As certezas, os vazios, a verdade

Entre certezas dogmáticas e as chamadas verdades absolutas há espaços vazios. Quando olhamos para esses espaços nos sentimos ameaçados. Eles são profundos, misteriosos, impossíveis de explorar na totalidade. Nos vazios argumentos são insuficientes, não há controle ou nenhuma legitimação do que até então nos parecia indiscutível. Lógicas são relativizadas, certezas contraditas, explicações insuficientes, não há estabilidade.

São buracos negros que dissolvem códigos, podem gerar contradições extremamente incômodas, mas com incrível potencial de provocar intensas revoluções.

O chão das certezas e verdades absolutas parece sólido e estável. Será assim enquanto não nos movimentarmos. É preciso assumir um tipo de fixidez parecido com estátuas de gesso, caso contrário, diante do mínimo movimento, o risco é que o próximo passo seja no vazio e na sequência a queda.

Caímos quando perdemos referências, quando não temos onde segurar, caímos e não sabemos se há chão. Caímos.

É por isso que pessoas que se apegam em absolutos não se movimentam. Vivem em ambientes com pouco ar, pouca luz, pouca chuva, pouca alegria, pouca tristeza, pouco risco, pouco riso, intelectualmente assépticos, fechados diante das possibilidades de ameaça. Viver é ameaçador.

Mas a verdade não está nas certezas e a fixidez é uma utopia. É a coragem de cair no vazio e deixar que o vento expurgue a parte que gangrenou, que a perspectiva, antes acomodada, se altere radicalmente: falta ar, faltam palavras, faltam certezas, absolutos que deixam de ser, afirmações relativizadas pelo mistério, pelo vazio.

O vazio. Espaço entre certezas. Oceano entre pequenas ilhas. Buracos negros entupidos de verdades que jamais serão posse de quem quer que seja. Ora refletem aqui, depois se expressam lá, fragmentando-se em tudo, preenchendo espaços entre nossas certezas mais inseguras, propondo movimento, promovendo eterna ameaça para quem tenta manter o controle sobre o que não há.

Entre as certezas dogmáticas e as chamadas verdades absolutas há espaços vazios. É preciso que percamos o medo e saltemos para que não haja mais ideologias para defender, argumentos para elaborar, debates para vencer. O vazio entre as certezas. O silêncio onde mora a verdade.

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4 comentários em “As certezas, os vazios, a verdade

  1. Penso inclusive que é preciso criar vácuos para que eles possam ser preenchidos e tornar isso um movimento diário…
    Espetacular sua inspiração de hoje. Mais uma vez parabéns e OBRIGADO, amigo !

  2. Não resisti e voltei a comentar. Espetacular!! Na minha opinião, um de seus momentos mais inspirados. Esses vazios não nos impedem de crer no que nos parece razoável e descrer do que nos parece absurdo. O que não podemos é permitir que essas nossas crenças particulares (inevitáveis e perfeitamente aceitáveis) se transformem em dogmas. Não podemos cair na armadilha de pensar que o que acreditamos é certo e quem não pensa igual é idiota ou “não quer ver a verdade”.

  3. Boa noite Flavio e a todos!

    Nossa, ouvi esse texto na radio vagalume hoje e confesso que parei uns minutos para absorver cada palavra…não sei explicar a sensação…muito profundo…parece até que elas chegam quando precisamos ouvi-las…conexão…grata Flavio..e parabéns pela rádio, as músicas são fantásticas, a gente viaja…

    Forte abraço.

    Maria José

  4. Gostei da fixidez, porém mais do que utópico seria uma chatura, um déjà vu constante… quanto as verdades ainda bem que são absolutas até serem substituídas, imaginem se não acreditassem que a terra era o centro do universo, ainda estaríamos como jacarés ao sol….

    acho que estou com sono…trabalhei muito hoje…
    estou sendo indelicada? não é essa a minha intenção, amanhã lerei o texto melhor

    boa noite então…

    Mp

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