A revolução dos bichos no Brasil.

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George Orwell publicou “A revolução dos bichos” no ano em que meu pai nasceu. Há setenta anos.

Ele conta a história de animais cansados de serem oprimidos que tomam o poder na “Granja solar”. Entre eles há os mais articulados, porcos, que assumem o comando e logo tratam de criar slogans e mandamentos que vão se modificando na medida dos seus interesses : “Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros” – é um dos mais emblemáticos.

É interessante notar os processos de mutação. Animais antes solidários com a causa de todos, relativizam ideais, modificam-se até se tornarem exatamente iguais, ou talvez piores, do que seus antigos algozes. (que no fim se transformam em parceiros)

Não importa se a revolução é dos bichos ou dos humanos (bichos que não sabem que são), o fato é que enquanto as causas forem exclusivamente ideológicas, baseadas em interesses,  repetiremos a saga do porco que se humaniza, do sociólogo que pede para esquecerem o que escreveu, do metalúrgico que vira burguês, da guerrilheira que vira madame.

Aqui no Brasil o governo finge que a crise se limita a “pessimismo” e “perseguição”. Não dá respostas concretas e justifica o mal feito como uma criança flagrada roubando doce se apressando em dizer: “Mas por que você me critica se o Zezinho também roubou na semana passada? É perseguição!”. Como se um erro relativizasse o outro.

Isso alimenta a crise. Especialmente diante do fato de que o atual partido que governa o país critica posicionamentos idênticos aos que fizeram a vida inteira antes de serem situação: ateando gasolina nos incêndios, usando palavras de ordem, pedindo a cabeça de todos, sem medidas, sem investigações, sem bom senso. Naquele tempo era ódio e perseguição também?

Por outro lado a população cansada protesta. Foca a artilharia na presidente, elege seus heróis, mas talvez não perceba que todo esse esforço político pode não ser suficiente.

Como no livro de George Orwell a história prova: os “porcos” viram “Sr Jones” quando tomam o poder. É quase sempre assim.

Valem os protestos. Vale a crítica. Vale o voto. Vale o debate. Tudo faz sentido desde que seja precedido por renovação de consciência. É enxergar-se além das políticas e embates ideológicos e assumir sua parcela nas escolhas cotidianas, nas prioridades, nas posturas que reforçam padrões que gostamos de criticar, mas evitamos assumir que refletem o que somos.

Eu sou um pouco do Lula. O Cunha reflete um pouco do meu olhar. O mesmo para a Dilma, o FHC, o Aécio, o Collor, o Renan, sim, todo esse povo me reflete e a melhor maneira para mudarmos os perfis dos que comandam é mudar em primeiro lugar a mente dos comandados.

Em tempos de debates maniqueístas e acalorados, “nós contra eles”, “nós perseguidos”, “nós justiceiros”, seria melhor se nos conscientizássemos que antes de tudo é preciso assumir a mudança que queremos. Para que sejamos exemplo, para que o exemplo da maioria se projete naquela minoria que hoje está em guerra, mas amanhã…

Amanhã sentam-se a mesma mesa e terminam como o fim do livro Revolução dos bichos. Neles não há causas que não sejam próprias, não há compaixão. Nenhum deles acredita no que prega. Nenhum: “Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”

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6 comentários em “A revolução dos bichos no Brasil.

  1. Nesse jogo de cartas marcadas,só quem perde é o povo,Nada vai mudar…sempre seremos porcamente humanos!!

  2. Outro dia eu critiquei que toda ” toda unanimidade é burra” porque acredito que a unanimidade é acima de tudo carente, no mínimo de informação.
    Agora eu digo que todo poder é em causa própria, pois este não trilha o caminho da consciência global.

    abraços
    Mp

  3. Pois é gente, e eu pergunto: como e quando vamos ” assumir a mudança que queremos”!?

    Texto brilhante Flavio!

    Abraços a todos.

    Maria José 🙂

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