A reunião

O texto que trago hoje é um pouco diferente dos outros, mas sugiro que leia mesmo. Ele foi escrito em 2008 e publicado no “Tudo Radio”, portal especializado no assunto, onde fui colunista por muitos anos. O sucesso foi estrondoso, foi impresso e compartilhado por profissionais do país todo (e alguns lugares do mundo) como um grande desabafo. Em 2011 ele foi republicado e, nesse caso, vale te contar uma curiosidade que hoje é engraçada, mas na época me irritou. Naquele tempo eu trabalhava em uma rádio em Brasilia e estava no meio de uma série de conflitos com um gerente que se encaixava perfeitamente no perfil do texto. Apesar de não conhecê-lo na epoca que escrevi, quando o texto foi republicado ele pensou que foi a fonte de minha inspiração, que eu estava lhe provocando e pediu para o superintendente me cobrar, pedindo para que eu retirasse o texto do site, coisa que me recusei a fazer. Foi o típico caso da carapuça que serviu. O que me segurou na rádio foi o diretor geral, inteligente o suficiente para entender o significado do que escrevi. Desde então recebo mensagens de profissionais do país todo que tomam conhecimento desse texto, se identificam, e me escrevem. Quem trabalha em comunicação certamente vai reconhecer as situações. Se não for teu caso, mas já passou por uma empresa, deve ter experimentado algo semelhante. No fim das contas o que descrevo aqui se aplica as relações humanas, profissionais, de gente que não se enxerga e usa seu poder para projetar no mais fraco suas proprias inseguranças. Seja do rádio ou não, você deve conhecer histórias parecidas. Boa leitura !

A reunião

 

