O carnaval e o espirito de manada.

Olhando de longe é mais fácil compreender. Uma multidão sem rosto, sem traços, movimentando-se em blocos entre pulos, danças e músicas pontuadas por refrões repetitivos. Se não chegarmos perto, as explicações tornam-se mais palatáveis e provavelmente acreditaremos que aquela massa informe e festiva é o retrato de um povo feliz, que apesar dos pesares, tem lá suas razões para comemorar.

Afinal, que mal há em um evento capaz de reunir milhões de pessoas, independente de classe social, idade ou raça, expondo-se em um frenesi de alegria, permitindo-se – ainda que seja uma vez por ano – entregar-se a uma explosão de felicidade ?

Mas não é preciso chegar tão perto para enxergar que a realidade não é exatamente tão bela assim. Se nos aproximarmos só um pouco, será suficiente para perceber o quanto somos regidos por nosso instinto de manada.

Ao ver a foto exposta nessa texto ou as milhares de imagens que nessa época do ano tomam conta dos sites de noticias, jornais e programas de TV, confesso que tento enxerga-la a partir da perspectiva de quem está longe, mas a dificuldade em ver gente ao invés de massa torna a tarefa mais difícil.

Vejo uma multidão anônima tentando expurgar as dores e desmandos de viver no país da corrupção, onde a cada recorde anual de arrecadação de impostos mais gente morre nos hospitais, na falta de estrutura viária, onde o ensino parece cada vez pior e não há sinais de melhora. Mas e daí ? Somos o país do Carnaval não somos?

Com enorme facilidade nos entregamos aos comandos em forma de convites de que “agora é hora de ser feliz”, afinal é carnaval, da mesma forma que seguimos o fluxo da tristeza de finados, dos presentes de Natal, do arrependimento na “quarta feira de cinzas”, consumindo, comprando, comportando-nos conforme os anúncios publicitários nos orientam a fazer. Somos “serezinhos” que se recusam a enxergar a volta e olhar o próprio umbigo, respondendo a vida conforme as demandas reais, indignando-nos com o que seja indigno, confraternizando-nos com o que de fato faça bem. Não conhecemos a felicidade como estado de espirito – que sabe conviver inclusive com a tristeza – e precisamos comprar a alegria falsa de corpos nus que disputam espaços na TV, abadás caríssimos que dão direito a pular perto de um Trio elétrico barulhento, povoado por pseudo celebridades, brigando, bebendo, desperdiçando, maltratando, morrendo em nome da “alegria”.

Nossa visão é tão turva e dependente desse espírito coletivo que mesmo movimentos que teoricamente deveriam gerar contra ponto de reflexão banalizam a consciência criando discutíveis alternativas em forma de “carnavais religiosos”. Completamente patético ! Marchas para Jesus, Carnaval da fé, “Venha pular com Jesus” são apelos que exemplificam o quanto nos validamos a partir do comportamento da massa, seja em um polo ou em outro, mas o fluxo acaba sendo sempre o mesmo.

Sei que muitos me verão como ranzinza, contra festas ou comemorações populares, mas prefiro correr o risco até porque sei que outros poucos entenderão. Existem movimentos de catarses populares naturais e genuínos e não vejo mal neles, mas aqui me refiro ao espirito coletivo que toma conta de nossas mentes e corpos mais do que nunca nessa época do ano e que não passam de desinibidores que destampam alminhas angustiadas.

O que me incomoda é nossa incapacidade de nos enxergarmos, de olharmos para as questões que geram – e roubam – vida com a mesma intensidade que nos entregamos ao fluxo e seguimos as ordens sutis, sedutoras e intensas à manada.

Sair desse fluxo requer a capacidade de interpretar a vida com espírito critico, distanciar-se , mudar a perspectiva. Encontrar-se com a própria essência pode não ser tarefa fácil e o caminho de um certamente não será exatamente o caminho do outro, mas em todos os casos a necessidade do constante verificar suas reais motivações e as razões de suas escolhas. Esse é um trabalho necessário para todo o que resolve conhecer-se.

Caso contrário continuaremos engordando no pasto, comendo capim e seguindo a manada até chegar o dia do abate onde assustados olharemos a volta sentindo pela primeira vez que talvez seja tarde demais.

