Eu quero ser feliz agora

Nos reconheçamos em nossa humanidade, em nossas dores, nos limites que transcendemos, na esperança de sermos vaga-lumes, não moscas. Que a felicidade seja o norte e a paz o chão. Que a esperança supere o medo, a confiança, maior que as ameaças. Sejamos livres em nosso caminho e pacificados em todas as escolhas. Conscientes, verdadeiros, genuínos, felizes, agora.

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A perfeita imperfeição

Não busque a perfeição. Esqueça. Ser perfeito deturparia nossa condição humana, naturalmente ambígua, e nos transformaria em seres arrogantes.

Somos contraditórios e tropeçamos em nossos limites com muita frequência, portanto, insisto: deixe de cobrar perfeição de si mesmo. Seria um peso que, acredite, lhe sobrecarregaria.

Mas, preste atenção, isso não quer dizer que deve se conformar com o que sente que precisa mudar. Eu e você carregamos níveis de condicionamento, de formatação, de limites auto impostos que precisam, aos poucos, serem transcendidos. Basta enxergar-se com honestidade para chegar a essa conclusão.

Então, como fazer? Em primeiro lugar pacificando-se. O primeiro sintoma da felicidade é pacificar-se com o que consegue ser hoje. Sei que não é o ideal, nunca é. Mas aceitar-se como pode, aquietando a mente inquisidora, é o início de tudo.

É preciso a consciência de que a perfeição inclui a imperfeição. Especialmente pelo fato de que nenhum de nós sabe com clareza o que é luz e o que é trevas, o que é bom e o que é mau, o que é perfeito e o que é imperfeito. Julgamos saber, mas nosso juízo é absurdamente limitado aos condicionamentos que, sem perceber, vamos anexando a mente e transformando em verdade absoluta. A certeza de que sabemos é o sintoma mais claro de quão distantes estamos da verdade.

A busca pela perfeição é utópica a começar por nossas próprias distorções, sutis tantas vezes, tendenciosas o suficiente para transformar algo genuíno em soberba.

Você duvida? Basta observar a historia humana e concluir como lindas ideias viraram ferramentas de manipulação, como insights iluminados foram se transformando em grossas e pesadas correntes mentais, como tanta gente que iniciou um caminho com boas intenções, com tantas coisas interessantes para compartilhar, perdeu-se na própria luz, até não enxergar mais nada. Cegueira branca.

Portanto, aquiete-se com o que é. Ninguém é perfeito, mas podemos ser melhores. Cada um enxergue a si mesmo com isenção e projete sobre o que vê a luz da consciência. Com o tempo vamos aprendendo a nos pacificar, até que a paz seja a água que nos lava de toda pretensão de ser o que não somos.

Nossa beleza habita em nossa humanidade e nossa humanidade, contraditória, ambígua tantas vezes, é o caminho para aceitarmos em paz cada processo que nos leva à perfeita imperfeição.

Uma coisa só

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A lua não sabe quem somos. Ela sequer imagina que naquele planeta azul há entes chamados humanos, muito menos que parte deles se inspiram pelo simples fato de enxergá-la. Sob o reflexo de sua beleza escrevem poesias, compõe músicas, se apaixonam.

O sol jamais terá ideia do quanto precisamos dele. O calor gerado pela estrela de quinta grandeza não é calculado, tributado ou gerido por ninguém. Ele está lá, bola incandescente, indiferente, imprescindível para seres completamente dependentes de sua existência.

O mar, universo dos peixes, das plantas marinhas, de seres que não podemos contabilizar, não tem consciência. Se tivesse é provável que se espantaria com a própria grandeza, a importância que tem, não só para as vidas que vivem nele, mas também para os que estão fora, para nós, gente que os mares nem sabem que são.

Aliás, somos seres completamente desconhecidos, irrelevantes para a existência de mundos, planetas, universos, dimensões que nenhum de nós é capaz de conceber, ainda que especulemos, ainda que avancemos em tecnologia e desenvolvamos cálculos incríveis, mesmo enquanto subimos nossas naves até onde o homem nunca foi e aprovamos financiamentos de pesquisas inéditas, extensas, complexas, ainda assim, jamais seremos capazes de transcender os limites de nossa própria insignificância.

