Tudo o que gosto

Gosto dos dias nublados. Gosto do jeito que as nuvens desaguam, o barulho dos trovões, os pingos que caem no palácio e na favela, no mar e na calçada, nas pessoas que correm em busca de abrigo, param sob algum toldo de loja, depois se secam e vão.

Gosto do jeito como as crianças falam. Gosto dos tons, da falta de escudos, do jeito simples que fazem perguntas, que acham engraçado, que puxam conversa, da credulidade inocente, do olhar confiante.

Gosto dos pássaros. Não me canso de admirar como voam, especialmente os maiores, com tanta segurança e habilidade. Sempre que vejo um deles planando tento ir junto, acompanhando com os olhos e, confesso, com uma ponta de inveja. Adoraria ter asas!

Gosto da capacidade humana de realizar coisas belas. Uma música, o despretensioso cantarolar da senhora sentada em frente de casa vendo o neto brincar, um quadro, por mais simples que seja, um texto, uma poesia, expressões de humanidade que sempre me encantam.

Gosto de dirigir na estrada. Não me importo em dirigir longas distâncias enquanto admiro a paisagem, conheço lugares que não conhecia, revejo outros que já tinha visto, tentando enxergar algo diferente.

Gosto do silêncio da madrugada. Quando tudo se aquieta fica mais fácil perceber a fragilidade que nos nivela, corpos entregues ao sono, expostos, quietos, recompondo-se para o dia que daqui a pouco virá.

Gosto de enxergar pacificação no olhar de alguém que está chegando ao fim da velhice e não perdeu a doçura, nem a esperança, nem a capacidade de se alegrar. Isso me encanta!

Gosto de vento, de abraço, de fazer caminhada, de ler, de praia, de montanha, de avião, de mingau de aveia, de viajar, de pizza com arroz, de cheiro de grama, de escrever, de água com gás, de livrarias, de café, de árvore, de rádio, de frio…

Gosto de saber que tudo o que gosto encontra ressonância em algum lugar dentro de mim e reflete lá fora o que na verdade me habita.

Sei que não são os dias nublados, nem as crianças, nem os pássaros, nem a capacidade humana de realizar coisas belas, nem dirigir na estrada, nem o silêncio da madrugada, nem a pacificação no olhar dos idosos, nada disso tem significado próprio a não ser que seja iluminado por minha consciência.

É o olhar que carrega a vida de beleza, como uma janela que permite o fluxo de dentro para fora, imantando a existência, apreendendo significados, tingindo de cores, de cheiros, de tons, vinculando cada movimento de fora ao que sou, a quem sou, a qual ponto do caminho estou.

E então me enxergo projetado na vida, em tudo o que vive, aquele que sou, tão claro, tão nítido, impresso em tudo o que gosto.

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