Comercio de almas

Confesso que a cada dia sinto mais dificuldades em assistir TV. Ainda existem alguns bons programas na TV a cabo, mas, na TV aberta, com raríssimas excessões, não dá.

Me impressiono como as pessoas ficam completamente hipnotizadas diante de um aparelho ligado.

Percebo com cada vez mais clareza que na relação mídia/espectadores/anunciantes, nós, o público, somos um produto fabricado, moldado e elaborado pela mídia que nos vende ao anunciante.

Funciona assim: Quando uma empresa investe dinheiro em uma mídia, está comprando um produto : as massas. Cabe ao produtor (as mídias) adequarem aquele produto, manipulando-o para se tornar massa adequada ao consumo, seja de produtos, comportamentos ou ideias.

Quanto maior a massa, mais volume (audiência), valorizando o preço, aumentando seu poder de negociação. Mas o produto só vira massa se for homogêneo. Quanto mais vidrados, imbecilizados, medianos e amedrontados estiverem, mais dependentes ficarão.

O medo não apenas vende, mas molda e cria dependência. Uns alegam “mas desgraças acontecem e precisamos estar informados”. Ora, mas só acontecem desgraças? Repare na próxima vez que assistir seu telejornal preferido e conte quantas noticias estão relacionadas ao medo. O medo se tornou o principal condutor de idéias.

Fixa-se padrões de comportamento, sempre na mesma direção, afunilando o rebanho, reprimindo os que contestam, manipulando as massas, criando “anticorpos” que inibem qualquer tentativa de seguir no anti fluxo.

O problema não é a TV, mas o que estão fazendo com ela.

Ontem eu estava em uma loja atrás de umas adolescentes que falavam sobre a Lady Gaga. Uma delas comentou  “A Lady Gaga é uma pessoa super original, é como se fosse uma professora de filosofia”.

Esse é nosso padrão. São nossos ícones e filósofos atuais que nos moldam, manipulam e preparam para a venda. Enquanto você senta confortavelmente no sofá com olhos vidrados, hipnotizado, acreditando em tudo o que vê em sua tevezona de plasma paga a prestação, tente lembrar que alí é a linha de produção. Tem gente negociando seu valor, manipulando sua mente, opiniões e percepção do mundo e de si mesmo. Exagero? Comece a olhar a sua volta e responda você mesmo.

Esse é o mundo da filosofia Lady Gaga onde, enquanto os lados, lugares e os valores são negociados a portas fechadas, bilhões ficam lá, entretidos, sentados, seduzidos, inertes, hipnotizados pela telinha luminosa, produtora e negociadora de almas.

Onde você está nesse processo?

Pense nisso.

Você é capaz?

Se furarmos todas as camadas de dogmas, preconceitos, inseguranças, sentimento de superioridade, rancor, insensatez, certezas fixadas em tradição, se passarmos por cima de nosso orgulho e abrirmos mão de pensarmos que somos detentores da verdade absoluta, se nos dispusermos a enxergar o outro como quem antes viu a si mesmo, abrindo-se para simplesmente amar. Se for assim, passaremos por cima das camadas que nos separam e, então, não haverá separação. Coexistiremos em respeito e em amor. Tirando todas as proteções o que resta são humanos, frágeis, necessitados uns dos outros independente da fé que professam. Tudo o que precisamos é aprender a nos amar e respeitar. Você é capaz?

Nosso mundo de areia

Nesse exato momento há universos nascendo e morrendo dentro da gente. Encontros, partidas, nascimentos e mortes, desejos, decepções, ilusões, guerras e paz, tudo está aqui, na minha mente. O que sai de mim, me cerca, se ergue e se transforma em meu mundo. Mas antes, ele, o meu mundo, nasceu em mim e partiu do meu coração. É nele que vivo e construo, destruo, reerguendo estacas, implodindo, destruindo e refazendo, vivendo e crescendo nele, no mundo que estou construindo a partir dos materias que ninguém vê, estão em mim, habitam minha mente e me mostram quem sou.

