Apenas um grãozinho de arroz

Nesse fim de semana ganhei em BH um presente muito significativo: Uma pulseira com um pingente feito de um grão de arroz com meu nome e a palavra “Aquiete-se” escritos. Desde então ela veio para meu pulso, para me lembrar o que sou, um grãozinho de arroz, um pequeno fragmento em constante processo de aquietamento. Além do presente a amiga que deu escreveu assim: “quando segurei este grãozinho de arroz na mão percebi que ali na minha mão ele era só um grãozinho, mais uma ceara dele pode alimentar uma nação! que você continue semeando ..” São gestos simples, cheios de significado, que valorizam a caminhada, os vínculos, os encontros, especialmente por não nos deixar esquecer quem somos. Caminhemos!

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Inadequados

Maria, lutando há mais de 30 anos contra a vida que tem, não sabe que sua luta é apenas inadequação.

Evandro, endividado, inquieto, sobrecarregado de demandas, não sabe que sua luta é apenas inadequação.

Simone está doente. Faz tratamento no hospital, sente dores, os médicos não estão otimistas. Tem família, filho pequeno. Simone sofre e não sabe que sofre por inadequação.

Morrer nos parece inadequado. Perder, lutar, sofrer, adoecer, situações tantas vezes inevitáveis, geram perplexidade, especialmente porque, ainda que exista, não se encaixa, parece que jamais corresponderá ao que intimamente acreditamos ser o ideal, o adequado.

Um corpo que envelhece, uma mente senil, o tempo que passa, as folhas que caem, o bicho que morre, fragmentos de realidade que se espalham sobre a terra e fora dela, nas explosões espaciais, as estrelas dissolvem, os cometas se chocam, inadequadamente.

Janaína não se sente confortável em seu corpo. Não é questão de falta ou excesso de peso, não é estético, é outra coisa. Um sentimento de que ela não é ela, de que está no lugar errado, um sentimento estranho, inadequado.

Lucas não se sacia. Come tudo, come todas, falta alguma coisa, corre atrás de não sabe o que, tenta suprir o que lhe falta, o vazio que parece inadequação.

Somos bichos que não se adequaram. “Coisas” que vivem em corpos e se esqueceram o que são. Consciências vinculadas, entes que se conectam, relacionam, podem ver, ser, existem, ainda que tantas vezes a existência pareça não encaixar.

Ser feliz é adequar-se. É ser quem é e quem pode ser. Aconchegar-se no corpo, acomodar-se na vida, relacionar-se com a perda, silenciar-se na dor. Ser feliz é adequar-se.

Tudo passa, tudo muda. Fixidez é apenas uma palavra, nada mais.
Enxergar a vida tem a ver com perceber que cada acontecimento é um movimento de adequação. Tudo se encaixa. Até a morte, até as perdas, até a dor.

Todo sofrimento é inadequação.

Não importa qual seja, por mais difícil, ainda que doa, você não sabe, mas sofre por um profundo sentimento de inadequação.

Adequar-se não é resignar-se preguiçosamente. Isso é coisa do medo. Adequar-se é aquietar-se. É perceber os movimentos, as adequações, sem a interferência da indignação, do medo, da tendência de pensar que é vitima.

Você não é. Você está vivo.

Está sujeito aos processos de adequação, de encaixe, de vida que não pode compreender agora, mas, acredite, entenderá depois.

Aquiete-se.

Ele pensa que seu sofrimento tem nome, ela acha que a dor é causada por determinado evento, mas passará, aliviará, se adequará ao que é, ao que somos, seres que são o que são, alma e carne, corpo e espirito, coisa, ambivalentes, inquietos até que se calem. Até que se adequem.