O que é a vida?

Abujamra

Abujamra terminava suas provocações com a inquietante pergunta: “O que é a vida?” Na última vez o provocado chorou e respondeu “Me conta, cara…”

O que é a vida? Talvez seja a sucessão de acontecimentos, ou cada evento cotidiano, ou “uma causa perdida” como dizia o provocador.
Acredito que não há resposta objetiva. A vida é o que estou sendo, são os movimentos, é o existir e o deixar de existir. Pode ser a capacidade de conectar experiências, perceber enquanto ando, no simples, no agora, vida que movimenta os corpos, se projeta no ar, no mar, na terra, no céu, no espaço e não se limita a nada disso.

O que faz bonecos de carne sonharem? O que nos apavora diante das perdas, dos cortes, da morte? De onde vem a inspiração do compositor, os textos do poeta, a doçura das crianças e a ternura dos abraços? O que faz com que me perceba e reconheça “eu” em “mim”?

O que é a vida? Experimento respostas no caminho enquanto percebo que a vida são despedidas e amores, ganhos, perdas. Vida na paz e na guerra, fluxo que se impõe com dores e prazeres, nas sutilezas, no estrondo, no dia e na noite.

Toda tentativa de explicá-la é reducionista, é pretensiosa.

Quem sabe a vida sejam apenas reflexos preenchidos por significados que me habitam? Sou a vida dos mares e dou brilho às estrelas, sou a textura do beijo, a alegria da chegada, o mistério que repousa na noite e o silêncio do homem que dorme.

No dia que deixar de ser tudo se apagará e irá comigo. Serão cenários habitando a casa de dentro, a terra que vivo, a vida que sou.
O que é a vida? É movimento, é hoje, sou eu… Uma causa perdida, a vida.

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Insights espalhados pelo ar

Gosto de pensar que nossa consciência tem aspectos de compartilhamento. Sinto que é possível captar – como um aparelho celular ou rádio capta ondas – os anseios, dúvidas, questões, pensamentos, insights, “espalhados” pelo ar.
Quanto mais nos permitimos compartilhar, mais conectados com tudo. Todos viram próximos, potencialmente amigos, expressões de nós mesmos vivendo em outras cascas.

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Deixei de crer e agora?

Nossas crenças refletem quem somos. Não se trata de absolutos, de verdades irrefutáveis, mas quando assumimos crer nisso ou naquilo estamos confessando a nós mesmos, um retrato daquele momento. Mas a vida se movimenta e nossas experiências podem nos deslocar de uma zona convenientemente confortável para uma dimensão nova, cheia de perguntas, com perspectivas que alteram o jeito de enxergar as coisas.
Uns reprimem, outros encaram e se assustam. Deixam de crer no que criam, porque nossas crenças refletem quem somos. Nós mudamos e os cenários mudam. Crescemos e o ângulo de visão se modifica. Toda tentativa de fixar-se em um único jeito de ver, de pensar, de sentir, pode nos tornar reféns de um argumento, presos em cenários fixos enquanto a alma evolui, a mente se expande, a consciência aprofunda. É preciso liberdade para caminhar. Paz para ser quem é. Nesse áudio abaixo, uma breve reflexão sobre o assunto. Pense comigo, fique bem!

 

Onde começa o ser humano e onde começa a sociedade?

“…sei que vivemos condicionados… somos produtos do sistema, alienados, cegos, seguindo conceitos que nem sabemos de onde saiu… O que somos na verdade? apenas produto do meio? neste caso é o que parece, não existe mais nada? Onde começa o ser humano e onde começa a sociedade? Sei que é uma questão muito antiga, mas queria ouvir de vc.”

– Nenhum de nós é absoluto. Convivemos com nossos limites (ainda que nos posicionemos muito aquém deles) e não temos plena consciência de até onde respondemos condicionamentos ou agimos em liberdade. As fronteiras são sutis, quase imperceptíveis na maioria das vezes.

Por mais “despertos” que estejamos, continuamos expostos à nossa própria dualidade, à contradição que nos habita, carne, espírito, mente, consciência, corpo, sangue, ossos e a natureza que anseia a transcendência, em conflito, inquietude, buscando sem saber que busca, querendo sem a consciência do que quer.