Dia de reunião de locutores.
Aos poucos vão chegando, dois ou três dão um pulinho no estúdio para conversar com o colega que está no ar, outro aproveita para cumprir a escala de gravação, outros põe o papo em dia enquanto saboreiam um cafézinho.
Paira uma certa expectativa.
Em sua sala, o coordenador de cara amarrada olha para o computador, talvez repassando o que vai ser dito, ou será que só está no “msn”?
Durante minha vida no rádio, já participei de reuniões de todos os estilos:
Aquela onde o coordenador cobra resultado da equipe enquanto justifica seus erros caçando culpados.
Credita a queda de audiência pela falta de sorriso do locutor da tarde ou a má operação da mesa de som por parte do locutor folguista.
Esse tipo gosta de performances, socos na mesa, cara feia, tudo o que lhe de alguma sensação de poder diante de sua evidente incapacidade.
Tem também aqueles que fazem questão de parecer acessíveis.
Costumam usar frases prontas como “A porta da minha sala está sempre aberta” ou “nós somos uma equipe e a opinião de cada um é importantíssima”, mas quando alguém sugere algo, finge anotar, faz cara de interessado, mas só dura o tempo da reunião.
Terminando esquece tudo até chegar a próxima, onde usará o mesmo discurso.
Já viu o vaidoso ? Aquele que faz questão de manter uma imagem de “antenado” e acessível, valendo-se de artifícios como o auxilio de escudo humano: alguem ambicioso, com um pouco mais de atitude para suprir sua sabida falta de conhecimento.
Esse, por sua vez, age como pit bull de quintal que morde todos os que aparentarem lhe desafiar(até ouvintes que criticam a rádio), preservando a imagem “cool” do seu chefe.
Voltando a nossa reunião, chegou a hora.
Todos correm para a sala de reuniões a espera do coordenador.
Dez, quinze, vinte minutos e nada. Quarenta, cinqüenta minutos depois da hora marcada nosso herói aparece com cara de poucos amigos para evitar que alguém reclame do atraso.
Ninguém fala nada.
– Boa noite – ele começa sem falar sobre o atraso- estou aqui com o último Ibope. – Para criar suspense ele faz uma pausa e olha a todos.
Eu queria que alguém me explicasse porque caímos tanto? – pergunta como se não fosse com ele.
Todos quietos.
– A vontade que da é mandar todo mundo embora e contratar uns moleques que estão saindo do curso porque o que vocês estão fazendo ta ridículo. Alguém tem alguma coisa a dizer?
O silencio paira na sala.
– Vocês tem que ficar mais ligados ! Leiam mais, naveguem na internet, vejam a MTV, vão as baladas….Eu só cheguei onde estou porque sempre estive a frente, sempre fui ligado e nunca me conformei com isso…….. – Ele começa a se elogiar.
Nessa hora chega o locutor do horário da manhã, desculpando-se pelo atraso.
Apesar de ter chegado somente cinco minutos atrasado na reunião que começou com atraso de cinqüenta minutos, é repreendido:
– Esse seu atraso demonstra total falta de interesse e respeito pela equipe, isso é indesculpável e, da próxima vez ,será demitido. -Claro que o fato de não mencionar seu atraso de cinqüenta minutos é só um detalhe.
Enquanto fala, todos ficam quietos. Enquanto busca culpados, não chama a responsabilidade. Enquanto inventa causas, não orienta para que a equipe melhore.
Uma hora depois ele encerra a reunião e todos saem com uma tonelada de peso nas costas, piores do que entraram.
Ninguém melhorou, não motivou, não apontou caminhos e ficou uma hora falando só pra transferir sua responsabilidade para a equipe.
No dia seguinte voltam todos inseguros para o ar. Com medo de errar perdem a criatividade.
Sem saber onde estão errando, não melhoram e, como uma bola de neve, a rádio continuará a cair.
Por mais que eu tenha criado essa história, aposto que muita gente já viveu algo parecido.
São cobrados, xingados, humilhados por gente despreparada pensando que, tratando sua equipe como animais, melhorarão.
Se isso acontece com você, não deixe acontecer.
Procure ser melhor, entender as causas do problema para, com sabedoria,calma e educação, apontar claramente onde estão os erros.
Fazendo isso será respeitado.
Se você é um desses carrasquinhos, saiba que isso não é liderar. Formar uma equipe tem a ver com conquistar a admiração, confiança e o respeito de seus liderados e isso se dá com exemplo, trabalho e competência.
Gritar e dar soco na mesa pra garotos amedrontados que só querem manter seu emprego não faz de você melhor, muito pelo contrário, demonstra falta de confiança no seu próprio trabalho e te afasta da posição de respeito que os lideres devem ter.
É claro que no meio disso, felizmente tem gente boa. Profissionais que ainda sabem valorizar sua condição e extrair o melhor da equipe, mesmo que as vezes seja necessário ser mais duro.
Esses estão na frente e conseguem formar verdadeiros times.
Os outros vivem sob a ameaça da instabilidade e, agem como meninos com seus liderados, porque não são respeitados nem por aqueles que lhe deram o cargo.
No rádio existe gente de todos os estilos. Gente boa e nem tanto, sábios e burros, magoados e motivados.
Tenha você posição de comando ou de comandado, procure ser o melhor sabendo que respeito se conquista.
Se as vezes parece difícil, resta o consolo de saber que, no fim das contas, o mercado separa os que são bons dos que só gritam, os que assumem suas responsabilidades dos que caçam culpados, os que sabem pra onde estão indo dos que só andam em circulos.
De que lado você está?

Outra perspectiva

“Nunca haverá explicações satisfatórias, se a visão do todo ainda é parcial” – Livro O Éden

Se você pudesse ver sua vida inteira de uma vez, sem os limites do tempo, como quem enxerga uma foto com cada movimento, abrangendo todos os planos, caminhos interconectados, desvios, prolongamentos, começo, meio e fim, certamente ganharia outra percepção em relação a si mesmo e ao significado de tudo o que já viveu.

Veria que não havia necessidade de tantas angústias e medos, que – agora você vê – foram criadas por você mesmo.

Olhando para trás, ficaria claro que cada situação, sejam as boas ou ruins, seguiam um fluxo harmônico, exatamente como acontece na natureza, colaborando para o desenvolvimento de sua propria flora, no seu caso, sua construção pessoal, transformando-o, expondo sua mente a novas experiências, amadurecendo seu olhar, podando, regando, semeando, colhendo.

O inverno que parecia sem explicação, se encaixaria na proxima estação, criando um ciclo de equilibrio e suprimento para cada fase.

Olhando de longe você lamentaria não ter percebido.