Enquanto isso a gente pula e se entrega a todas as pulsões na expectativa de que uma quarta feira de cinzas nos expurgará e renovará todas as coisas, até o ano que vem.

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5 comentários em “O carnaval e o espirito de manada.

  1. Tenho um amigo que vai a Salvador todo carnaval, o que me deixa perplexa, porque se trata de alguém esclarecido, inteligente, crítico. Este ano resolvi compartilhar com ele uma matéria sobre os bastidores do carnaval de Salvador, enviei por e-mail, poucos minutos depois, ele me respondeu: “deletei sem ler”. Nos encontramos e eu perguntei o porquê, ele disse que simplesmente não quer saber, iria se divertir e esquecer os problemas. Há ali no meio da massa sem rosto, muitos assim, que compreendem a dinâmica do processo mas que fingem não saber e que vão, ano após ano, seguindo a manada. Isto me faz pensar que a incapacidade de nos enxergarmos, aconteça sobretudo, por medo de sabermos quem realmente somos. queremos ser roubados, facilitamos para que nos roubem a vida, a fé, a alma… Ser manada anestesia dor, mas não a resolve, não a trata, nem a cura, é disso que eles ainda não se deram conta.

    Excelente seu texto,gracias por compartlhá-lo.

  2. Olá Flávio!

    Gostei muito do seu texto, pois explicou bem o que acontece para muitos em muitos lugares do Brasil. Sou carioca, moro fora e confesso que sinto falta do Carnaval. Nao desta folia desvairada que se resume em beber, sambar, paquerar (ou ser paquerada), sair e/ou ver gente nua por aí nas escolas de samba. Isso para mim é auto-engano e dos mais fortes.

    O único carnaval que diz algo a mim é o carnaval como expressao artística e cultural. É ver que estória vai ser contada e como durante um enredo. É ver como as fantasias foram confeccionadas e admirá-las como obras de arte, cuja vida só faz sentido com o elemento humano daquele que desfila. Confesso que o som da bateria me embala, mas falo aqui dos sentidos e nao de significados.

    Em todos os momentos o que conta pra mim é a minha consciência. Sei que em Cristo nem tudo convém e vivo isso. Apesar de gostar do que já listei acima, nao preciso pular com as multidoes (e eu nao pulo), nem beber litros de cerveja (bebo pouco), nem sambar como louca, nem paquerar ou me permitir ser paquerada (onde estaria entao pecando, uma vez que sou casada). Nao participo ativamente do carnaval e desta festa eu só retiro a cultura, o enredo, o lirismo, o samba como expressao cultural e artística e as estórias contadas pelas escolas de samba em seus enredos. E só! Em Cristo tenho aprendido a observar a beleza das coisas de modo distante, sempre procurando discernir o que é beleza e o que de fato nao convém. Conclusao: Os Carnavais seguindo o Evangelho sao maravilhosos, pois Cristo tem dado o significado que deve nos cercar em todos os momentos, até para admirar a beleza de um samba ou de uma fantasia!

    Adorei o texto e Deus lhe abencoe.

  3. Pois é. Cada um tem seu conceito de vida, suas introspecções, seus motivos pra rejeitar tanto o carnaval. Eu amo a alegria de viver. Acho nessa festa — o ideal humano. Vejo as pessoas se falando como se se conhecessem há muito, rindo junto, dançando lado a lado, sem vergonha de ser feliz, mas com respeito. Claro, há os mais afoitos que gostam de se encontrar nos “ringues”, mas isso acontece também fora do carnaval. O belo do carnaval é o encontro irmanado das pessoas, a explosão de alegria… Manada, na verdade, vejo nas igrejas, em toda e qualquer igreja. Nos palanques de discursos políticos. Muitas vezes em festas de famílias que se olham, sorriem, e se odeiam, mas faz parte da etiqueta… Enfim, penso que essa manifestação deveria ser algo corriqueiro entre as pessoas: mais brincadeiras, mais danças, mais sorrisos, mais alegria! Não consigo enxergar o mal no carnaval, ainda que dificilmente saia pra brincar, rssss… até tento, mas sempre durmo, ou volto antes de começar a brincadeira. Por quê? Também não sei. Mas, de qualquer forma, brinco, danço e rio-me o ano todo. Dificuldades? Existem para a maioria de nós, nem por isso vamos deixá-la estragar algumas poucas dezenas de anos que Ele nos permite experienciar. Acho.

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