Nossa caverna de Platão, por Saramago

“A maioria das coisas em nossas vidas acontecem sem muito sentido. Então somos todos avidos pelo significado.” J. Saramago

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Saindo da caverna

Quem anda conforme seus medos e usa seus pre-conceitos como tangenciador de caminhada, se enclausura em si mesmo.

É como se vivessem em um porão escuro, sem janelas, sem jamais ver a luz do sol.  Como se pertencessem a caverna de Platão (filósofo Grego 428 AC).

Apesar da crescente valorização de palavras como “liberdade”, “democracia” e  ”consciência”, basta um simples olhar mais apurado para discernir o quanto somos aprisionados como cães de laboratório, respondendo a estímulos de consumo disseminados com enorme sutileza.(as vezes nem tanto)

Você que acorda cedo e sai para o trabalho. Se inquieta com seu salário e os rumos da economia. Que paga seu plano de saúde, o seguro do carro e o de vida. Lê seus jornais pela manhã e, no fim do dia, assiste aos tele jornais antes de descansar. Você que está atento e informado sobre os rumos da tecnologia e não perde uma oportunidade de comprar a mais recente novidade.

Talvez você se considere um ser espiritual, evoluído ou simplesmente em dia com suas obrigações religiosas, de modo que acredita em Deus e respeita o próximo. Está em dia com seus impostos, certo ? Não compra produtos piratas, não suja as ruas e segue todas as campanhas politicamente corretas.

Você que se diverte e investe em seu lazer, viaja sempre que dá,  assiste aos seus programa de televisão e tem suas próprias opiniões em relação a política, futebol e o comportamento do próximo.

Você que vive sua vidinha normal, sem excessos, seguindo o fluxo do que a média aceita, tolera e considera saudável.

E se você estiver preso em uma caverna sem saber ?

E se houver luz do lado de fora ?

E se o caminho da média – estrada para a mediocridade – for o único caminho que você trilha ?

E se um dia você entender que sua vidinha é uma jaula de conforto e, de repente, se sentir a um passo da liberdade ?

Já pensou se – ainda que você não queira – uma curva inesperada em seu caminho colocar sua vida de pernas para o ar e, em questão de segundos, tudo o que parecia estável e encaixado perder completamente o sentido ?

E se não for mais possível fingir que não vê ? Que não sente ? Que não quer ?

Que tipo de sentimento terá quando, não mais o piso fechado, gelado, estável e seguro da jaula estiver diante dos seus pés, mas a grama, a terra e o sol ?

Como será o dia em que, como esses cãezinhos de laboratório (video abaixo), presos a vida inteira em jaulas para testes de indústrias na Espanha, libertados por uma ONG que documentou a primeira vez que viram a luz do sol, como será que você reagirá ?

Ou será que você realmente acredita que esse teu comodismo existencial que lhe dá sensação de conformo e segurança justifica sua existência? Ou será que você realmente acredita que estará para sempre no controle e o que hoje lhe parece insondável, permanecerá escondido eternamente ? Acredita mesmo que sua saúde, seu dinheiro, seus argumentos, sua aparência, sua articulação, sua influência, sua sanidade nunca terminarão? Tem absoluta certeza de que aquilo que você tanto almeja e chama de poder, conquista, metas ou vitórias, lhe conduzirá para fora da jaula?

Como será o dia em que a jaula se abrir e você olhar para a luz do sol?

Quando perceberá que tudo o que precisamos é nos expor a sua luz ?

Até que ponto lhe parece plausível que nada lá fora fará sentido, se não for iluminado pelo sol  ?

Nesse vídeo uma metáfora para nossas vidas.  Naquelas jaulas somos nós , deixando culpas, livrando-se do medo, saindo para o sol.  Assista e se enxergue. Talvez você veja.

Aprendendo a escolher

Todos os dias você escolhe ser quem é.

O que pensa, como veste, o que come, onde vai, com quem fala, o que lê, assiste, interessa, faz…Tudo contribui para que agora você esteja onde está: com suas questões, erros e acertos.

Não é uma palavra ou um pensamento (positivo ou negativo). Não é somente uma decisão ou um passo.  Olhando isoladamente, cada escolha implica em um determinado processo, mas somente a combinação de todas elas formaram aquilo que você é por inteiro.

Como a combinação de temperos que dá gosto a comida, foi a soma de suas escolhas que lhe trouxe até aqui.

Acontece que nunca saberemos exatamente onde as escolhas se encontrarão, em que medida minhas decisões implicarão em consequências que hoje sequer cogito, a não ser depois que acontecem.

Olhando somente por este ângulo, tudo parece dificil demais, a não ser por um detalhe: a possibilidade de nos reinventarmos a partir da perspectiva de um novo olhar, que se recicla, aprofunda e aprende a amar.

Sinceramente acredito que, no fim das contas, a finalidade de todas as nossas experiências é que aprendamos a amar. Essa é a energia mais poderosa do universo.

Se sou fruto de minhas escolhas, que elas sejam pautadas em amor, entendimento e , sobretudo, consciência, especialmente lembrando que ser do bem e viver em amor é um processo que começa com uma escolha e depois se renova todos os dias, em cada passo, em pequenas decisões, naquilo que chamo de cotidiano.

