Corpos e almas

Antes que as ideias virassem palavras, se encaixassem no texto, na poesia, no bilhete, antes que fizessem sentido, elas já habitavam as consciências. Era um estágio de gestação, os membros ainda não tinham se formado, nem tudo estava claro e elas vieram, dando luz ao que já existia, manifestava-se de algum jeito, mas parecia apenas uma sensação, algo distante e difícil de descrever.
 
Letras são corpos habitados por almas. Mensageiras do que as transcende e jamais caberá em nenhum vocabulário. Envelopes portando cartas, palavras carregadas de vida ou de morte, assim como os corpos.
 
Não somos o braço, nem a perna, nem o rosto bonito, cuidado, simétrico, nem as rugas, não estamos contidos na estética que apenas embala a “coisa” que não tem nome e Mario Quintana descrevia que é justamente aquele que pergunta se alma existe.
 
Antes que houvesse filosofias, muito antes das religiões, das teorias, das ideias que viraram palavras, das palavras que viraram corpos, dos corpos que viraram outras coisas, antes que uma coisa levasse à outra e construíssemos nossos muros, corpos de concreto que precedem o cimento, eram o medo, a culpa, a dor que virou guerra, presunção encarnada, palavras sem alma, ocas e ao mesmo tempo sedutoras, antes que se apresentem como vemos, nasceram em nós.
 
São almas gestadas no terreno da consciência, às vezes nos porões da inconsciência, entes que nos preenchem, se relacionam conosco e se transformam no que somos, no que são, e ganham corpos, se vestem de letras, encarnam nossas produções, nossa cultura, em tudo o que vemos, manifestações que expressam o que as transcende e o que nos habita.