Quando tudo se renova

Hoje os ânimos estão exaltados, excitados, felizes e propensos a expectativas relacionadas ao que virá.

“Muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender” é o refrão oficial da data.  Ai vem a mega sena da virada, os pulinhos de ondas, a roupa branca, as lentilhas no prato, o champagne, os fogos e a sensação de que a contagem recomeçou, tudo do zero, uma nova oportunidade.

Ano novo é todo dia. São as escolhas que faço hoje, as decisões que tomo agora, as atitudes cotidianas, a disposição de enxergar o proximo como de fato proximo, a disponibilidade de coração em ser agora, sem esperar amanhã.

Não preciso esperar a contagem regressiva porque minhas chances se renovam a cada minuto, diante das dezenas, centenas, milhares de possibilidades que meu dia reserva, quando posso decidir que tipo de material construirei minha vida, qual o chão, as paredes e o teto de minhas escolhas, como reagirei quando a noite for longa, que tipo de respostas darei aos que dependem de mim, que significado posso dar a cada acontecimento, cada experiência, cada alegria e cada dor.

Hoje é dia de mudanças, amanhã também, depois de amanhã, depois de depois de amanhã e assim sucessivamente. A verdadeira virada não virá da mega sena e nem depois da contagem regressiva da meia noite, mas é uma construção diária, que começa agora e continuará enquanto estiver nesse corpo, pois o ano se renova sempre que me deixo transformar pela renovação da minha mente, hoje e sempre.

Grande beijo!

caricatura flavio aviao

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Oportunidades de SER

protesto pela paz,em 1962 em londres durante a crise dos misseis

Toda mudança acontece quando quem muda sou eu e o “ideal” para a sociedade passa a ser praticado como ideal individual, no chão do meu caminho, no meu horizonte, entre aqueles que encontro no dia a dia e me experimentam, dando a mim a oportunidade de SER amor, SER inclusivo, SER justo, SER pacificador, SER honesto, SER paz, SER misericordioso, SER grato, SER do bem. Não são os sistemas que SERÃO, sou EU. Minha tarefa é sobretudo enxergar e praticar o que nunca verei implementado de fato em sistema algum, mas será a única verdade do mundo que sou, se antes de querer mudar o mundo de fora, eu mude o mundo de dentro.

Nossos corpos e nossas histórias

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Nossos corpos carregam nossas histórias. O sorriso aberto, escrachado, desinibido e o contido, escasso, limitado. O olhar perdido, vazio, profundo, intenso e disperso revelam mais do que a maioria vê. A postura ereta, curvada, imponente, com movimentos lentos, rápidos, desconexos, estabanados, sutis. Nossas rugas, em maior ou menor quantidade, a voz cansada, altiva, relaxada, desafinada, intermitente como passos que vacilam, tropeçam, desviam e seguem, sem notar que, cada movimento é uma confissão.

Nossas doenças, nossas metas, mitos, medos, modos, muitos jeitos de pensar, dizer, calar, sentir, querer, esperar, antecipar, priorizar sem nenhuma razão aparente, sem refletir, sem enxergar; nossa pressa carrega o que estamos nos tornando todos os dias, seja como individuos, seja como sociedade. O processo é absolutamente o mesmo e um retroalimenta o outro.

O rosto, outdoor da alma, o corpo, capsula do espírito.  Vivemos distraídos demais para perceber. Queremos obviedades, nos acostumamos com entorpecimentos constantes e simplesmente deixamos de notar que nossos corpos carregam nossas histórias.

Eles dizem o que temos experimentado, refletem as escolhas, denunciam o que enfaticamente pensamos negar.

Não me refiro únicamente ao que se pode enxergar de forma superficial, tampouco ao que a academia, os cosméticos ou a idade, tenra ou avançada, porventura sugiram. Não é só isso. Falo sobre o brilho que sai dos olhos, a energia que sai da alma e permeia os movimentos, as intenções, o respirar, o tom, o som, o céu ou inferno que muitas vezes habitam uma simples palavra e se instalam no corpo, formam, deformam, transformam.

Também falo sobre nosso rastro, influências que deixamos para quem fica ou virá, interferências no caminho do outro, reações desencadeadas a partir de escolhas,  antipatias gratuitas, implicâncias implacáveis, impensadas, empacadas.

Um dia deixaremos de animar esses corpos e então seremos o que somos. Sem dicotomias, disfarces, enganos, reflexos do que hoje estamos construindo, como oleiros que dão cara ao barro, o pintor que reflete o que vê, o escritor que constrói um mundo com palavras, um humano que caminha consciente de que nossos corpos carregam nossas histórias.

A consciência e a lei

obstaculos

O povo vive pedindo mais leis. Os deputados e senadores gabam-se pelos projetos, apêndices, penduricalhos propostos, debatidos, aceitos ou negados em nome do bem estar. (de quem mesmo?)

O Vaticano impõe suas proprias leis na base da tal infalibilidade papal, rogando para a insituição o direito de ser porta voz de Deus, e faz política com isso.

Igrejas, de maneira geral,  controlam seus rebanhos com leis do pode não pode, é bíblico ou não é, condeno ou absolvo, vai para o céu ou inferno.

Advogados bons são os que conhecem os meandros, contradições, pontos de conflitos e ambiguidades da lei, diferenciando a lei do pobre e do rico.

Nossa democracia se adequa a lei do consumo, e perverte, distorce, contorce e aceita os limites que, em essência a contradiz em nome da economia.

“Se não for assim, o povo descamba”- Concordam os controladores e controlados, impõe-se regimes, restrições, cortes em nome da liberdade, da segurança que não chega, das facilidades que não suprem. “É ruim, mas é o melhor que se pode” – argumentam resignados os que perderam a esperança.

Quem está disposto a andar em nome da consciência ? Quem tem coragem de trocar a segurança do que a média convenciona, do que se aceita com imposição, pela liberdade de ser?

Não defendo anarquias de qualquer tipo, tampouco o descumprimento de nada, trata-se de mais do que isso. Estamos acomodados demais para perceber o quanto nos encostamos no que é imposto, o quanto aceitamos com facilidade ser o que dizem para ser, fazer sem saber por que. Pra que? Pensamos. Pensamos?

É por isso que as leis, por mais pesadas e abundantes que sejam, nunca são cumpridas, porque, sobre qualquer lei, deve predominar a consciência.

Caso contrário, veremos o que já estamos vendo, porém em triste e crescente repetições: Gente cauterizada, amargurada, cínicamente cumpridores da “moral e bons costumes”, porém existindo em eterno conflito entre o que tentam aparentar e de fato são, criando argumentos para justificar o que sabem, mas não ousam assumir.

Se minha proposta parece utópica socialmente falando, sinceramente acredito que no campo da individualidade, na dimensão da mente e da alma de cada um é possível uma reviravolta, um resignificar de valores, olhando para a lei a partir da propria consciência que se desenvolve e aprofunda porque se alimenta da vida, enxerga, percebe, amadurece.

Não precisamos de mais leis.  Sei que as pessoas são diferentes, há choques de idéias, embates naturais, culturais, de gênero e valores, necessidades de um e de outro, desentendimentos em várias instâncias e, nesse caso, a lei ajuda, mas, acredite, sábios são os que desenvolvem seu olhar e, naturalmente suas ecolhas, a partir das raízes da consciência que se aprofunda e transcende.

Esse não se sente a vontade para julgar, tampouco condena a ninguém, mas excerce sobre si mesmo o arbítrio de quem sabe que, acima do pode e não pode, está o é justo ou não é.

Quem se habilita?