Seria como um tapete, cheio de alinhavamentos, desvios, desconexões, sem nenhum sentido na parte de baixo, mas tudo muda quando você olha o outro lado e percebe que nada foi por acaso.

Talvez, vendo a vida sem os limites do tempo, se arrependa de tantas reclamações lamurientas, projeções do que acreditava ser o ideal sem lhe dar chance para calar e ouvir.

Aprenderia a ficar quieto quando ao redor só tem barulho, escutar sua própria voz interior que sussura e não grita, observaria melhor quanta gente apareceu para te ajudar e você desprezou, quantas oportunidades desperdiçadas, quantas chances sufocadas pela sua cegueira, pela pena de si mesmo que você tanto adulou.

Valorizaria atitudes que pareciam banais, mas estavam lá para fazer toda a diferença. Se chocaria ao perceber quantas e quantas e quantas oportunidades teve, mas você não viu, com suas reticencias, suas insistências, seus autosabotamentos.

Mas hoje, na relatividade, vivendo as relações contraditórias, mergulhado nos limites do tempo e do espaço, olhando a partir de uma única perspectiva que segue um mesmo fluxo, isso tudo parece devaneio.

O fato é que mesmo assim alguns vêem.

Esses aprenderam a projetar-se sobre seus condicionamentos e arbitraram a si mesmos a prerrogativa de serem mais do que serezinhos que reclamam entre uma refeição e outra, entre o bom dia e o boa noite, entre o nascer e o morrer.

Dentro de nós, existe uma dimensão que não se tangencia pelo que vê. Que não se limita pelo campo visual e enxerga as conexões que se tocam, as experiências que nos melhoram, as percepções que resignificam o caos.

Dê a essa dimensão o nome que quiser – não importa como a chame-  resgate-a.

Temos uma chance de sairmos da caverna, de olharmos lá fora, de entendermos um pouco mais sobre a vida e nós mesmos. Tudo coopera para que assim seja e todas as experiências são materiais para nossa contrução interior.

Afaste-se do quadro. Mude a perspectiva. Olhe a partir de outro ângulo.

Faça assim e você entenderá.

Um desabafo

Permita-me um desabafo ?

Fazendo algumas pesquisas na internet, me deparo com uma notícia do tempo da fusão entre o Itaú e o Unibanco : Itaú anuncia lucro de 5 bilhões e 900 milhões de reais entre janeiro e setembro daquele ano.

Achou o valor grande ? Os diretores do banco não, já que ele representa queda de 8% em comparação ao mesmo periodo do ano anterior. Eles lamentavam.

Bancos são necessários, lucro é fruto de trabalho bem feito, portanto algo genuino, mas, sinceramente, não consigo conceber que qualquer instituição, seja ela qual for, acumule soma nessa dimensão. Especialmente em um mundo onde milhares de adultos e crianças morrem de fome todos os dias.

Meu mal estar aumenta a medida que todos encaram com absurda naturalidade que o dinheiro esteja tão mal distribuido.

Enquanto tem gente morrendo de fome, morando na rua, sem remédios, educação, saneamento… pouquissimos concentram tamanha riqueza.

Não discuto se é lícito, se uns trabalharam para isso e outros não, se é merecimento conforme as regras do jogo. Não é isso. A questão – e isso é o pior- é que construimos uma sociedade onde disparidades como essas são aceitas com impensável naturalidade.

Cinco bilhões, novecentos milhões de reais ! Tem idéia do que é isso ?

Criamos um sistema que depende de bancos e isso justifica e avaliza a morte de muitas e o enriquecimento de poucos.

Não pense que estou escrevendo conta os bancos ou defendendo o fechamento deles. Estou falando aqui sobre consciência de valores, sobre nossa apatia, nosso espirito condicionado a ver, mas não enxergar, ouvir, mas não escutar. Você compreende?

Veja o Vaticano. Não consigo conciliar sua pregação de amor, paz e ajuda aos necessitados, contrastando com uma estrutura bilionária e luxuosa, com terrenos, emissoras de comunicação, escolas, faculdades (pagas), e tentáculos nos governos de grandes países, acumulando muito mais dinheiro do que o Itaú. Não me refiro ao padre ali da paroquia que luta para manter suas obras sociais, falo da instituição rica, poderosa e influente, do luxo, das contas, do ouro que adorna cabeças brancas e inflexiveis.

