No pais do futebol.

Dia de jogo da seleção brasileira.

Fecha o comércio, ruas vazias, gente com camiseta do Brasil, cornetas… Expectativa para todos os lados.

Nas janelas dos apartamentos bandeiras enormes, carros com bandeirinhas afixadas nos vidros, todos unidos, emocionados, apreensivos.

Não quero ser chato, muito menos estraga prazer, mas apenas uma duvida: Para onde vai toda essa energia quando o Brasil não está em campo ?

E quando a copa terminar, para onde essa energia é canalizada?

Independente do resultado do mundial, em breve as bandeiras serão enroladas, as camisetas dobradas e jogadas lá no fundo da gaveta, a torcida, a vontade, o desejo de cantar o hino nacional… bem, não sei para onde irão.

Enquanto isso finjamos que somos patriótas.

Gritemos BRASIL bem alto, coloquemos bandeiras enormes na janela de casa.

Sigamos unidos contra o inimigo, afirmando para o mundo que somos o país do futebol. Mas que seja com garra e muita vontade, afinal de contas, daqui a pouco tudo passa e só vamos nos lembrar do país na próxima copa do mundo.

E que venham as eleições.

Anúncios

Fast Food Emocional

Não consigo gostar de frases prontas.

Quando eu apresentava o Love Songs, pedia pra que os ouvintes não mandassem os típicos “se amar é viver, vivo porque amo você.” Aquilo me irritava.

Não gosto de nada que seja plástico, sem vida. Me incomodo com tudo o que busque recursos estéticos ou emocionais para enganar quem vê, apelando para o sentimentalismo.

Nunca vi graça em crianças “novos talentos” que, com jeito, roupas ou trejeitos de adulto tentam convencer a todos de que realmente são especiais.

A graça está na naturalidade, por mais que o natural esteja fora do que se convenciona ideal.

Vivemos no mundo das aparências onde a forma vale mais do que o conteúdo.

Os políticos  e, principalmente seus marketeiros, sabem muito bem disso : Melhor do que uma propósta coerente, é uma discurso emocional, com voz embargada e , de preferencia, com crianças em volta.

Nós gostamos disso.

Todos os dias recebo “orações”, “poemas” ou histórias “inspiradoras” onde só consigo ver clichês e chavões com muito mel e açucar e fico pensando como tem gente que acha bonito !- e que no fim repassa aquele mel gosmento para toda sua lista de contatos.

Não é questão de forma, muito pelo contrário, é a falta de inspiração;  vento na embalagem de cristal.

Em compensação, quando é de verdade, pode ser feio, anti estético, sem regras, pé nem cabeça, mas se vier do coração, virá carregado de beleza.

Sem o conhecimento das técnicas as pessoas só abrem a boca e deixam as palavras sairem.

Sem esperar pela aprovação entregam o coração sem medo de mostrar o que tem na alma.

Ter técnica é muito bom, mas técnica sem alma não nos leva muito longe.

Os olhos mostram o que tem no coração, a boca fala sobre o que enche a alma; o som é sempre bom quando vem do íntimo.

O que sai das suas produções diárias revela o que tem dentro de você.

É por isso que nos revelamos em tudo o que gostamos.

No jeito, nos toques, gostos, conceitos,leveza ou dureza; nas palavras, sentidos, caminhos, medo, motivação e ,principalmente no olhar,dizemos ao mundo quem somos todos os dias.

Clichês não tem alma. Versinhos melosos geralmente são vazios. Palavras bonitinhas, muitas vezes não passam de palavras.

Palavras por palavras, prefiro as que vem do coração, ainda quenão sigam a percepção convencional do que é belo.

Quando são fruto da real produção da alma, carregam beleza natural e involuntária. Aquelas que a gente logo sente em tudo o que é bom e verdadeiro.

As nossas CARAS

A curiosidade e a vontade de experimentar um pouco da vida dos “famosos” alimenta uma industria bilionária que cria, expõe e detona “celebridades” o tempo inteiro.

Se de um lado existem milhares de pessoas que sonham com os quinze minutos de fama e pagariam qualquer preço por isso, de outro uma industria que depende da fabricação de idolos que estarão em capas de revistas, programas de fofoca, jornais, internet…

E tudo pra satisfazer a necessidade de projetarmos nossas vidas em simbolos.

Na era da imagem cria-se no imaginário popular uma condição de glamour, beleza e felicidade, fazendo com que o povo acredite que do outro lado da câmera só existem pessoas felizes.

Só que isso gera um mar de infelicidade para todos.

Para parte dos consumidores dessa indústria, resta a frustação de saber que nunca terá seus quinze minutos de fama e, consequentemente os beneficios que, teoricamente, isso poderia representar.

Sem essa possibilidade resta viver um pouco da vida do idolo e, para tal, alimentam a industria que não para de crescer.

Por outro lado os que são expostos viram refém de suas sombras. São poucos os que conseguem passar por isso mantendo sua identidade, pois chega uma hora que, de tanto ser cobrado, não sabem mais quem são.

No restaurante, praia, predio, transito, shopping, festas ou qualquer lugar publico são obrigados a manterem a imagem que lhes projetou porque, caso contrário, são cobrados e podem perder muito.

Já não são eles, mas uma projeção das expectativas populares.

