Aquietemos

Tudo o que você enxerga é apenas superfície. VSocê não vê a conexão entre as experiencias, não percebe o quanto uma, e outra, e aquela, e mais outra se vinculam e contribuem para que você veja mais, saiba mais, entenda melhor.
Não estamos aqui para sermos “vencedores de sucesso”, pelo menos não na perspectiva vigente. Estamos aqui para aprendermos a amar, para sermos humanos, para entendermos o que significa de fato estarmos vinculados, existirmos. Há muito mais em jogo do que a fatura do cartão de crédito, a promoção do trabalho ou o problema com o marido.
Portanto, aquietemo-nos. Não sabemos de nada e nossa inquietude nos torna mais cegos.

Cuidado!

Cuidado com o que escrevo. Não me proponho a levantar seu astral, dizer que você nasceu para brilhar e que, se seguir minhas orientações, terá sucesso financeiro. Pelo contrário. Se prestar atenção, é provável que no começo a sensação de desconforto substitua o que antes parecia adequação. Falo sobre a necessidade de não permitir formatar-se pelas formas da sociedade.

Cuidado com o que escrevo. Não tenho intenção em afirmar superioridades religiosas, morais, intelectuais, acho tudo isso besteira. Pelo contrário. Se prestar atenção, é provável que comece a questionar o que aparenta ser de concreto, mas não resiste ao sopro da consciência. Falo sobre a necessidade de ser livre, pensar por si mesmo, questionar-se para finalmente enxergar.

Cuidado com o que escrevo. Não sigo nenhum tipo de cartilha pronta, nenhum manual, nem promovo nenhuma espécie de sistema de formatação do pensamento. Pelo contrário. Se prestar atenção é provável que logo esteja desconfortável diante de toda tentativa de aprisionar mentes e submete-las a dogmas que apenas fragmentam. Falo sobre a necessidade de aquietar-se para perceber, transcender os ruídos que as cartilhas propõe e finalmente pacificar-se.

Cuidado com o que escrevo. Se estiver procurando um grande mestre iluminado, que sabe mais do que todos, que se propõe a ser luz no caminho, esqueça. Pelo contrário. Falo sobre a necessidade de trilhar seu próprio caminho em humanidade, andar com as próprias pernas, ser mestre de si mesmo. Coloco-me como irmão que caminha junto e compartilha sua própria percepção que não é e jamais será absoluta. Sou fragmentado como você e tudo o que vejo é com parcialidade.

Creio que todos estamos compartilhando uma grande experiência que não pode ser desperdiçada. Ela fica mais fácil enquanto nos propormos a caminhar juntos, ajudando uns aos outros em simplicidade, expostos às inevitáveis desconstruções, doloridas tantas vezes, de quando resolvemos largar as muletas, os medos e as culpas.

Nenhum de nós sabe amar de verdade. Tudo o que chamamos de amor é um pedacinho, um pálido reflexo do que somos, de onde viemos, para onde vamos, o que somos e não vemos, o que nos preenche silenciosamente, o que nos envolve, ainda que não percebamos.

Cuidado com o que escrevo, especialmente se lê tentando legitimar-se, procurando algum tipo de confirmação para o que promove sentimento de superioridade, se pensa que terá fórmulas mágicas ou frases de impacto, se espera que eu confirme o que seu mestre ou sacerdote dizem. Se vier com essa intenção, certamente ficará bravo ou confuso porque me permito o direito de pensar, de dizer o que vejo, de propor conforme minha própria experiência. Sugiro que faça o mesmo.

Reconheço que meus textos podem gerar desconforto em gente que, como sempre acontece, virá se defender na tentativa de evitar enxergar-se. Haverá os que piedosamente exortarão aos leitores para se precaverem, para não se tornarem “mornos”, defenderão a si mesmos com seus escudos de sempre, mas a esses poupo o trabalho: Vocês tem razão!

O que escrevo pode ser muito perigoso e os efeitos costumam ser bem diferentes das aspirinas que tomam, portanto, se não está disposto a começar por si mesmo, confrontando sua versão para consumo com o que de fato você é, melhor ter cuidado, o que escrevo pode ser muito perigoso.