Coragem de recomeçar

Quantas vezes o fim de uma relação gera um sentimento devastador, como se não houvesse mais chão nem referências! Seja o fim de um casamento, a perda de um ente querido, um amigo próximo que vai embora, o fato é que acontece com frequência.

Entendo que seja difícil e o sentimento de vazio, o sofrimento, o luto são inevitáveis na maioria dos casos. No entanto, permanecer no buraco eternamente é uma escolha, uma concessão de quem sofre. Há pessoas que se agarram ao vazio da perda como se esse vazio pudesse substituir quem foi embora. É quase como um tipo de lealdade as avessas que faz o sofredor se sentir culpado por deixar de sofrer, apegando-se ao objeto do sofrimento como se dependesse disso.

Esse não percebe que sofrimento também nos revela, afinal, escancara onde estão os vazios, os medos, as zonas de conforto que precisam ser encaradas.Encarar-se é uma escolha, iluminar os cantos sombrios da alma com a luz da consciência também é uma escolha que depende unicamente de cada individuo.

Se estiver sofrendo, cumpra seu tempo de luto em paz. Só não esqueça que ele tem tempo para terminar e, se você quiser, sairá melhor do que entrou. Desapegue-se da sua dor para que ela não apodreça e te estrague junto. É preciso caminhar e recuperar a felicidade no caminho, nos presentes e compensações que a vida dá, na coragem de recomeçar, de ser de novo.

A dimensão do essencial

Não coloque propósitos para seu crescimento espiritual, como se estivesse estipulando prazos e metas, como se precisasse atingir determinado estágio para sentir que “chegou lá” a tal ponto que, todos os dias, cobra de si mesmo alguma evolução.

Aquilo que muitas vezes consideramos objetivos a serem atingidos, deve ser consequência, não pode ser causa, motivação da busca. A gente busca sem perceber, sem fazer força, sem colocar angústia no caminho, sem tecer prazos ou metas. Tudo o que devemos fazer é caminhar, e caminhar com atenção.

Quando estou fixado em metas, elas serão minha referência, é por elas que vou aferir até que ponto estou “evoluindo” e isso sempre irá gerar decepção porque vida espiritual não se mede. Não há como medir o que é dentro, não se vê e nem sempre segue caminhos lineares de mensurabilidade.

É como se você plantasse uma árvore para se proteger do sol, e todos os dias sentasse ao lado dela, mesmo que fosse ainda apenas uma plantinha, lamentando que ontem estava do mesmo tamanho de hoje, portanto, não cresceu. Reclamará da árvore sem saber que ela cresceu sim, um pouco a cada dia, até que você desista de esperar e, lá na frente, seja surpreendido pela enorme e frutífera árvore.

Você pensa em suas tentativas, seus caminhos, os lugares onde passou, tentou, se esforçou, as filosofias, as religiões que acreditou serem os verdadeiros canais de evolução. Deixe-se me dizer: nenhum deles é. Absolutamente nenhum.

Tudo pode ser ferramenta, tudo pode ajudar, mas espiritualidade é algo que se vive para dentro, ainda que irradie para fora, ainda que promova vínculos, ainda que lhe possibilite exercitar o amor com o próximo, isso é ótimo, mas é consequência do que antes cresceu dentro.

Não projete sua busca em uma religião, por mais coerente que pareça. Não pense que será uma filosofia, um ritual, um livro ou o que quer que seja que substituirá a possibilidade de enxergar na vida, nas relações, na não linearidade do caminho, em você, dentro, onde ninguém vê. Essa busca cheia de angústia só irá causar dependência, jamais paz interior. Você já tem o que precisa, a paz que tanto quer já é, e de modo algum está vinculada a nada, absolutamente nada fora de você, é por isso que sente tanta dificuldade em encontrá-la.

Engraçado como, de maneira geral, sabemos que o dinheiro, o trabalho, o consumo, não nos trará paz, mas nunca pensamos em relação as religiões, filosofias ou afins. Essas não dão paz pela mesma razão que as outras não dão: estão fora de você, por que seria diferente?

Como encontrar seu caminho? Não se cobre, viva sua vida em paz, use o bom senso, sem culpa, sem angustia, apenas preste atenção no caminho, perceba os movimentos diários e insistentes da vida, de tudo, a terra toda apontando para o simples, está tudo a sua volta, perto, presente, vivo, cada detalhezinho do dia, cada brisa do cotidiano, cada som, cada dia, cada noite, cada silêncio, cada dor, cada alegria, cada conversa, cada momento construído para que você se enxergue, valorize o simples, observe, esteja realmente presente, ame, seja grato, perdoe a si mesmo.

Tudo o que passar disso pode ajudar sim, pode ser útil em algum momento, mas nunca estará na dimensão do essencial, portanto, não corrompa a busca, não inverta as coisas, não projete em nada aquilo que, com simplicidade, naturalmente é e nunca está restrito a grupos ou filosofias especificas.
O que realmente importa já vive em você, portanto, sua função é apenas aquietar-se e perceber.