Triste o povo que precisa olhar para a vida do outro para esquecer a própria.

Triste aquele que vira alvo de projeção, porque este também perderá sua individualidade.

No fim das história, mais uma vez, só ganhou quem não aparece; aqueles que lucram fabricando celebridades.

E o pior é que, cada vez mais, pais e mães estão levando seus filhos a testes, agências e afins, tentando transformá-los naquilo que os próprios pais gostariam de ser, sem saber que correm o risco de roubar a infância e a alegria das crianças.

No mundo das imagens e aparências somos condicionados a alimentar o monstro com nossas atenções, dinheiro, desejos e até nossos filhos.

Salve-se quem puder.

Joana, a credora do mundo

Joana era credora do mundo. No dia em que completou quarenta anos morando na casa dos pais, aceitou que morreria sozinha.

Não que fosse feia ou não soubesse conversar, mas, não me pergunte por que, até aquela idade nunca tinha tido alguém. Tudo bem, se você contar o Isaque como sério só porque, entre idas e vindas, conviveram por quase um ano, ainda que ele nunca tenha assumido a relação, então Joana só teve um namorado: o Isaque. Mas isso foi há 5 anos, era mais nova, e , coitada, cheia dessas ilusões que as meninas de hoje tem.

Foi em uma madrugada de sábado que ele a deixou e sumiu.

Melhor assim ! Se estivessem juntos, seria mais uma a engrossar as estatísticas de infelizes.

Acreditar que namoraria, casaria, teria filhos e, bingo: seria feliz ? Santa ingenuidade… Ou será que é exagero dizer que o número de separações aumenta todos os dias e muitos dos que se mantém casados o fazem por comodidade ? Você acha que o risco de, ao amar, não ser correspondido ou,pior, ser traido depois, justifica a tentativa?

Não !- dizia Joana- melhor ficar como estou porque, além de tudo, poupo lá na frente uma criança de sofrer. Enquanto Joana pensava, o barulho de gente lá fora misturava com os sons típicos do domingo no bairro : carros chegando com visitas, crianças correndo na praça, rádios inconvenientes…

Quase duas da tarde e o povo já quer festa ! Será que não tem nada de útil para fazer ? Vivem como se a vida durasse para sempre, como se merecesse comemoração, como se valesse a pena.

Um jovem casal toca a campanhia da vizinha. Esses dois…- resmunga Joana- depois que o William casou vem duas vezes por mês encher a paciência da Dna Mercedes. Já não teve que aguentar a vida inteira, agora tem que ser simpática para a Rose só porque é sua nora.

Olha lá ! Quanta hipocrisia, beijinho, sorrisinhos…Por isso eu digo, melhor ficar sozinha ! Assim evito minha família de constrangimentos, tendo que ficar fazendo política com genro a vida toda. Será que as pessoas não percebem ? Só procuram umas as outras por fraqueza e convenção social.

Quem não casa é mal falado. Até político é atacado agora por adversária porque não tem filhos ! Faça-me o favor…por isso eu digo sempre: Eu quero é morrer sozinha, fazendo o que der na mente e na hora em que quiser.

Melhor ser mal falada do que ficar chorando por causa de homem, deus que me livre ! Prefiro o meu canto, meus livros, meu quarto, minha cama…trrrrimmmm Telefone em pleno domingo ?

Os pais tinham saído, o jeito era sair da janela e atender ao maldito telefone antes que arrebente de tocar. trrrrimmmmm…. Eita povo chato ! Se ligam para a casa dos outros em pleno domingo é porque ninguém se respeita mais….trriimmmm….

-Alô !- atendeu rispidamente

Silêncio do outro lado.

– Alô! – mais rispida ainda.

– Oi.- alguém vacilante responde.

– Oi o que? Quem ta falando ?

– Joana ?

– Quem é?

– É a Joana ?

– Caramba , quer me irritar no domingo ta conseguindo ! Sou eu sim,quem é ?

– Sou eu… o Isaque.

Silêncio.

– Alô ?

– Isaque ?

– Desculpa Joana, pensei o dia inteiro. Na verdade tenho pensado há cinco anos e acho que temos muito a conversar…

Ela fica muda.

– Você está me ouvindo ? ele pergunta.

– To.- com um restinho de voz.

– Você pode desligar o telefone agora em minha cara, vou entender e nunca mais te ligar. Mas quero que saiba que há cinco anos eu me perdi. Achei que o caminho de sempre me levaria para onde sempre quis mas, me perdi. Nesse tempo tentei remontar as pecinhas do quebra cabeça da minha vida, fiz de tudo para encontrar por onde seguir e, a estrada sempre passava por você. Sinto sua falta e quero muito te ver.

Ela ainda está quieta.

Isaque continua:

– E quero que seja hoje. Preciso pegar o caminho certo, sentir que estou voltando pra casa.

Joana respira, fecha os olhos, engole seco e diz :

– Daqui uma hora na praça do por do sol ? – Estarei lá.

Joana, pernas bambas, respiração ofegante, pensamento e coração disparados vai até a mesa, pega a chave da porta e segue em direção ao por do sol.

Enquanto caminhava, nem percebia que os barulhos tinham mudado e o cenário típico de domingo parecia feliz. Talvez a madrugada de sábado tenha terminado.

Talvez, fosse domingo de novo.