Pensamentos de um sábado a tarde.

 

Quando eu tinha 9 ou 10 anos e idade, gostava de receber os amiguinhos do predio em casa e servi-los com todo o lanche reservado para a semana inteira na escola. Bolinhos Ana Maria, danones, todynhos e afins duravam apenas uma tarde com direito a mesa posta e quase enfeitada.

É claro que minha mãe não ficava muito feliz quando ia preparar meu lanche do dia seguinte, mas no fim das contas entendia.

Me lembrei disso agora porque enquanto escrevo, meu filho com 8 anos, está na sala assistindo Star Wars com os amiguinhos do predio. Comeram pão de queijo -preparado com manteiga e requeijão- servi refrigerante e acabei de avisar que o milho já está no fogo.

Tive que interromper minha sessão de pouso ILS em Congonhas no flight simulator para limpar um copo que caiu e quebrou, colocar mais Soda no copo do Rafael, ajudar o Flavinho com a sujeira da faca da manteiga que caiu na mesa da cozinha enquanto o Gabriel acaba de chegar. A Luciana descansa no computador e não deixei que levantasse para ajudar, aliás aproveitei e trouxe soda com pão de queijo para ela também.

Daqui a pouco a panela de pressão começa a apitar e vou sair correndo para tirar os milhos. Depois tem a louça e sabe o que mais virá.

Enquanto isso, lembro dos meus tempos de servir lanches para os amiguinhos e me dou conta que agora sirvo os amiguinhos do meu filho. Eles mal agradecem, alguns nitidamente encabulados, mas fico bem feliz.

Sei que um dia isso acabará. Sempre acaba. Daqui a pouco estaremos eu e minha esposa, saudosos, tentando pensar em algum programa que diminua a saudade do filho que talvez esteja viajando, passeando com amigos, namorada… Alguns anos atrás, no elevador, um senhor entrou e nos olhou com certa emoção dizendo para aproveitar porque essa fase passa rápido demais e tudo o que nos restarará serão as lembranças. Sorri concordando e tentando imaginar onde estariam seus filhos, provavelmentes casados, com seus próprios filhos e bem longe do pai.

A vida é composta de várias estações mas como são bons esses dias com voz de criança e cheiro de milho na casa !

Não me importo em limpar os caquinhos do copo ou a louça que acumulará. Sirvo as crianças feliz e grato pela oportunidade de estar vivendo mais um dia com quem amo e ajudando-os a ter uma tarde feliz.

Já faz quase 30 anos que servia lanche para meus amiguinhos e hoje me peguei fazendo a mesma coisa, mas agora com os amiguinhos do meu filho.

Entre uma estação e outra existem aquelas que nos invadem com a sensação de que o bem foi embora e, como disse o senhor do elevador, tudo o que restou foram as lembranças.

Não acho que seja assim. Um dia sucede outro dia, uma noite comunica à outra noite e com ela carrega o bem que acumulamos no olhar conforme o significado que aprendemos a dar em tudo o que nos acontece.

Cada momento é único, cada oportunidade de serviço é sagrada. Poderia falar muito sobre isso, mas a pressão está fazendo barulho e tenho que tirar os milhos.

Por ora, quero apenas compartilhar contigo lembranças em um sábado a tarde, pensamentos nascidos entre vozes de crianças e gosto de pão de queijo quente com requeijão, alimento para a alma, remédio para nossos corações muitas vezes lotados de desimportâncias enormes.  Olhar para o simples, valorizar momentos corriqueiros mas tão significativos, preencher-se do bem que é estar entre os que ama, consciente que um dia as coisas mudarão, virão outras estações com outras texturas, outros cheiros, outros sons.

Mas não é lá que eu vivo. Vivo aqui, no dia chamado hoje, no tempo onde sou o que sou e fazendo de tudo para que essa pequena estação perdure dentro de mim como consciência eterna do presente de enxergar o privilégio de experimentar em plenitude cada pequeno momento que, no todo, comporá minha história e determinará o que escolhi ser.

Mas sobre isso escreverei outro dia pois agora é hora do milho e de desfrutarmos mais uma tarde, que já está virando fim de tarde.

O filme acabou e eles devem estar com fome. Depois conversamos mais porque agora tenho algo bem importante à fazer.

Você entende né? Aliás… Está servido?