Controle x Confiança ( O Éden)

Trecho do livro O ÉDEN – Ed Cia dos Livros

 

“– Espere! Interrompe Ed novamente. – Primeiro você me diz que nada está sob nosso controle e que não devemos confiar em nossos planos. Agora me fala que é assim para que aprendamos a confiar. Não lhe parece contraditório?

– Se olhar na superfície pode pensar que é. Mas vamos aprofundar só mais um pouco e você mesmo concluirá – Ele faz uma breve pausa e depois prossegue didaticamente: – Geralmente a sensação de segurança está ligada ao sentimento de que estão mantendo o controle sobre algo ou alguém. Vocês acham que, enquanto sentem, conhecem, calculam, medem, tocam, vêem, cuidam, ordenam, planejam e prevêem, tudo dará certo. Quando a fagulha do imponderável entra nessa história, o mundo vira de cabeça para o ar e a primeira coisa que fazem é se desesperar como se o chão tivesse sido retirado.

Ele pega uma fruta em uma das árvores, mas não morde. – Você tinha me perguntado sobre a morte. Vou lhe responder: A morte é a grande lembrança de que, apesar dos planos, descobertas e acumulo de conhecimento, chega a hora em que nada vale e você estará entregue ao desconhecido- Ele morde a fruta e mastiga lentamente. – Por isso que vocês tentam evitá-la a partir da negação, acreditando que, quanto mais poder constituir sobre a vida, mais poderes sobre a morte terão.

Sentem assim porque seu chão está pavimentado sobre a lógica do controle. Quando percebem que perderam o controle, perdem o chão.

– Tudo muito bonito, mas ninguém consegue sobreviver ao sabor do vento, como se a vida tivesse vontade própria e tudo o que pudéssemos fazer fosse abrir mão da possibilidade de controlá-la e simplesmente aceitar – Ed ainda demonstra alguma irritação.

– Isso só lhe parece assim porque ainda confunde conhecimento com controle e controle com poder. Mas a equação é exatamente o contrário. Primeiro você confia, e essa confiança frutificará em conhecimento e segurança.

Lembre-se do que eu disse: a confiança só pode ser experimentada como fruto do amor.”

O valor de cada coisa ( O ÉDEN)

Trecho do livro -O ÉDEN- Ed cia dos livros

 

“Ed permanece quieto, ainda tentando entender.

– Preste atenção. Os acontecimentos são desprovidos de moral ou mesmo sentido. Eles simplesmente acontecem. O que dá a eles valor é a maneira como repercutem em vocês.

Ed arrisca um comentário. – Por isso que para cada pessoa a reação diante de um acontecimento é completamente diferente da outra.

– Exatamente. Para você a morte pode significar uma terrível tragédia, para outro um recomeço ou o inevitável fim. Isso vale para todas as coisas. Do trabalho aos relacionamentos, dos prazeres mais simples as ambições mais pretensiosas, dos conflitos coletivos aos pessoais, nada tem significado se antes não fizer sentido para você.

– Tudo bem, essa parte eu entendi, mas o que isso quer dizer?

– Que seu mundo só existe dentro de você e tudo o que você vê fora, não passa de símbolos que remetem a verdade que se estabeleceu no seu coração.

– Então tudo é uma ilusão?

– Pelo contrário. Tudo se torna real a partir do momento em que você estabelece que seja. Entenda Ed, é importante que você saiba do que as coisas são feitas.

Se começar a olhar para os acontecimentos como meios que revelam o que existe em seu coração, compreenderá exatamente o valor de cada coisa.”

Alguem que um dia chamarei de filho – (O ÉDEN)

Trecho do livro O ÉDEN

“Primeiro a notícia: alguém está para chegar.

Ninguém sabe explicar exatamente quando a história começa, mas a expectativa cheia de alegria é praticamente inevitável a ponto de superar todos os medos de que não dê certo.

Não se conhece o sexo, as características, nada. Não há nenhuma informação a não ser a de que alguém virá e provavelmente mudará a sua vida para sempre.

Depois, quem não era nada além de uma perspectiva, já pode influenciar fisicamente o mundo, começando pelo corpo da mulher.

Antes alguns sintomas emocionais, depois físicos, a barriga cresce, o corpo incha, a disposição muda… Tem alguém lá dentro.

Um chute! Todos correm para ver a barriga se mexer, quase como a comprovação final de que ali existe um ser humano em formação.

Naquela fase as noites são longas, os cuidados extremos e a preocupação em fazer tudo certo viram rotina.

Os ultra-sons trazem aos olhos a informação que já ganhava corpo na mente.

Embaçadas, sem cor, quase sem formas, mas como evitar a emoção diante das primeiras imagens de alguém que um dia chamarei de filho.”

Ed e Beth ( O Éden)

“O velho e desgastado papel de parede com flores vermelhas desbotadas, o carpete cinza e macio, o cheiro peculiar, o som, as pessoas, as conversas, compunham o cenário onde a mágica acontecia.
Além de Bach e da chuva lá fora, sons que se misturavam e complementavam, em nenhum ouvido entrava mais nada.
Enquanto os ouvidos estavam cativos, os olhos relutavam pela liberdade de percorrer os caminhos que quisessem. Os de Ed se detiveram na imagem da menina sentada naquele sofá antigo e desbotado, compenetrada e linda… muito linda.
Não foi tão fácil levantar-se e sentar ao lado dela.
Inventar um assunto, puxar conversa, olhar nos olhos, perder a fala e ganhar o mundo. Ficar sem graça, sem sono, sem coragem. Sorrir por tudo, chorar por nada. Os sons, a textura, o toque e a sensação de que, no mundo, só os dois existiam.
Não houve planos para casamento porque se casaram no primeiro dia, ainda naquele sofá.
Papéis, assinaturas, votos, igrejas e festas aconteceram como formalidades complementares ao que de fato precedeu os rituais e se instalou como realidade desde o momento em que a viu.
Alguns se casam sem se casarem.
Para eles não restava alternativa: casaram-se olhos, sonhos, mentes, esperanças, defeitos e sentidos.
E depois todos os outros dias foram bons.
A vida foi feliz até que tudo mudou.”

Texto de introdução do livro O ÉDEN

“Aquele dia, que parecia mais um entre tantos outros, tinha algo diferente no ar. Ondas de felicidade e a sensação de que no fim tudo pode dar certo. Talvez houvesse uma explicação para o fato de ter acordado tão feliz naquela manhã, mas não estava preocupado com isso. Ele dá um suspiro e novamente repara em sua imagem no vidro. Caminha entre a escrivaninha, os livros, o abajur até chegar a janela e abri-la. Sente uma rajada de vento e sorri permitindo que o ar invada o apartamento e movimente os papéis sobre a mesa.

O ar estava agitado e, apesar da bagunça la fora, a vida parecia estar em ordem, com tudo em seu devido lugar.

O velho Michel se detém mais alguns minutos na imagem daquele dia claro, nos raios de sol que penetravam as folhas das árvores, nas pessoas que caminhavam nas calçadas, falantes, felizes. O vento movimenta seus poucos cabelos brancos e lhe brinda com uma intensa sensação de liberdade.

Ele sorri com satisfação, apoia os braços no parapeito e continua a observar o mundo que pulsa lá embaixo.

Sim. Definitivamente havia algo diferente no ar”.