Um dia a gente aprende que é assim

Somos todos seres inacabados. Não há quem fuja disso. Estamos expostos a infinitas possibilidades diárias, a cada hora, cada instante, nos direcionando ao crescimento, ao questionar-se, revisar-se e, mesmo que seja depois de um tropeço, dilatarmos nosso olhar, individuando-nos, cristificando-nos, humanizando-nos. Talvez lhe pareça contraditório, mas não há cristificação sem humanização.

Isso porque não há espiritualidade, tampouco qualquer tipo de evolução, se não assumirmos nossa condição mais básica e essencial que é justamente o fato de que somos humanos e, como tal, cheios de contradições, passíveis de dúvidas, medos, falhas, dualidades, ego, inseguranças e erros. Sim, erramos ! Errar faz parte de nosso processo de crescimento, aceitar que é assim é não brigar com a existência, conscientes de que nossa fraqueza é material de trabalho que nos projeta, tornando-nos seres únicos.

O desafio é, depois de identificar o erro, reconhecê-lo e prosseguir sem olhar para o que ficou, sem culpas nem des-culpas, sem mágoas, sem vinganças, sem cometê-los novamente, como quem de fato aprendeu a lição, emprestando significado a tudo o que vive.

Como seres inacabados, expostos as próprias contradições, caminhamos olhando para o alvo, iluminando-nos pela Graça imerecida, de certo modo imprópria se levarmos em consideração todas as nossas curvas e desvios interiores, nossa arraigada tendência narcisista e auto sabotadora, mas que no fim cooperam para moldarmos nosso caráter e crescermos em experiência e sabedoria.

Sendo assim, aprenda a aquietar-se, reverente diante da complexidade de significados que carregamos dentro de nós, humanos, pequenos, frágeis, contraditórios, mas, quem diria: morada de Deus, portadores de um rio que flui em cada coração, expostos a maravilhosa experiência de estarmos vivos, de sermos únicos; alguém melhor todos os dias.

Cada viagem é única e os processos de vida absolutamente individuais, específicos, cabem apenas no coração daquele que o experimenta e processa o que vive conforme o que tem se tornado. Não há nada no mundo que seja como você, que reuna exatamente os elementos de sua história, a química de sua natureza, suas questões, seu olhar.

Você projeta no mundo aquilo que é, e o mundo que lhe rodeia, reflete o que lhe habita. Enxergue-se, exponha-se, abra as janelas da alma e deixe que o sol ilumine,vista-se de vida e assuma-se humano, sem medo, sem culpa.

Viver é crescer todos os dias, é sofrer e deixar de sofrer, é caminhar a passos largos e depois diminuir o ritmo, é acordar feliz e as vezes dormir com lágrimas, sentir, silenciar, calar-se quando necessário.

É reconhecer nossa própria natureza enquanto aprendemos a amar: a finalidade de toda experiência.

Um dia a gente aprende que é assim.

Nós- “Do livro Dez Histórias e Algo Mais”

As pessoas não são iguais e é mais do que natural que alimentem seus próprios interesses, mas a relação não precisa ser conflituosa. Olhar para a vida sob a perspectiva do amor inverte a ordem das coisas e nos ensina que só há sentido quando me projeto para o todo.

Felizes os que andam sobre a Terra conscientes de que podem ser agentes de transformação. Que entendem que, independente do que queiram, podem contribuir para que a vida seja mais leve e que os que estão por perto fiquem bem. Os conflitos sociais só refletem em maior escala nossos conflitos pessoais.

É só o amor que apazigua os corações. Que nos ensina que a vida faz mais sentido quando percebemos que não estamos sozinhos e que nossa caminhada ganha relevância quando incluímos mais gente. Somos células de um único corpo e a simples consciência disso tem poder avasalador sobre o egocentrismo dos dias atuais.

Você consegue enxergar? Só quando mudamos as lentes que nos embaça a percepção de corpo é que realmente começaremos a mudar as coisas.

Olhe para si. Veja o seu coração, mexa no que o separa dos outros. Aumente sua percepção coletiva, enxergue-se parte do todo.

Seu mundo existe em você. Não ande sozinho por ele.

Do livro Dez Histórias e Algo Mais