Troquemos de mestres!

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Me disseram na escola que o ser humano é o único animal racional. Com o tempo passei a desconfiar que talvez não fosse verdade. Bastava observar os animais, todos eles, e perceber algo além dos instintos, um tipo de comunicação sutil, expressões de inteligencia, diferente dos humanos, mas não por isso inexistente, muito pelo contrário.

Mas e a tal racionalidade do bicho homem? Havia mais impulsos do que reflexão, mais instinto do que consciência, mais reflexos condicionados pela própria cultura do que escolhas ponderadas, equilibradas, racionais.

Enquanto os chamados “seres irracionais” vivem em equilíbrio com o planeta, nós, os “racionais” desenvolvemos algo que chamamos de “vida moderna”, uma cultura completamente predatória, seja em relação à natureza, seja em relação ao semelhante.

Nos autodestruímos por impulso, aceitamos condicionamentos que frequentemente nos deslocam para terras estranhas, terras que não parecem com nosso chão, outro habitat que, com o tempo, passa a ser nosso.

Me refiro a artificialidade das relações, a superficialidade dos sentimentos, a compulsão por distrações, a necessidade de “alegrias” incessantes; nosso medo da solidão, nosso pânico do sofrimento, nosso terror diante da morte.

Antinaturalmente passamos a vida tentando negá-la, construímos uma bolha de distrações tentando pensar que seremos eternos, homens e mulheres gargalhantes que dominarão o planeta, os animais, e, se possível, os semelhantes mais fracos. Por que não?
Que tipo de racionalidade nos faz pensar que somos os únicos seres pensantes na terra? Alias, o que nos faz pensar que de fato pensamos?

Talvez esteja na hora de elegermos outros mestres. No lugar de ideologias políticas, os mestres gatos nos ensinarão como relaxar e viver em paz. Prefiro trocar os debates sobre ética e moral pela fidelidade dos cães que não fazem nenhuma distinção entre um mendigo e um banqueiro.

Os mestres pássaros ensinam como viver no presente, alimentando-se do que o dia chamado hoje reserva, livres em suas melodias que saúdam as manhãs.

Não quero mestres homens. Pessoalmente me inspiro com as mestres formigas, que de alguma maneira se organizam para construção de seus formigueiros, carregam pedaços de folhas, pedrinhas, trabalham incessantemente sem que uma se coloque em superioridade em relação à outra.

Sou discípulo dos peixes, os que vivem pacificamente em um mundo desconhecido para mim e, talvez por isso, de alguma maneira, ainda preservado. Namastê, mestres minhocas! Vocês que cuidam da terra, que trabalham silenciosamente sem necessidade de aplausos ou reconhecimentos. Perdoe por suas irmãs esmagadas sem nenhuma razão por nós, os seres racionais.

O que seria dos pobres e dependentes humanos sem o trabalho de vós, mestres abelhas? Haveria equilíbrio se os sábios sapos não existissem? Será que nós, avançados e sábios animais racionais, os únicos racionais, existiríamos sem o trabalho das senhoras, mestres baratas, que convertem nitrogênio em fertilizantes?

Nossa irracionalidade nos levou para muito longe de casa. Admiramos nossas construções, aplaudimos nossa insanidade projetada em sistemas autodestrutivos, chamamos uns aos outros de “mestres” e deixamos de enxergar que há consciência em todo o planeta, a terra fala, os bichos ensinam, tudo se conecta, se comunica.

Troquemos os mestres, sejamos humildes, suficientemente abertos para aprendermos com seres mais simples, justamente por que esses não se corromperam com a própria luz. São filhos da terra, irmãos uns dos outros, vivendo entre nós com sua silenciosa sabedoria, presentes enquanto não destruímos tudo em nome de nosso progresso.

Namastê mestre bicho do alface! Perdoe os humanos. Temos sido a mais eloquente expressão da irracionalidade animal.

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9 comentários em “Troquemos de mestres!

  1. Bom dia Flávio e a todos os vagalumes!
    Parabéns por mais um texto muito bem escrito, descrito, dissertado, incisivo e muito bem explanado.
    Concordo plenamente com vossas palavras: TROQUEMOS DE MESTRES!
    Só assim vamos aprender a viver melhor e de forma mais correta.
    Paz e bem a todos!
    Forte abraço!

  2. Flávio, gostaria de aproveitar este seu texto e perguntar a você se já viu o filme lucy e sua opinião.

  3. Queria MP você é a segunda pessoa que me indica esse filme hoje. Ainda não vi, mas procurarei fazê-lo… Obrigado ! Fique bem

  4. Sabe Flávio, tempos atrás te perguntei exatamente sobre o tema do post. Acho que tem um vídeo que pode retratar suas palavras.
    é este aqui: https://www.youtube.com/watch?v=7vQwoywtjTk
    Se puder assistir.
    t+
    Com a sinestesia vem o sentimento apurado e também a dor. Quanto mais consciente o ser é menos feliz será, talvez por isso as pessoas fechem os olhos.

  5. Flávio eu sou tão grata por ter te encontrado meu caro amigo. Sábias e lindas palavras. Todos os dias faço questão de entrar aqui para ler seus textos, cheios de verdade e de grande reflexão. Obrigada por ser luz e por emanar tanto amor! Paz e amor pra ti. Grande beijo!

  6. Sinestésico – é maravilhoso esse vídeo, somos assim também, e, penso como você quando diz que talvez seja por isso que as pessoas fechem os olhos, porém faz parte também dos seres vivos a resiliência, que é a capacidade de se regenerar, de se recompor, se readaptar as novas cargas de conhecimento e realidade sem perder a delicadeza, o bom senso, a firmeza com maleabilidade.
    Difícil, né?! Penso que é para todos, mas… nem todos conseguem

    Mp

  7. Bom dia a todos os vagalumes!

    Sinestésico, também tenho essa impressão “Quanto mais consciente o ser é menos feliz será”…, citando uma pessoa que acredito que tinha uma consciência elevada, o indiano Jiddu Krishnamurti, percebi em sua fisionomia um ar de tristeza profunda, e não compreendo isso! Perguntaram ao JK se ele era um fator de liberdade ou um novo condicionamento, ele não respondeu verbalmente, mas seu semblante se modificou, ele temia que os seus ensinamentos não fossem compreendidos. Mas, acredito que talvez essa infelicidade se deva ao fato de que quando despertamos essa “consciência” e percebemos as coisas, queremos que os outros também despertem e não nos conformamos com o tempo de “despertar “cada um.

    Flavio, essa foto é maravilhosa para confirmar tuas palavras…gratidão.

    Maria José

  8. Namaste a todos…..
    Muito obrigada Flávio por ser como é. ..
    Que bom existirem pessoas assim….realmente às vezes ou quase sempre sinto me incompreendida e por isso triste. …
    Mas ao ler os seus textos sinto me muito feliz e isso compensa tudo. … e isso me da força para continuar o meu caminho …
    Um grande Obrigada. …

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