Como controlar a raiva?

Um diálogo de agora há pouco: “Flavio,o que podemos fazer para controlar a raiva e não nos deixar impulsionar por ela?”

– Quando sentir sua raiva, observe-a. Tente por um momento perceber como ela te modifica, como fragiliza suas convicções, como te animaliza, te expõe. Não tente deixar de senti-la, nem lute contra ela, isso a fortalece. Apenas observe sua raiva, isso é projetar-se sobre ela, é jogar luz nessa parte escura. A escuridão se dissipa com a luz. A raiva se dissolve sob a luz da consciência que se desenvolve e aprende a enxergar.

“Na verdade, foi o que eu acabei fazendo, me observei!! Mas minha mente ficou inquieta… Fazia perguntas que me incomodavam, tipo “por que tua ainda sente raiva?” “tu sabe o que acontece no teu corpo quando tu sente raiva?” “por que isso ainda não mudou?” etc… Como calar essa voz ou não se incomodar com ela??”

-Você não se observou, você se analisou. São coisas diferentes. Na observação não há perguntas nem julgamentos, na analise há. A consciência apenas vê, não faz analise moral, simplesmente se desloca do ego e tenta enxergar-se. Tente. E quando as perguntas vierem não tente respondê-las, não dê bola, não as alimente. Isso faz parte de um recurso mental que tenta sobrepor-se a consciência e, se alimentado, piorará a situação porque provocará culpa. Não faça juízo, nem perguntas, nem tente respostas. Observe-se somente e a paz dissolverá a raiva. Fique bem!

As coisas

Vamos falar sobre você. Você quem? Saramago dizia que dentro da gente há uma “coisa” que ninguém sabe o nome, e essa “coisa” somos nós. Você é essa “coisa”. Não é o corpo, não é o rosto, não é a voz. Você não é aquele que os amigos reconhecem, tampouco o filho abraçado pelos pais. Você também não é o pai, nem a mãe.

Que tipo de “coisa” anima os corpos, esquenta a pele, põe brilho nos olhos, sorri, chora, pensa, sente, enxerga, cheira, sonha, mente, vive tentando preencher-se sem saber direito do que, se vincula, se aproxima, se apaixona, envelhece e um dia vai embora? Embora para onde?

Há pele, camadas de gordura, carne, órgãos, ossos, universo biológico que trabalha como uma máquina, sem que nada sinalize nenhum movimento perceptível a olho nu, nem em radiografias, ou tomografias, ninguém sabe aonde fica, mas, como negar que há uma “coisa” dentro da gente?

Quem anima o corpo da senhorinha do café? Aquele corpo adiante que um dia apodrecerá se manifesta lindamente, como uma flor que um dia vai murchar, como os pássaros que voam tão alto até que o fôlego da vida seja sugado, aquele corpo, aquela senhora, aquele menino, aquele homem, aquela mulher, o mendigo, o soldado, o amigo, o chefe, o fiscal do imposto de renda e o vizinho, aqueles corpos, aquelas “coisas”, vivendo em um fragmento do tempo, experimentando a possibilidade de serem humanos.

Nós, coisas, um dia deixaremos de ser. Nós, coisas, um dia voltaremos a ser. Coisas que nem sabem direito o que são, mas de alguma maneira se vinculam espantosamente, como se compartilhassem em si mesmo todas as coisas, todas as histórias, o mundo inteiro que cabe em algum lugar dentro da gente, na coisa que somos.

Nas coisas não há tempo, nem espaço, nem separação. As coisas são manifestam-se nesses corpos conforme a própria percepção, ou falta dela, vivendo dentro da relatividade, da auto percepção, da dualidade, do ego, tantas coisas sobre coisas que um dia deixarão de ser o que hoje vemos, voltarão a ser o que hoje ansiamos.

Consciências que movem bonecos de carne, coisas contando suas próprias histórias até que um dia retornem à casa, a coisa aonde as coisas serão mais do que coisas. Serão o que de fato são.