Quando nos desintoxicamos do fluxo do dia a dia, aprendemos a encontrar significado onde realmente ele está.

Isso muda toda a referência e nos ajuda a fazer as melhores escolhas, todos os dias.

E , acredite, isso faz uma enorme diferença.

 

A necessidade das descontruções

Se tivessemos clareza das nossas contruções interiores e vissemos as estradas, os castelos, templos, labirintos, cavernas e buracos que nos escondemos e construimos dentro da gente, espelhos que nos refletem sem que percebamos, e, tudo isso projetado no olhar, influenciando nossa leitura da vida, do outro e de nós mesmos, levariamos um grande susto.

Provavelmente perceberiamos o quanto somos influenciados pela nossa história, cultura, geografia, pelo que nos entrete e cativa, pelo que nos abraça e motiva, e, então veriamos nossa nudez pela primeira vez, entendendo de fato a necessidade constante, presente, continua e permanente de desconstruções interiores, para que algo genuino possa nascer em nós.

Somos expostos a dilaceramentos diários, desintoxicações do que impusemos como algema na mente, cegueira nos olhos e nos faz acreditar que o único mundo real é o presepio que, sem perceber, construimos.

Geralmente as desconstruções – por mais dolorosas que sejam- trazem incriveis oportunidades de renascimento, e, no fim das contas, nos mostra que antes de grandes edificações é preciso limpar o terreno e derrubar todas as velhas estacas que resistem permanecer em pé.

A arte de duvidar

O Abujamra tem um slogan: “Idolatre a dúvida”. Confesso que acho exagerado, como quase todo slogan. A idolatria, seja do que for, tira o olhar isento, nubla a perspectiva e a desloca para a subserviencia cega, burra, resignada.

Tirando isso, gosto da idéia de perder o medo da dúvida. Vivemos em uma cultura que não faz muitas perguntas, onde pensar incomoda e , se possível, a maioria se deixa levar por um fluxo de acomodações, conveniências, sem reflexão, seja sobre o que for. Não pensamos para que outros pensem por nós e, muitas vezes, não questionamos, com medo de desacreditar.

Isso porque em geral as afirmações mais eloquêntes tendem a mascarar incertezas arraigadas. Gritarias escondem fraquezas, imposições para não expor fragilidades.

Seja por reflexo da correria atual, ou como fruto de uma cultura religiosamente acefala onde fé e ciência são antagônicas e conexões entre espiritualidade e controle de massas são aceitas com tanta facilidade, deixamos de fazer perguntas e, sobretudo, de expressar dúvidas.

Quem olha para suas dúvidas com naturalidade, tem uma grande oportunidade para crescer. Ela abre terreno em frente a dogmas, desconstrói entulhos sedimentados por certezas impostas, abre caminho para o novo, o ainda desconhecido.

Questionar-se, querer explicações, dar um passo adiante é necessário para quem sabe onde está, olhou ao redor, e percebeu que sempre dá para ir mais um pouco. Quem encara suas inquietações sem medo, geralmente as sacia.

Aprender a lidar naturalmente com suas dúvidas é um importante passo para todo aquele que tem sede de conhecimento, que entende a necessidade de melhorar, evoluir, ir além.

Se “idolatrar” a dúvida é exagero, enxergá-la como parte da própria humanidade é saudável, pertinente e necessário.

Quando dúvidar não é um estado permanente de espírito – tornando o individuo um cético patológico- mas uma abertura para o improvável, dilatamos nosso olhar, afinal, muitas vezes o sentido das coisas transcende racionalidades e viaja por inquietudes e por quês.

Dúvidar pode fazer parte do crescimento, da experiência e do saber.

Alguém duvida?

A fonte dos sentimentos

Nada carrega felicidade em si mesmo. Nada. Pense no cenário ideal, no objetivo que mais te estimula, naquilo que você mais quer.

Ainda que pense na pessoa amada, nos desejos mais legitimos, na companhia ideal, entre cenários, projetamos na vida aquilo que vive em nós.

Pensamos que ela nos deixa felizes, mas não é.

Pensamos “este lugar lindo tem o poder de me deixar feliz”, engano.

O que lugares, pessoas, acontecimentos fazem, é servir de mídia para extrairmos o que mora em nós e são imantados pelo que sai da gente.

O mesmo vale para cenários de tristeza.

Você pode conviver anos sem sentir a perda, sem perceber a dor, sem sequer intuir a tragédia que só nasce quando vira informação. Pronto. Materializa-se a mídia que recebe sua projeção da dor.

Quando a gente descobre que é assim, aprende a “sacar” de dentro o que antes precisava do imã. Continuamos a curtir as coisas, mas sabemos que aquilo só reflete o bem que antes viveu em mim.

Quem se alegra com algo, ainda que não saiba, enxerga a alegria propria, peculiar, absolutamente vinculada ao que é.

Esse alegra-se em si mesmo.

Quem chora diz as razões. Chora a perda, o luto, a doença a dor ou seja o que for, mas só chora porque alegria e tristeza, vida e luta, festa e pranto são elementos de nossa natureza, vivos em nossos corações refletindo o tempo todo naquilo que nos cerca.

Olhar pra si mesmo ilumina a fonte dos sentimentos e nos ensina que, antes de tudo, sou eu que projeto na vida aquilo que sou.

Quem puder, enxergue-se.