Ser quem somos

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Almoçando hoje no shopping com o Flavinho: “Cara, aquela sua amiga que está fazendo reforço em matemática tem ido mal mesmo nas matérias?”
“Pois é pai… Ela é inteligente, mas não inteligente de escola.”
“Como assim?” – perguntei para ver onde ia chegar.
“Nem toda inteligência serve pra escola. Lá você tem que fazer o que eles querem, saber o que querem que saiba, pensar como querem que pense. Nem sempre isso é confortável.”
“Isso é sempre meu queridão. Na escola, no trabalho, na vida inteira. Quanto mais adaptado estiver às expectativas, mais prospero financeiramente tenderá a ser. O desafio é ter consciência das suas escolhas e saber que mesmo que sinta ser necessário concessões de vez em quando, nunca deixar que elas sufoquem sua inteligência, seu olhar…”
“Cada um pode pensar e ser o que quiser né?”
“É. Mas tem um preço. Pra ser o que quiser é preciso consciência do que é e às vezes a gente não é o que a maioria quer que sejamos. Quando alguém pensa diferente da maioria o mundo parece ficar perigoso, ameaçador, por isso a insistência pra que todos sejam “normais” e pensem de maneira previsível.”

Enquanto nos levantávamos da mesa e nos dirigíamos à loja de chocolate, depois à livraria eu falava sobre homens e mulheres que fizeram algo pela humanidade, mas que na grande maioria das vezes não eram aceitos, nem compreendidos, a não ser anos e anos depois de suas mortes.
“Isso cansa.” Eu dizia quase pra mim mesmo. “É mais fácil ser como os outros…” – Suspirava.
Ser livre pode ser muito custoso, há preços a pagar e na minha opinião ser aceito pela maioria, pelo mercado, pelos sistemas e ser absolutamente coerente com sua natureza é quase incompatível. Fiquei pensando como seria mais fácil prepará-lo para ser um executivo, um doutor qualquer.
Me questionei silenciosamente até que ponto vale a pena dar a pílula vermelha a ele, fazer ver a Matrix e lidar com o ônus de quem enxerga.
Mas não sei ser de outro jeito e não acho que valha a pena tentar, eu viraria outra coisa. Ele também.
Talvez meu filho seja completamente diferente de mim, mas que seja ele, que não tenha medo de ver, de pensar, de se posicionar.
Não sei como será o mundo quando ele tiver minha idade, mas, confesso, minha única esperança é que restem alguns sinceros com suas naturezas, que não tenham se pasteurizado, que sejam livres e não tenham medo da incoerência, das dúvidas, dos por quês. Que sejam humanos e amem sua humanidade. Selvagens.
Convivo com minhas poucas utopias e as aceito como parte de mim. Pago muitos preços por ser quem sou, mas acho que vale.
Talvez, quem sabe lá adiante, eu olhe pra ele ( ou saiba em algum lugar) que valeu a pena, que a vida não foi perdida, que apesar das dores e dos contra fluxos tudo o que nos resta é assumir quem somos e aprendermos a amar. A finalidade de todas as experiências.

Desapegar-me de quem amo?

Dia desses escrevi sobre desapego. Houve quem, incomodado, me escreveu perguntando: “Como desapegar das pessoas que amo? Você sugere que eu abandone pais, cônjuge, filhos… Isso é desapego?”. Senti necessidade de tocar no assunto novamente.

Amor é uma coisa, apego é outra. No primeiro caso, a base é a liberdade. No segundo, o sufocamento, o auto engano.
Quem ama enxerga. Discerne a hora de ir, voltar, dizer, calar. Amar implica em ser sábio, paciente para maturação dos processos. É preciso ter calma para entender o tempo de cada coisa. É preciso ter calma e enxergar-se.

Há situações difíceis envolvendo pessoas que se amam. Pais que sobrecarregam os filhos, cônjuges que não se respeitam mais, amigos que não se perdoaram, gente vinculada por alguma magoa, pesada como uma corrente presa aos pés, tropeçando, caindo, tentando levantar.

Desapego é livrar-se da corrente, jamais das pessoas.

Pode ser preciso afastar-se por um tempo para se recuperar, ter seu próprio espaço, mudar de ambiente. Talvez seja o contrário, hora de aproximar-se, diminuindo a distância que gerou o mal entendido, quem sabe uma conversa franca e aberta seja suficiente? Não há fórmulas prontas. Apenas livre-se das correntes e saberá o que fazer. Isso é desapego.

Você pode pensar que “se apegou” a alguém. Isso é impossível. O apego está ligado à sua insegurança, aos seus medos, vazios, que se projetam em alguém.

Você não está preso à pessoa, mas em si mesmo. Podem ser pais, amigos, marido, esposa, filhos, até o cachorro. Conheço uma mulher com quase 40 anos que trata seu bicho de pelúcia como filho. O apego não está no bicho, mas nos vazios dela. O bicho só recebe essa carga. Ela não precisa se livrar do bichinho, mas encarar seus vazios.

Desapego é abrir mão do excesso. É a coragem de enxergar-se no mal entendido, assumir sua responsabilidade nos desgastes, repensar até que ponto tem contribuído para que as coisas estejam fora de controle. É livrar-se da corrente e prosseguir com leveza, em amor.

Amor gera auto crítica porque amor é consciência. É a gênese das desconstruções, do livrar-se da sobrecarga, do silêncio necessário para entender as causas, enxergar onde tem errado, ter coragem para abrir mão do que precisa ficar para trás.

Jamais abandone as pessoas, ainda que em alguns casos a distância seja necessária. Jamais se omita diante da necessidade de alguém, mesmo que existam situações onde o silêncio é mais eloquente. Nunca mate outro ser humano dentro de você, mesmo que seja importante afastar-se.

Desapego é enxergar-se no que te aflige, seja o que for, abrir mão do sentimento de vítima, entender aonde alimenta os processos e assumir que não precisa ser assim. É pacificar-se e prosseguir, amando as pessoas em liberdade, deixando as correntes pelo caminho.

Não quero existir

“Me sinto culpada, ingrata talvez, por às vezes não querer existir. Uma vontade de parar tudo e voltar pra um lugar que não sei onde é… voltar pra onde vim ou simplesmente deixar de ser… se é que isso é possível. Você também não se sente cansado de vez em quando?”

– Sim, muitas vezes. Então me lembro que a existência é mental. A mente existe, se cansa, deixa de existir.
Não creio que essa seja toda história. Acho que nós “somos” e não simplesmente “existimos”.
Ser vida é uma condição e não necessariamente uma existência, pois tudo o que existe um dia deixará de existir. O que existe é o ego, mas o ego não é.
Com frequência nos cansamos da mente, nos cansamos dos pensamentos,cansamos de sustentar a persona que nem sempre se encaixa com nosso íntimo, sentimos saudade de casa, a casa que somos.
Lembre-se: O que cansa de existir é sua mente. São seu pensamentos é a crença que alimenta a seu respeito que tantas vezes entre em conflitos.
A boa notícia é que você não se limita ao personagem, você é, e isso está além de nossas compreensões mentais. A mente se cansa, é natural, mas não acredite nos pensamentos, nem fique neles. Lembre-se de quem é e o descanso virá com naturalidade.
A consciência que se renova como uma noite de sono depois de um dia atribulado.
Um banho depois de praticar exercício.
Um abraço na noite em que estamos sozinhos.
Fique bem.