Os que não veem

Pressa (1)

Nós e nossas vistas cansadas, que de tanto ver não veem. Nós, que fazemos os mesmos caminhos, cruzamos as caras de sempre, os postes de sempre, os bons dias de sempre e não vemos ninguém.

O que vemos é nossa pressa. Ela se estampa no corre e corre das ruas, nos carros, nas pessoas, anônimos que vão e vem, sem rosto, sem nome, sem nenhum vínculo com nada, apenas parte da paisagem que não vemos porque nossos olhos se entupiram de olhares, dos olhares dos que não veem.

Tudo virou nada, não há mais curiosidade, nenhum interesse pelo campo visual de nossa rotina a não ser que um homem caído na rua, um acidente de carro, uma briga, algo que nos anime, desperte atenção momentânea e logo seguimos nosso caminho guiado por telinhas de celular.

Sei de um homem que, em décadas de empresa dava bom dia ao mesmo porteiro que cometeu a deselegância de morrer. Entre a rodinha de colegas que cochichavam sobre o infarto fulminante, o tal homem tentava em silêncio recordar o rosto, a idade, a voz, os detalhes do senhor que cumprimentou desde sempre, mas não conseguiu se lembrar. Foi a morte que trouxe o porteiro à pauta que logo foi substituída pelo jogo de futebol.

Há maridos que nunca viram a esposa, pais que não veem seus filhos, gente que vive sobre o mesmo teto e jamais se enxergou.

A rotina desgasta os olhos. A familiaridade substitui o encanto. Faz com que a gente pense que já viu tudo, como se nada fosse o suficiente, como se tudo fosse a mesma coisa.

Quando eu morrer, morrerá comigo um único modo de ver. Eu e você somos isto: um modo de ver. Esqueçamos isso e nos perderemos nos muitos olhares.

Voltemos a ver e seremos como as crianças que ainda se encantam. Enxergam o mundo a sua volta, cada detalhe, cada movimento, cada raio de luz que ilumina a terra molhada, as pedrinhas no chão, os bichos, os rostos, a vida que habita cada humano e se projeta no que somos, no que prestamos atenção, em tudo o que vemos.

Nossos olhares se perdem no cotidiano, desgastam-se e abrem portas para o ninho da indiferença. É onde nascem os monstros que nos separam, convencendo olhares perdidos que são seres autônomos, desconectados, infelizes como são os que já viram tudo e não enxergam mais nada.

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7 comentários em “Os que não veem

  1. Não vemos ninguém porque, nossa selva é de pedra, não conseguimos mais visualizar o céu, as nuvens, a lua o sol as estrelas… Nossas casas não tem mais janelas voltadas para a natureza, nossas ruas não tem mais cascalhos e o ruído das folhas secas já esquecemos qual é…. a Bíblia tal qual a mitologia tem muitas coisas evidenciadas, porque não acreditarmos que somos feitos a imagem e semelhança de nosso criador e dele com o mito da civilização nos afastamos…. tanto que, conforme vídeo do comentário do paradoxo a nível sub atômicos somos indistinguíveis! Exatamente iguais!

  2. Quando eu morrer, não sei o que morrerá, mas sei que me integrarei as minhas origens, um céu azul, uma tempestade, uma brisa, um ipê rosa florido, e, porque não, uma mãozinha de criança …

  3. não… ninguém vê tudo…. só não enxerga quem está na escuridão, talvez atravessando o inferno de Dante, mas até essa travessia um dia acaba , mas ninguém sai imunizado dela que pode voltar à bater qualquer instante nossa porta,
    Enxergar é sentir a natureza, é deixar o coração no jeito, isso até os cegos enxergam.

  4. O “cobrir do véu” que faz com percamos a capacidade de ver e refletir a luz a nossa volta. Que sejamos vagalumesinhos! Grande Flávio, paz e bem.

  5. naum nascemos para ficarmos presos a rotinas realmente … vivo isso diariamente é muito triste … naum consigo mais criar nada … sempre fui bastante inventivo … agora tenho que pegar ônibus cheios … esperar em filas “eternas ” e isso desgasta demais … fora a rotina do trabalho … mais vou conseguir sair dessa … só deixar o tempo conduzir minha vida na sincronia maravilhosa do cosmos … tudo vai melhorar … é apenas o que acredito … e isso é tudo …

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