado para casa

Before_the_Rain_by_freelancah

O segundo livro…

Estou trabalhando no meu segundo livro.

Comecei a escrevê-lo no Sul, depois parei sentindo que precisava de um tempo para maturá-lo em mim. Chegando em Brasília cogitei escrever um outro que trate sobre comunicação. Conversando com gente que leu parte do livro acabei me animando a investir no que já tinha começado.

Dessa vez será um romance.

A história de Ed, um cara que,enquanto tenta lidar com as amarguras da separação, é surpreendido por um acidente que deixa seu filho a beira da morte.  Em meio a dores e questionamentos, Ed experimentará a maior viagem que poderá mudar toda sua vida. Por que coisas ruins podem acontecer a pessoas boas ? Se dizem que Deus é bom, por que a vida pode parecer tão injusta ? É verdade que existem coisas boas com cara de ruins e vice versa? Como diferenciá-las ? Filosofia, espiritualidade, psicologia em um drama humano cheio de esperança.

Em breve mais novidades por aqui.