Isso faz parte da natureza humana e por alguma razão carregamos em nós, sempre, o rescaldo de um combate de mundos, espirito, corpo, consciência, mente, até que a pergunta, essa que você me fez, nos obrigue a pararmos, questionarmos e encararmos a resposta com coragem, especialmente porque ela é individual:

“Onde EU começo como ser humano e onde a sociedade começa em MIM?”. “O que SOU na verdade, apenas produto do meio?”.

Trata-se de uma questão individual porque quanto mais se enxerga, quanto mais se questiona, quanto mais percebe, mais claro que vivemos na “caverna de Platão”, em um mundo de sombras, ecos, reflexos e condicionamentos.

Afinal, onde começa o ser humano e onde começa a sociedade?
A consciência é a fonteira. A sua consciência.

Nossa natureza humana reflete a sociedade e vice versa. Nos influenciamos de formas absolutamente sutis, subliminares, é difícil identificar a fronteira, mas, acredite, é possível.

A resposta mora em cada mundo, em cada sociedade, em cada universo que nos habita, que somos nós e se completa em cada escolha, em cada movimento de consciência.

Até que deixemos de ser, um a um, produtos do sistema, cegos, seguindo conceitos que nem sabem de onde vem, até que, caminhantes, pacientes, nos enxerguemos e conheçamos quem de fato somos, nossa própria verdade, a verdade que finalmente nos libertará.

Perguntas e respostas

“Você faz perguntas que não tem respostas!”

– A questão não é exatamente se as perguntas “tem respostas”, mas acho importante refletirmos sobre para onde nossas perguntas nos levam e aonde nossas respostas nos deixam. Respostas são definitivas, fechadas, fixadas. Perguntas abrem perspectivas e nos coloca diante de possibilidades. É preciso perder o medo de fazer perguntas.

Mundo que é em mim

Não queremos conhecer, queremos crer. Crer é mais fácil. Não há questionamentos, nem dúvidas, nem contradições. É porque é e pronto. Saber – ainda que seja tão pouco – nos revela. Por isso é tão difícil. Mas não posso saber sobre você, sobre o outro, sobre Deus, se antes não souber sobre mim.

Caso contrário tudo o que pensar que sei será projeção amedrontada, será fuga, será mecanismo de defesa. Antes (ame ao próximo como a ti mesmo) preciso me enxergar e pelo menos tentar saber quem sou. O problema é que vivo em constante “estar sendo”, não me sinto pronto, as experiências estão me ajudando a ser, caminho e vou sendo modelado pelo que escolho, sempre. Por isso tudo o que vejo é parcial. Estou aprendendo a ser enquanto vejo um pouco sobre as complexidades que me habitam. Agora não dá mais para simplesmente ser como todos, acreditar como todos, dizer o que todos dizem. Não quero mais um grupo, uma crença ou qualquer coisa que me respalde. Preciso entender o que sou. Olho para dentro e vejo o holocausto. Sou um dos judeus massacrados pelo nazismo. Sou o soldado alemão. Aquele menino com fome na esquina.

Ele me enxerga e não sabe que estou nele, que está em mim, apenas olhando em perspectivas diferentes. Sou o cara armado na esquina, a mulher que chora pelo marido violento, as dores, os encontros, a vida e a morte. Vejo tudo habitando dentro. Deus inclusive. Em mim, em tudo. Deus nas montanhas e Deus no holocausto. Deus no oceano e Deus nas favelas ocupadas pelo tráfico. Deus na criança amorosa, Deus em Bin Laden. Selvagem. Fora do controle de minhas caixinhas que tentam explicações, que querem crer, que fazem de tudo para limitar em previsibilidades o que jamais será previsível. Não posso entender Deus olhando para história. Olhando de perto verei complexidades.

Contradições que me inquietarão para sempre. Sob a luz da consciência as crenças muitas vezes se dissolvem e dói. Precisamos das caixas para nos protegermos da luz que nos revela, machuca os olhos, expões nossas ambivalências. Mas quem permite vasculhar-se aquietará. Saberá que o mundo de fora reflete o de dentro, sempre. Que a humanidade e suas loucuras projetam o que somos. Sou bom e sou mau, sou luz e sou trevas, sou amor e sou loucura, sou selvagem enquanto caminho. Estou sendo. E Deus é em mim. theworldbeforeus