Preciso desapegar das pessoas?

Dia desses escrevi sobre desapego. Houve quem, incomodado, me escreveu perguntando: “Como desapegar das pessoas que amo? Você sugere que eu abandone pais, cônjuge, filhos… Isso é desapego?”. Senti necessidade de tocar no assunto novamente.

Amor é uma coisa, apego é outra. No primeiro caso, a base é a liberdade. No segundo, o sufocamento, o auto engano.
Quem ama enxerga. Discerne a hora de ir, voltar, dizer, calar. Amar implica em ser sábio, paciente para maturação dos processos. É preciso ter calma para entender o tempo de cada coisa. É preciso ter calma e enxergar-se.

Há situações difíceis envolvendo pessoas que se amam. Pais que sobrecarregam os filhos, cônjuges que não se respeitam mais, amigos que não se perdoaram, gente vinculada por alguma magoa, pesada como uma corrente presa aos pés, tropeçando, caindo, tentando levantar.

Desapego é livrar-se da corrente, jamais das pessoas.

Pode ser preciso afastar-se por um tempo para se recuperar, ter seu próprio espaço, mudar de ambiente. Talvez seja o contrário, hora de aproximar-se, diminuindo a distância que gerou o mal entendido, quem sabe uma conversa franca e aberta seja suficiente? Não há fórmulas prontas. Apenas livre-se das correntes e saberá o que fazer. Isso é desapego.

Você pode pensar que “se apegou” a alguém. Isso é impossível. O apego está ligado à sua insegurança, aos seus medos, vazios, que se projetam em alguém.

Você não está preso à pessoa, mas em si mesmo. Podem ser pais, amigos, marido, esposa, filhos, até o cachorro. Conheço uma mulher com quase 40 anos que trata seu bicho de pelúcia como filho. O apego não está no bicho, mas nos vazios dela. O bicho só recebe essa carga. Ela não precisa se livrar do bichinho, mas encarar seus vazios.

Desapego é abrir mão do excesso. É a coragem de enxergar-se no mal entendido, assumir sua responsabilidade nos desgastes, repensar até que ponto tem contribuído para que as coisas estejam fora de controle. É livrar-se da corrente e prosseguir com leveza, em amor.

Amor gera auto crítica porque amor é consciência. É a gênese das desconstruções, do livrar-se da sobrecarga, do silêncio necessário para entender as causas, enxergar onde tem errado, ter coragem para abrir mão do que precisa ficar para trás.

Jamais abandone as pessoas, ainda que em alguns casos a distância seja necessária. Jamais se omita diante da necessidade de alguém, mesmo que existam situações onde o silêncio é mais eloquente. Nunca mate outro ser humano dentro de você, mesmo que seja importante afastar-se.

Desapego é enxergar-se no que te aflige, seja o que for, abrir mão do sentimento de vítima, entender aonde alimenta os processos e assumir que não precisa ser assim. É pacificar-se e prosseguir, amando as pessoas em liberdade, deixando as correntes pelo caminho.

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14 comentários em “Preciso desapegar das pessoas?

  1. Bom dia Flávio e a todos que aqui te acompanham!
    Eu acredito que a maior e mais perfeita das palavras que existe é realmente o AMOR.
    No amor tudo pode. No amor tudo se crê. No amor tudo se tem.Quem ama verdadeiramente, quem entende o real valor da palavra amor, será capaz de viver pacificamente e em PAZ.
    Um excelente dia a todos e um forte abraço! PAz e Bem!

  2. …soltar as correntes,esse é o segredo, soltar as correntes que carregamos mesmo quando elas já estão soltas… abertas… e insistimos em arrastá-las… obrigada por
    esclarecer que soltar as correntes não é matar nenhum ser humano dentro de nós, essa diferenciação talvez seja o mais difícil de se enxergar, e por isso, na dificuldade de matar o ser humano dentro de nós insistimos em carregar as correntes…

    Desejos uma vida mais leve a todos.

    MP

  3. MP Obrigado pela sua presença diária, suas manifestações sempre tão verdadeiras. Sua presença enriquece o blog. Obrigado.

  4. Bom dia Flávio. Leio seu blog como um ‘devocional diário’, já não consigo ficar sem ler por muito tempo. Na verdade, o que procuro na leitura é justamente o auto conhecimento, não uso seus textos como guia do que fazer, mas busco através deles ter mais lucidez de nossa condição aqui, do que somos, as relações que temos… Confesso que quando o assunto é desapego e a simplicidade do amor eu compartilho do mesmo entendimento. Procuro a todo instante identificar os meus sentimentos verdadeiros e não a idealização de um, que é vinculado de forma alienante às massas. Me sinto entristecida por saber que ainda existe tantas pessoas que vivem presas a padrões que não são delas, que são impossíveis de ser atingir, padrões que nos roubam a felicidade e a paz de viver, sentir, experimentar a centelha de Deus que há em nós.
    Fique bem.

  5. Flávio, você clareia os meus sentimentos, e, consegue expandir com grande velocidade, o que penso que Jung chama de consciência coletiva, tipo insigh..
    Fique bem, amigo!

  6. dahora serviu pra mim hj … eh noix irmaum … falei uma par de coisa nada a ver para a minha mina … viajei … eh noix … já tava achando isso … valeu o texto … eu tow mó confuso e triste com alguns pontos em minha vida e acabei descontando nela …

    abração …

  7. Flávio, sei que este texto tem tudo a ver com o que me falou hoje!
    O trecho “Nunca mate outro ser humano dentro de você, mesmo que seja importante afastar-se.”
    Quiz dizer muito pra mim, é eu saber direcionar minha atenção, minha energia, para as novas possibilidades que estão aparecendo na minha frente e aproveitar o presente.
    Beijos pra ti!

  8. Flávio muito obrigada pelas suas sabias palavras. Neste exato momento eu realmente precisa ler e entender sobre o amor e apego… foi muito importante para mim.
    que Deus continue te abençoando muito. Bjo

  9. Não gosto de vc sr Flávio siqueira. Se eu soubesse na época que vc é o que vc é, jamais teria lhe pedido uma ajuda, um ombro amigo, através do seu programa. Na época, eu estava passando por um problema complicado mas verdadeiro.. e vc foi tão superficial, e ainda zombou de mim. Um conselho: Se vc não tem a capacidade de se colocar no lugar do outro, não ria, não zombe.. Apenas CALE-SE!!

  10. Angely, imagino que eu tenha cometido alguma insensibilidade com seu momento e dei a impressão de ser irônico com sua questão. Jamais faço isso. Não me lembro do seu caso, nem sei a que se refere, mas peço perdão se te fiz mal. Não foi minha intenção. Espero que esteja bem e que não guarde rancores. Um abraço, fique bem.

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