Permaneceremos irrelevantes para a lua que continuará nos ignorando, o sol não saberá de nós, os mares poderão nos engolir a qualquer momento sem a mínima consciência disso, o universo que abriga a terra que “boia” no espaço será para sempre um mistério distante, ausente, indiferente até que finalmente nos vinculemos a ele.

Nesse dia olharemos para dentro e reconheceremos a lua. Ela nascerá em nós. Em nossa interioridade brilhará o sol, iluminando caminhos tortuosos, fazendo-se conhecer em intensidade e vida, clareando o que parecia ser apenas escuridão. Seremos saciados pela águas dos mares, pelos peixes amigos, pela imensidão oceânica, abrangente, que nos vinculará a tudo que vive, a tudo que é.

Não haverá necessidade de naves. Não olharemos mais para o céu a espera de anjos, santos, espíritos ou ETs. Não haverá mais nenhum tipo de angústia, a espera de um “contato”, de uma informação, de uma dica que seja, porque as respostas, todas elas, serão encontradas onde sempre estiverem, no universo que somos nós.

Transcenderemos nossa insignificância porque não há como mensurar a extensão de um ser que deixou de ser um homem ou uma mulher e virou abrigo da lua, casa do sol, habitação de oceanos, irmão de planetas, do tamanho do universo, ente de dimensões que a mente nem sabe, mas existe aqui dentro.

E então, nascerá uma eterna amizade que nos vinculará a absolutos incognoscíveis porém tão claros, tão presentes, tão reais na vida de quem expandiu seus limites e reconheceu o universo que lhe habita.

Nesse dia a lua nos verá e saberá quem somos, o sol, nosso amigo, nos chamará pelo nome, os mares terão prazer em nossa presença e não haverá mais diferença, nem códigos, nem limites, nem mistérios, tudo simples, tudo em mim, todos uma coisa só.

Para que os loucos confundam os sábios

Se eu pudesse condensar tudo o que é belo, todos os mares, o céu, as estrelas, se pudesse comprimir de tal forma que coubessem em palavras e traduzisse em textos que expressassem com fidelidade cada movimento de vida, cada brisa, cada expressão humana, cada emoção capturada em frases, ainda assim, não seria suficiente.

Mesmo que eu tivesse a palavra ideal para cada situação, pudesse dizer exatamente o que fazer diante das “peças” que a vida prega, conselhos perfeitos para gente tateando no escuro, confusas, ainda assim, seria muito pouco.

Eu poderia compor músicas que invadissem a alma e ajudasse a organizar mentes inquietas, diminuir ruídos, sons com poder de acalmar, despertar, conduzir pensamentos para dimensões de silêncio, mesmo que fosse assim, faltaria muito.

Há os que se expressam pela via da arte, da pintura, das imagens mágicas que retratam o mundo em pinceladas, um momento, uma cena fixada no tempo a partir do olhar único e talentoso do artista, uma nova perspectiva que pode emocionar e, por mais fundo que toque, não é o bastante.

Dentro de cada humano existe uma dimensão que não pode ser acessada pelo intelecto, nem pelas emoções, tampouco pelo conhecimento. Um espaço em nós aonde as palavras se esvaziam, as imagens diluem e todo conhecimento se transforma em códigos indecifráveis, inúteis, sem nenhuma servidão.

Nesse lugar, nossas perguntas, por mais serias que sejam, se apequenam, sem necessidade de respostas, argumentos ou explicações de nenhuma natureza. É o ponto aonde todas as dores se calam e os caminhos clareiam.

Se eu pudesse traduzir todos os sons do universo, cada imagem, cada movimento e aplicasse um sistema de pensamento que desvendasse tudo o que nem a ciência imagina, se eu fosse capaz de aprofundar consideravelmente todos os enigmas da filosofia e os mistérios da teologia, ainda assim serviria para pouco.

