Cegos

A luz parecia apagada. Estranho, ela sempre brilhou, sempre iluminou todos os cantos, não havia espaço algum que deixasse de ser alcançado pela intensa, presente e acolhedora luz. No entanto, naquela madrugada, fui despertado com medo por muitas vozes que soavam com estrondo. Gente assustada, lamentos que penetraram minha consciência, especialmente quando acreditei no que diziam: “Venham a luz está lá!”.

Apressei em abrir a porta, me juntei a multidão tateando no escuro, trombando uns nos outros, perdidos porque não havia mais luz. “Venham, ela está lá!” – vozes que vinham de longe nos direcionavam oferecendo algum tipo de consolo. Elegiam mestres, ungiam guias, nos diziam o que fazer, para onde ir, “A Luz está adiante, vamos, vamos, não parem!” .
Foi o início da procura, da incessante procura que me afastaria de casa, em nome da causa que mobilizava as multidões.

Minha busca durou o tempo de minha cegueira. Prolongou-se enquanto acreditava nas vozes, nos apelos da ensandecida massa que me conduzia sem que eu resistisse. Não percebia que a luz estava onde sempre esteve. Por alguma razão resolvi procurá-la fora. Deixei de perceber.

Quando despertei tudo estava iluminado.
Abri os olhos e percebi que não havia mais indivíduos na multidão, eles tinham perdido o rosto, estavam desfigurados, sem identidade, sem brilho, sem luz. Não reconheci ninguém. “Venham, a luz está lá” – era o apelo distante que os conduzia no escuro, que os impedia de enxergar, de perceber que a luz estava onde sempre esteve. Seguiam, devorados pela noite escura.

A luz. Ela não sai da gente. Ela não brilha lá fora. Ela nunca se apaga. Ela nunca vai.
“Venham, a luz está lá!” – ainda ouço os apelos, mas eles não me atraem. “Vamos, vamos rápido, procurem lá fora, a luz deve estar lá” – a voz uníssona da multidão ainda ressoa, mas não abro a porta. Despertei, foi só o que fiz. Despertei.

Abri os olhos e os fantasmas fugiram, a procura acabou. Agora posso descansar, grato, pacificado, consciente que, apesar de mim, tudo continuará iluminado, claro, vivo, verdadeiro. A luz, que não está lá, mas aqui, que não brilha fora, mas dentro, que vive em mim e me faz vivo, essa luz, nunca enfraquece, nunca vai, nunca apaga. Acordei, foi só isso que fiz, acordei; fez-se manhã.

*Retrato – Pieter Brueghel “the blind leading”

Pieter_Bruegel_the_Elder_(1568)_The_Blind_Leading_the_Blind

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Um comentário em “Cegos

  1. Não obstante a minha cegueira, que me desqualifica para qualquer opinião mais fundamentada, acredito que não passe de meia luz aquela que ilumina apenas o território das generalidades. A outra metade está reservada para iluminar a história real de cada um de nós, quando formos capazes de encará-la com os olhos abertos. Aí, acho, veremos não apenas a nossa, mas a realidade dos outros também. Não que isso seja importante, mas creio que está incluso no pacote. Imensa será a responsabilidade de quem despertar essa visão. Tem muitos picaretas no mundo alegando que já chegaram lá. O final, pra quem vai na conversa deles, costuma ser trágico. Acredito que você, Flavio, graças à lucidez que tem revelado (que me parece autêntica e sincera), nunca vai enveredar por esse caminho. Abraço.

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