No Brasil igrejas evangélicas compram canais de televisão e investem milhões com dinheiro de fiéis, pastores arrendam horários inteiros em rede nacional para “pregar o amor’. Que paz? que amor? . Depois de falarem sobre “deus”, saem com seus aviões particulares em orgias bancadas pelo dinheirinho suado da dona Maria que ainda se alegra por contribuir “na obra de deus”.

E nós aceitamos que seja assim.

Aceitamos e comemoramos o fato de que agora é possivel comprar um carro em 60 vezes pagando, no fim das contas o valor de tres carros. “Agora o povo tem acesso aos bens !” Bradam por ai sem explicar que esse acesso a TV de Plasma, o celular caro, o carro zero sempre, pagos a “suaves” e eternas prestações, lhes torna dependentes, sequestráveis, manipuláveis por uma industria que ganha muito a custa dos juros, creditos, emprestimos e inevitáveis endividamentos.

É por isso que até lojas de meias, pijamas ou eletrodomésticos viraram bancos disfarçados de lojas.

Enquanto isso nosso ex presidente sai por ai falando a imprensa internacional que aqui não existe mensalão, que a mídia o persegue, que caixa dois é uma prática aceitável e que o povo o apoia.

Apoia sim, presidente. Apoia sim…

O lucro do Itaú, no inicio de nossa conversa, simboliza um pouco do que fizemos do planeta, ou melhor, o que deixamos que façam com nossas consciências. Nos tornamos cínicos, aceitamos a fome e a miséria como algo natural diante de instituições que, cada vez mais ricas, pingam gotinhas de “caridade” enquanto destróem no povo o sentimento de que o sol deveria brilhar para todos, reduzindo as esperanças a lances de sorte ou “esperteza”.

Nos sensibilizamos, achamos triste, mas depois voltamos ao nosso desmedido “cada um por si”.

Enquanto isso, continuamos vivendo no planeta das ilusões, apostando na próxima mega sena, comentando o último jogo do Flamengo, sorrindo em frente a TV atentos a novela ou ao Faustão, sendo “defendidos” pelo Datena, votando nos caras das caras de sempre e achando bom, afinal, o que isso tem a ver comigo?

Desculpe o tom, mas não encontro outro para isso.