Dentro de cada humano existe uma dimensão que jamais será acessada pelos caminhos do ego ou por qualquer ferramenta mental. É a dimensão do incognoscível, da alma, do espírito que não se impõe, mas observa, que aprende a ouvir, calar, ser grato, consciente diante do que é.

Cada movimento da vida deve nos levar para essa dimensão e cada experiência contribui para que aprendamos a descansar nela, onde tudo é claro, tudo é paz, tudo é.

Para que ninguém se glorie em si mesmo, para que os loucos confundam os sábios, para que cada humano veja e entenda de fato do que é feito.

Pre-ocupações de cada dia

Acabei de responder um e-mail de uma pessoa vivendo uma série de conflitos e em determinado ponto refletia “Dizem que quando temos que nos preocupar com sobrevivência, não nos preocupamos em produzir ideias, não criamos, não somos racionais…”

Parei para pensar sobre isso por um instante e vi um mundo inteiro preocupado com a própria sobrevivência. Não são as mesmas preocupações para todos. Enquanto alguns lutam diariamente pelo básico, outros se entregam a causas aparentemente superfulas, mas sempre tratadas como se fossem fundamentais.

Veja como nossas sociedades se organizam sobre a tal luta pela sobrevivência, supervalorizando o “deus” mercado, permitindo que a economia fundamente nossas “castas” e hierarquias, formatando mentes, fundamentando valores, doutrinando jovens que passarão a vida tentando adequar-se a um sistema que poderá premiá-los, quem sabe, ungindo-os como fieis e valorosos soldados.

Enquanto isso a maioria prossegue com a luta pelo pão de cada dia, pela parcela do financiamento que era só “um pouquinho” por mês, mas a soma de “pouquinhos” fez do bichinho um dragão. Sentem-se sequestrados.

Há os que se preocupam com a saúde, a relação conjugal que projeta um ideal de vida perfeita, as receitas das novelas, dos cinemas, mas se frustra, com os rumos da política, a violência nas cidades, as enchentes, o inferno, ameaça para os que duvidam, e uma lista interminável capaz de nos manter eternamente distraídos, preocupados com a própria sobrevivência.

E quem vive preocupado com a própria sobrevivência não sente, não cria, não pensa, não vê. Ou você acha que existe outra razão para que as tais preocupações sempre estejam na pauta de quem cria as causas que ocuparão nossas mentes?

Você jamais resolverá todos os problemas e, acredite, se quiser, sempre vai haver motivos para se preocupar. Sempre. Vivemos em uma sociedade imperfeita, cheia de gente imperfeita, cada um lutando pelo que acredita, entrando em conflitos permanentes, desgastando-se, competindo de alguma maneira.

Vivemos em um corpo finito, perecível, que se desgasta todos os dias e caminha para tornar-se outra coisa, decompondo-se como toda natureza. Portanto, se as preocupações sempre existirão, escolha quais serão os temas prioritários de sua mente.

Você não deixará de trabalhar, de fazer suas coisas, mas com o tempo perceberá que não há necessidade de tanto desgaste, de tanta perda de energia. Concentre-se no que importa, esteja presente, preste mais atenção no simples, no cotidiano, nos desfechos naturais para problemas que pareciam tão complexos e no entanto se resolveram.

Precisamos retomar a dimensão da simplicidade, que não está em nada, não é uma meta a ser conquistada porque é um estágio interior. Não está fora, jamais estará, mas dentro. Você não tem mais problemas do que as outras pessoas, não se auto vitimize, apenas enxergue como reclama demais, grita demais, sofre além do necessário. É por isso que não consegue ver.

Pare de se pre-ocupar. Suas preocupações não resolverão nada. Pare. Entregue-se a fluxo natural que encaminha todas as coisas , eloquente em significados, sábio em cada desfecho. Com o tempo tudo ficará claro e a paz será seu árbitro, mas, agora é importante que entenda: enquanto andar preocupado estará mais distante de enxergar as soluções. Permanecerá confuso em seus próprios devaneios.

Independente dos cenários, pacificar-se é uma escolha sua, um caminho que pode ser seu.