Quanto tudo perde o sentido e caímos.

– Hoje recebi um longo e-mail de alguém que me dizia mais ou menos assim “Conheci seu trabalho, adorei, mas ele me fez ficar inquieta e hoje sinto que estou perdendo a fé. As coisas deixaram de fazer sentido. Pra que a vida? A morte? O amor? Deus? Já não faz mais sentido. Isso me deixa angustiada”. A resposta que acabei de enviar está abaixo. A ideia é que seja útil pra você também. 🙂

“Somos pequenos seres que criam e creem na própria cultura. Que se apegam a ideias absolutas e precisam crer que tudo se desenha exatamente conforme pensamos. Por isso nos escondemos.

Precisamos de legitimação para aquilo que chamamos de fé, a ideia de que seja tudo rigorosamente coerente com o que aprendemos, caso contrário nosso castelo desmoronará. Quem pode aceitar que não sabe todas as coisas? Como admitir que nem tudo se encaixa e um olhar ligeiramente atento desarrumará nosso presépio?

Perdemos a fé na proporção em que ela vai deixando de se enquadrar em nosso enquadramento, quando ela sai da caixa que seguramente criamos e se mostra maior, mistério, promotora de questionamentos que até então jamais teríamos coragem de cogitar.

Não há limites para o conhecimento, seja na área que for. Nenhum cientista está perto do todo, nenhum filósofo, nenhum teólogo, não há intelectualidade que se aproxime da verdade por uma simples razão: a verdade não cabe na mente.

Tudo o que podemos pensar é válido como apontamento. Nossa lógica nos leva por caminhos incríveis até chegar o momento em que seremos obrigados a concluir que a partir de certas fronteiras é preciso abrir-se ao mistério que não cabe em minha racionalidade.

O universo inteiro me aponta para isso. É assim quando olho o céu, quando penso no infinito, quando tento entender o que faz com que um corpo humano sonhe, componha músicas, encontre beleza, faça poesia, ame. O que está além do nosso parco conhecimento biológico, das complexas conexões neurais, da mente coletiva, da consciência humana? O que nos torna tão ambivalentes, ansiosos pela eternidade, temerosos pela morte, vivendo em busca de um sinal que indique não estarmos sozinhos?

Nossas angústias produziram filosofias e religiões e seguimos confortavelmente por elas até dobrarmos a esquina e constatarmos que não há mais chão.

Caímos. Não há onde se agarrar, sem ter o que fazer, nenhuma lógica que nos conforte enquanto a inevitável queda se impõe. Acho que é ai que você está.

Na queda não temos controle, deixou de ser seguro, a perspectiva mudou, as coisas perderam o sentido. Você tenta abrir o paraquedas da mente, mas ele não funciona mais. E as crenças? E os ensinamentos? E as regras? A moral? A fé?
Agora você pode espernear ou relaxar. Pode se debater inutilmente enquanto cai ou aproveitar a viagem. É ai que tudo acontece.

Sem referências, sem respostas fáceis, sem paraquedas, em queda livre, você descobre que toda sua busca te colocou nesse lugar. Esse era o momento de sua vida. Tudo vira possibilidade, afinal, está fora de controle, o que pode acontecer?

Sem controle, sem respostas absolutas, sem cartilhas que me garantam o que quer que seja, eu vejo.

Enquanto tentava assimilar tudo o que chamo de “verdade”, enquanto buscava respostas prontas temia que uma brisa de consciência desfizesse aquilo que eu fingia crer. Agora eu vejo e só me resta admitir que a verdade absoluta se fragmenta em seres fragmentados como nós. Percebo que jamais chegarei a respostas filosoficamente satisfatórias, haverá conflitos eternos enquanto meu medo me fizer tentar assimilar o inassimilável.

Agora tudo fala. Vejo Deus em gente que jamais imaginaria. Santidade em “pecadores”, sacralidade em tudo o que se vincule a simplicidade, a abertura de viver. Já não preciso mais de símbolos. Não que eles estejam “errados”, mas não me satisfazem mais porque falam apenas à minha mente.

Deus é e você é Nele. Todos somos. Tudo é. Não importa como chame. Tanto faz se usa referências bíblicas ou não. “Nada pode te afastar do amor de Deus” pela simples razão de que Nele habitam todos os mistérios, todos os vazios, todas as perguntas, todas as respostas. Ele é a queda. É o vazio. Caímos Nele.

Nessa hora tanto faz os códigos. Não importa se chame de “D-E-U-S”, de “universo”, de “vida” , de “Alá”, ou não chame de nada. Deus é o vazio, é o mistério que vive na gente.

Você me pergunta: E o que nos ensinam na bíblia? e a vida após a morte? e o significado da história de Jesus? Tudo mentira?

Será se tentar capturar todos os significados na mente. Crescerá se deixar que tudo o que sempre creu se conecte com a queda e se expanda, se aprofunde, te tome por completo.

Não tenha medo. Perder a fé não é errado. Duvidar faz parte. Nem sempre o caminho é tão previsível.

Deixe de se culpar, muito menos torturar-se atrás de respostas. É sua mente militando contra você. Aproveite a queda, preste atenção na paisagem, sinta o vento no rosto e verá Deus. Deus em gente, Deus na vida, Deus em bichos, Deus em você. Esse é o encontro. Já fora da dimensão da intelectualidade, dos símbolos, das crenças, das cartilhas, nada mais faz sentido até que o nada seja tudo, até que não seja mais queda, seja voo, seja liberdade, seja vida.

Quando pensamos que Deus morreu. Quando pensamos que nós morremos. Quando tememos que nada mais seja verdade, então, mortos, estaremos abertos para a vida, para o entendimento que a verdade sempre esteve perto, que não há necessidade de medo. Agora o mistério se estabelece em mim, me conecto, finalmente me pacifico.

Não tema, você está em Deus e sua queda existe Nele. Isso é um privilégio. Logo você voará.”

Anúncios

2 comentários em “Quanto tudo perde o sentido e caímos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s