Sinais

Olhando de longe e no escuro ele parecia um monte de feno.
Tinha olheiras permanentes e sua pele aquela cor que os bebados tem.
Brincava com pedaços de madeira, jogando sem força para o cachorro que parecia não se cansar nunca.
Depois chegou o magro com mãos grandes e dedos longos, olhava como se estivesse com a cabeça em outro planeta e tinha mania de fazer um irritante “hã hã” enquanto alguém lhe dizia alguma coisa que não lhe interessava.
Sentou-se ao lado do gordo e não disse nada. Com o tempo os barulhos dos passos apressados do cachorro, os latidos ,a respiração ofegante, foram ficando mais baixos do que o canto dos pássaros que aninhavam-se saudando o fim da tarde.
Raios de sol alteravam a luminosidade, empurrando as sombras, envolvendo as folhas e depois indo embora, clareavam pequenos pontos da terra que logo em seguida escureciam.
Um pássaro noturno atravessa o espaço entre duas árvores gigantes e um dos homens, o gordo, que até agora a pouco olhava o cãozinho dormindo em seu pé fala com voz grave a abafada:
“Você não sabe, mas estou para morrer.”
O magro olha para ele com aquela cara de quem não vê : “hã hã”.
“Tenho umas dores esquisitas, umas tonturas, essas coisas de corpo velho. No começo não liguei, sabe como é, quando a gente vai atrás a doença gosta e começa a aparecer tudo de ruim. Quando era meninote tive uma dessas doenças de moleque e a Sra Síndoch, acho que era assim que falava aquele nome dos estrangeiros, veio com uma conversa de levar pro doutor, dar remédio e só sei que quase parti dessa pra melhor ainda de calça curta.
Depois me recuperei e fiquei forte como um touro, até que agora fiquei ruim de novo.”
Ele mexe no cachorro que treme uma das patinhas no meio de um sonho canino,depois pega um dos pedaços de madeira que ficou no chão e olha para o colega que só balança a cabeça.
“Semana passada tive um pesadelo e uma dona enorme, parecida com a Sra Síndoch só que maior e mais morena, apareceu e disse que veio me levar. Depois senti uma tremedeira dos pés a cabeça e acordei todo suado, mas ainda assim não levei a sério. Na manhã seguinte nem pensava mais na história até que, tomando uma com o pessoal, ouvi alguém falando que quando a morte quer nos buscar ela nos avisa nos sonhos. Você acredita nisso, não?”
“Hã hã”.
“Eu também não, mas a história não termina ai. Quando ouvi aquela conversa de morte dei um jeito de ir embora logo e pensar em outra coisa. Encontrei o Ze na rua, falei com o Sanchez e continuei caminhando junto com o Fedido que não largava um osso desde a rua de trás.
Já ia me esquecendo disso quando me lembrei da Sra Síndoch que vivia falando no tal pássaro da morte. Sempre que ela via um pássaro a noite, fazia uma expressão de bruxa velha e falava com voz monstruosa que a morte estava indo buscar alguém. Sempre achei tudo balela, mas agora são muitas coincidências ao mesmo tempo.”
Uma tosse prolongada deixa suas bochechas mais vermelhas e interrompe a fala assustada.
“E o que isso tem a ver com sua morte?” O amigo magro resolve falar com tom levemente irritado e olhar de desdém.
“Você não percebe?”
“Hã hã”
“São sinais, meu colega, são sinais. Se fosse só uma coisa isolada não teria importância, mas junte-se as dores o sonho com a Sra Sindoch, a conversa no bar sobre a morte e agora esse pássaro que quase sujou nossas cabeças”
O outro fica calado.
Simon olhou para o colega que fez mais um ou dois “hã hã” esperando que dissesse alguma coisa, mas ele só acendeu um cigarro enquanto olhava para a lua, forte, clara, iluminando tudo a volta.
Havia barulho de grilos e insetos na mesma quantidade das estrelas que pipocavam em toda a parte do céu que rapidamente se desenrolou sobre os dois em silêncio.
Fedido acordou com o barulho de um bichinho que passou correndo mas não deu muita bola, nem ouviu um latido distante e insistente.
Levantou uma das orelhas e se coçou antes de deitar a cabeça na bota de Simon e voltar a dormir. Lá longe o farol de um carro corta a estrada em velocidade, depois some.
“Vai ficar ai a noite toda?” O homem magro se levanta olhando para o gordo que não ouve.
Ele parece fixado em suas ideias enquanto olha o horizonte apagado e murmura: “Ninguém mais vê os sinais. Ninguém enxerga mais nada.”
O outro ignora. Passa as mãos na calça amassada, dá uma tragada e vai embora pensando em outra coisa.
Atrás dele a silhueta encorpada parecendo um monte de feno ou de terra ou quem sabe um pequeno monte.
Falava baixo com tom lamentoso, balançando a cabeça gorda sobre o papo mole. “Os sinais, ninguém mais vê os sinais.”

Ontem caminhei com José Saramago

Ontem a noite sai para caminhar com José Saramago.

A lua estava linda, havia uma espécie de caminho de nuvens iluminadas a sua volta, a temperatura amena trazia mais gente ao parque e tornava tudo mais agradável.

Foi quase uma hora e meia de idéias, divagações, pensamentos sobre a humanidade, política, livros e nossa cultura.  Confesso que estranhei quando o Nobel de literatura disse que nós, escritores, somos como passarinhos. Apesar da maioria acreditar que pode mudar o mundo, o máximo que fazemos é “piar” e as vezes alguém ouve e vem. No entanto, ele dizia, sinto que nossas falas se embolam na carga diária de informações que duram no máximo 24hs e depois se dissolvem.

