O menino e o juiz

Naquela manhã o juiz não encontrou a toga. Depois de revirar todos os cantos, tirar todas as peças do armário, o susto maior: o juiz tinha voltado a ser criança. Aquela carinha assustada diante do espelho não deixava margem às duvidas, era o mesmo rosto, as mesmas expressões de 30 anos atrás, quando tinha 10 anos.

No outro lado do mundo o mesmo fenômeno. O idoso moribundo desfez o pacto com a morte ao constatar novo vigor. Agora enxergava melhor, se mexia melhor, respirava sem a necessidade de ajuda. Não soube o que pensar quando percebeu que não era mais o velho Sr Mieko, mas o menino que ficou no passado. Ele voltou e agora tinha a vida inteira pela frente.

Aos poucos todos foram tomando conhecimento do fenômeno. Vôos cancelados. Parte das tripulações simplesmente tinham voltado a ser crianças. Algumas choravam um pouco perdidas, outras saiam pelas ruas, correndo, fazendo bagunça, enquanto adultos perplexos, completamente confusos, se esforçavam para entender que loucura era aquela.

O governo se pronunciou. Disse que tudo estava sob controle, pediu para que a população não entrasse em pânico e avisou que em dois dias medidas emergenciais seriam discutidas e anunciadas. Não houve tempo. Antes disso todos voltaram a ser crianças. Não havia mais adultos.

O mundo ficou fora de controle. Sem partidos políticos nem políticos partidos. Homens e mulheres em posição de poder agora brincavam, crianças nas ruas com liberdade. Ninguém pensava mais em bobagens. O mundo ficou mais divertido.

Não se falava em moral, não havia discussões teológicas, ninguém tentava levar vantagem sobre ninguém. Sem ricos ou pobres, apenas crianças festejando a ausência dos pais, a casa só para elas, o mundo inteiro como dádiva, o dia como celebração. A vida virou uma festa e toda lógica dos homens foi subvertida. Mesmo a palavra “subversão” deixou de existir.

A festa durou até o barulho do despertador. O juiz acordou.
A toga estava no mesmo lugar de sempre. O homem abriu os olhos e ficou mais um tempo na cama. Depois levantou e se arrumou de forma diferente. Estranhamente deixou de ser apenas o juiz. Daquele dia em diante viveu consciente que a dimensão do sonho existia em algum lugar. Não era uma ilusão.

A experiência mudou seu olhar e a vida nunca mais foi a mesma. O juiz seguiu seu rumo e não se sentia mais solitário. O menino de 10 anos havia acordado e tudo lá fora parecia novidade. A vida deixou de ser velha quando um novo olhar surgiu naquela manhã. O juiz acordou e o menino ainda estava lá.

Childrens+dentist+-+happy+children

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3 comentários em “O menino e o juiz

  1. Amei, Flavio…texto maravilhoso, voltei a infância durante a leitura…grata! Muita paz!

  2. há uma criança livre dentro de cada um?
    eu acho que sim! sinto muito isso quando consigo me entregar a uma dança a uma brincadeira mais infantil. uma verdadeira criança presa dentro de um eu que também vive perdido de alguma forma! entre ser o pai, o intitulado herói e sim, as vezes me encontro por alguns momentos mais a verdade é que essa criança que deveria ser acolhida está aqui, perdida e carente de um carinho somente meu!

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