A tal nova era do despertar

Talvez você não fique confortável com o que vai ler. Especialmente se está entre tantos que acreditam que a humanidade está em um processo de despertar, como se uma nova era de paz e amor estivesse despontando no horizonte, criando um novo mundo onde a paz e o amor predominarão.

Pessoalmente não penso exatamente assim. Vejo que desde sempre a humanidade cumpre seus ciclos, ora mais voltados para a espiritualidade, ora para o materialismo. Desde as primeiras manifestações de cultura humana representando nossa vocação para seres que buscam transcendência, até épocas sombrias como impérios sanguinários.  Repare que, assim como a natureza se equilibra, a humanidade faz esses movimentos frequentemente, seja entre a inquisição na idade media e o iluminismo no século dezoito.

Mais recentemente, já no século vinte, houve forte influência da ciência, da psicologia, de descobertas fantásticas que sinalizavam que o acesso à todas as respostas era apenas questão de tempo. Foi um período de enfraquecimento religioso que, mais adiante, já depois da metade do século, retorna de outro jeito, acompanhando uma serie de transformações políticas, sociais, sexuais e religiosas, culminando já no fim da década de oitenta (com a queda do muro de Berlim) com o que hoje se compreende por período pós-moderno.

Vejo com frequência troca de símbolos. Diminuiu a quantidade de gente que aceita a infalibilidade papal, aumentaram os que projetam sua fé em gurus. A reza do terço ficou para as senhoras de idade, o mantra para os mais jovens e místicos. A força de influência do cristianismo diminui no mundo enquanto crescem as filosofias orientais e o número de muçulmanos.

Não vejo com tanta frequência imagens de santos em casa, mas vejo foto de mestres, deuses hindus, budas e afins. Usamos outra linguagem para dizer as mesmas coisas.

No entanto, se olharmos para os corações, continuaremos vendo os mesmos conflitos, as mesmas dores, medos enraizados que não mudam porque trocamos os símbolos, que continuarão ali, mesmo que troquemos a missa pela meditação, a reza pelo mantra.

Sinceramente não percebo mais amor, mais consciência, mais entendimento espalhados pelas cidades. Vejo mais distração, mais vacuidade, mais resignação em permanecer o que sempre fomos, apenas trocando os símbolos.

Apesar do meu aparente ceticismo, creio na mudança de mundos, especialmente quando uma pessoa desperta em consciência. Esse deixa de se impressionar com o lado de fora e volta seus olhos para onde de fato as coisas acontecem, dentro.

Exterioridades refletem movimentos cíclicos, culturais, históricos, presentes desde sempre, mas não refletem necessariamente mudanças de consciência.

Deixemos de nos preocupar com isso e passemos a olhar para o universo que nos habita. Pessoalmente não creio que nosso planeta será um paraíso, muito pelo contrário. No entanto, acredito em universos que mudam, consciências que acendem sempre que enxergam, sempre que se expandem e deixam a “caixinha”, respondendo as demandas do cotidiano em amor.

Pensar que o mundo está mudando pode ser estimulante, mas como responder ao fato de que o mundo que deve mudar é você? Cuidemos do mundo que somos, cresçamos em consciência, menos impressionáveis com símbolos, mais atentos aos conteúdos.

Tudo muda quando muda na gente. Gente: o único universo possível, a única esperança para genuínas revoluções, revoluções individuais, por isso incomodas, por isso pouco valorizadas.

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9 comentários em “A tal nova era do despertar

  1. Como você mesmo diz, todas as mudanças já são o tempo todo, para que cada um as enxergue ao seu tempo, para que haja a semente de tudo a cada instante, para que possamos interagir que é onde está a propulsão para tudo.

    Muito lindo os seus textos! Vou pegar este emprestado tá? Vou guardá-lo com carinho em algum cantinho para quem sabe, alguém ou eu mesma podê-lo encontrar algum dia!
    Bjs
    Mp

  2. Bom dia, Flavio e a todos!

    Eu tenho a mesma impressão quando ando pelas ruas, observando as pessoas, as “coisas” que somos. Acredito que quem está buscando a espiritualidade para compreender a realidade da vida, encontra muitas barreiras seja lá em que religião for, e essas barreiras muitas vezes não faz desistir de continuar por aquele caminho, e procuramos outros, outros…enfim, ninguém consegue dizer qual é o verdadeiro caminho, pois acredito que existam vários, o que vai determinar o “correto” é o estado de aceitação de cada indivíduo, o caminho que de fato nos leva com naturalidade. Só precisamos ter paciência com quem ainda não percebeu isso, pois, quem percebeu ainda tem muito chão pela frente, porque sempre esbarramos por situação conflitantes e temos que ultrapassá-las, é uma luta diária.

    Gratidão Flavio, por suas palavras sempre fortalecedoras.

    Maria José

  3. Maria José, você já ouviu aquele ditado que quanto mais rezo, mais diabos me aparem? Pois então, vamos trocar a palavra reza por conhecimento, quanto mais eu vivo o presente conscientemente, mais conhecimento adquiro em todos os âmbitos,mais noção eu tenho, que muito mais ainda eu posso apreender.
    Aí está o caminho de cada um de nós, a paz do que se sabe que já sabe,e, a paz de saber que se pode aprender o restante, isso, penso que faz parte do caminho de cada um, o restante é o esteio pra podermos escolher o que queremos para nós, é só isso que nos cabe.
    Bjs
    Mp

  4. De fato, a maioria da humanidade está adormecida…
    Transformador e renovador, é quando descobrimos mesmo que de forma lenta e gradual, que estamos ” dormindo “… Acordando, despertando, caminhando… nos levando à nossa verdadeira natureza.

    Amor para você, Flavio e a todos!

  5. MP, boa noite!

    Conheço o ditado e olha que é isso mesmo que acontece…as vezes nem sei se é bom conhecer, pois dói demais, a gente começa a perceber as coisas, tenta compreender e aceitar como elas são, e não podemos mudar nada, só a nós mesmos…aquietar os nossos sentimentos com relação “as coisas”, é muito difícil…paz, paz (não consigo encontrá-la, quando penso que estou em paz…bummm…já foi)….preciso relaxar…

    Fica em paz!

    Bjos

    Maria José

  6. Nossa, parece que as coisas estão descontroladas, ou é impressão…que danação!!! Mas, provavelmente é meu estado de espírito mesmo…é o que vejo?????

  7. Maria José, eu errei a ortografia quando escrevi aparem, longe de mim isso, é APARECEM ! Quanto ao conhecimento ele é sempre bom pois se não conhecemos somos reféns e acuados, ao passo que ao conhecermos somos livres e atuantes, donos dos nossos caminhos, só isso já é tudo lembre-se que somos parte de um todos e nos cabe fazer apenas a parte deste todo.
    E lembre-se , como minha filha diz aos seus filhinhos antes de dormirem, amanhã será um novo dia, e, faça chuva ou faça sol, será um maravilhoso dia!
    Para você também Maria José!
    com carinho
    MP

  8. MP, boa noite!!

    Grata pelas palavras…é muito gratificante sentir os vagalumes se comunicando, compartilhando, ajudando na caminhada…

    Grande abraço…fica em paz!

    Maria José

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