Gostei quando sugeriu que leiamos livros acima de nossa capacidade imediata de compreensão, a começar pelas crianças que deveriam ter acessos a textos um pouco mais questionadores. Saramago criticou nossa cultura de massa globalizada e, depois de pensar alguns segundos, abaixou um pouco o tom de voz e com sotaque português arrastado disse que no alto de seus mais de oitenta anos concluiu que a pior cegueira da humanidade é não notar e nem ter curiosidade em saber para onde estamos indo. Concordei com ele e fique pensando como a gente sai correndo atrás de nossos rabos sem noção o que de fato isso significa, o que estamos abrindo mão sem perceber os estragos que ficam pelo caminho.

Como eu disse, a conversa durou quase uma hora e meia, muitas coisas foram ditas, mas gostei especialmente quando ele questionou nossa completa limitação em perceber o que é real. Somos 70% água, mas quando nos enxergamos não vemos isso. Cade a água? Perguntou Saramago levantando as mãos envelhecidas.  Pensamos que conhecemos as coisas, mas precisamos de uma lente para olhar o micro ou o macro distante, não conhecemos sequer as espécies de insetos e nos contentamos em não saber. Acreditamos que realidade é apenas o que nossos sentidos, limitados, embotados, restritos, percebem.

No fim da caminhada ele explicou porque decidiu não pontuar seus textos, lamentou a falta de entrosamento entre a cultura portuguesa e a brasileira e sobre a sensação de que há vinculos entre ele e seus leitores que excede os livros, por isso não se chateia em viajar e encontrá-los. Por mim, nossa caminhada poderia ter durado mais, mas estava na hora.

Quando cheguei em casa, desliguei meu mp4 e fui tomar banho feliz, pensando em tudo o que ouvi.

O escritor português José Saramago morreu em 2010 e, em uma das vezes que esteve no Brasil, gravou uma entrevisa ao programa Roda Viva da TV Cultura em 2003.  Ontem a noite, enquanto ouvia aquele papo,  entre tantas coisas pensava em como o conhecimento pode unir pessoas, criar vinculos,  em como a morte não supera o poder das palavras, das ideias, do pensar que fica, se espalha e alastra, tocando mentes, mexendo em estruturas aparentemente tão fixas, até que tudo muda, sutil e ao mesmo tempo de forma subversiva.

Quando Saramago morreu estava em casa, em Lanzarote, Ilhas Canárias, Espanha. Centenas de pessoas participaram de seu funeral levando livros, repetindo trechos, lembrando frases. Ele foi cremado junto com um dos seus livros mais celebrados : Memorial do convento, mas ontem, caminhamos no parque.

Um dias vamos todos embora, voltaremos para casa. O que podemos deixar de melhor é nosso canto, nossas idéias, nosso existir que se expressa em palavras que nos transcendem, iluminam mentes, enchem os olhos e nos catapultam a percepções que a pressa dificulta.

No fim das contas, somos o que pensamos e o que fazemos com isso. O que falamos e a relevância que as palavras tem. O que acreditamos e o poder que essas certezas (ou dúvidas) tem de mudar o nosso proprio mundo.

Dormi grato pelo papo com Saramago e pela chance que temos todos os dias de aprendermos uns com os outros e, apesar dos pesares, sermos luz com nosso singelo piar de passarinho.

Se eu fosse você

Se eu fosse você, começaria a prestar mais atenção em “estalinhos do nada”.

Sabe aquele “insight” que  diz que é melhor ir por ali ? Você vai dormir preocupado e, de repente, um sonho. Sai na rua com a cabeça quente, senta em algum lugar para tomar o café e o casal da mesa ao lado faz um comentário que se encaixa perfeitamente no que precisaria ouvir. Uma música no rádio, comentário no elevador, um texto na internet. A gente ouve, lê, acha bonito e depois deleta da mente.

Talvez seus sentidos estejam tão condicionados, que você nem consiga mais enxergar o que está tão evidente. Quem sabe esteja tão focado em uma única perspectiva, ao ponto de simplesmente ter se ensurdecido para toda as vozes que falam, falam, falam…

Acho que vale a pena dar crédito a intuição. Ela é a ponte entre seu subconsciente e seu consciente. Vale a pena prestar atenção na vida, nas respostas, nas “coincidencias” de cada dia.

As coisas estão difíceis ?

Pode ser a hora de dar passos mais largos, ignorar limites, mudar perspectivas, arriscar, fazer de outro jeito.

Mas não sou você, por isso, não me leve a mal.

É só uma dica de um amigo que faria diferente, se eu fosse você.

Por onde você tem andado?

Foi dificil acordar hoje de manhã ?

Talvez você seja mais um entre os que negociam minutos a mais com o despertador.

Sair da cama cambaleando, tentando organizar os pensamentos para iniciar a rotina de todos os dias.

Seguimos, resignados, o roteiro da “vida real” , sabendo que não nos resta outra escolha a não ser assumirmos nosso papel na sociedade, nos esforçando para correspondermos as expectativas do chefe, esposa, marido, filhos, amigos…

Mas, e você, o que espera ?

Construimos nossas vidas sobre estruturas que já estavam aqui, afinal, todos fazem a mesma coisa sempre, certo?  Acreditamos que não nos resta alternativa a não ser simplesmente aceitá-las.

Vestimos os uniformes, seguimos as regras, nos adequamos as demandas, muitas vezes suprimindo o que de fato nos habita.

Por que estou falando isso agora ?

Talvez para lhe questionar se esse caminho, esse que você está agora, é realmente o seu caminho. É nele que você gostaria de estar? Isso tem a ver com você de verdade? Essa é SUA vida?

Infelizes os que constróem seus dias a partir das necessidade financeiras, de medo ou culpa, preenchendo todas as suas ambições pelo desejo do reconhecimento alheio.

Um dia você foi “ligado na tomada” e apareceu por aqui.

Sem nenhuma consciência, foi gerado e cuidado para que chegasse até esse instante.

Todos os seus caminhos te trouxeram para o hoje, para essa tela de computador, para esse lugar, nesse dia, nesse segundo e, saiba, foi você quem quis assim.

E agora? Para onde irá? Não me refiro exclusivamente a navegação pela net logo após ler esse texto, mas, também: o que fará com o que está lendo? Como a maioria das mentes atuais, a sua está sobrecarregada de informações, mas qual delas guardará por considerar relevante? Será que você não está programado para arquivar apenas o que contribui para a manutenção do que já está?

É você quem determina para onde vai a partir de suas escolhas. É você quem escolhe. Você.

São suas prioridades que revelam que tipo de coração tem.

Talvez você não veja agora outros caminhos. É possível que queira mudar algumas coisas, mas nem saiba como.

Preste atenção. Isso vale para absolutamente tudo: os caminhos- todos eles- existem em você.

Aí dentro vivem todas as possibilidades que te transformariam em qualquer coisa.

A única questão é : você vê ?

São seus olhos que iluminam seus passos, que definem o que você consegue enxergar.

A luz que sai deles, é a que habita seu coração. Seus caminhos revelam quem é você.

Então o que você pecisa mudar ?

Independente do que seja, comece pela mente. Nada mudará de verdade se antes você não mudar sua mente.

Alimente-a com o que faz bem. Sorva bons pensamentos, olhe por outras perspectivas, ouça boa música, leia bons livros, tenha pensamentos construtivos, enxergue o lado bom das pessoas, se há bons pensamentos, que habitem seu interior, abra mão da autovitimização, deixe de adular seus traumas, fique perto de quem agrega, de tudo que construa um ser humano melhor e principalmente: perdoe, perdoe-se, livre-se do gigantesco peso da mágoa, da vingança, do “justicismo”, seja ele de que natureza for.

Se seu interior for bom, seus olhos também serão e, consequentemente, seus caminhos também.

Dificuldades e dores todos temos, mas quando você está em paz, o choro não significa desespero.

A dor não tangencia caminhos, a escassês vira apenas contratempo, oportunidade para amadurecer.

Quer repensar seus caminhos ?

Então comece pelos caminhos que ninguém vê e que estão dentro de você. Mude sua mente.

Fazendo assim, todos, absolutamente todos os seus caminhos refletirão aquele que antes mudou em você.

Não existem fórmulas mágicas, não sei quantos passos para não sei o que, ou qualquer outro ritual que substitua o fato de que seus caminhos refletem quem você é.

Antes de mudá-los, mude sua mente.

Você só precisa perceber.