Não acredito na nova era

Não escondo de ninguém meu ceticismo em relação a tal nova humanidade da nova era. Tem muita gente que vê. Eu não.

Confesso que me esforço e tudo que vejo são movimentos naturais de avanço tecnológico, cientifico, aprimoramento de leis, debates sobre ética, mudança de linguagem, mas, adiante, depois de determinadas fronteiras, vejo a humanidade exatamente igual ao que sempre foi.

Jesus seria crucificado novamente. Os mártires seriam os mesmos e a resistência em quebrar paradigmas se expressa eloquentemente em nossos valores politicamente corretos, em nossa resignação em nos mantermos como sempre. Veja a política, veja as religiões, veja a sociedade.

O que há de promissor a não ser pequenos movimentos promovidos por indivíduos? Há muita gente do bem e reconheço a importância de tantos que trabalham para minimizar o sofrimento do outro, mas, vejo esses vaga lumezinhos como um beijar flor apagando o incêndio em uma floresta. O fogo continuará.

Rubem Alves dizia o seguinte: “Sou um construtor de altares. Construo meus altares à beira de um abismo. Eu os construo com poesia e beleza. Os fogos que acendo sobre eles iluminam o meu rosto e aquecem o meu corpo. Mas o abismo continua escuro e silencioso.”

Quando escrevo meus textos, faço a rádio ou gravo meus vídeos sei que o máximo que posso fazer é falar com uma minoria interessada, mas o abismo continuará lá.

É por isso que meu trabalho sempre será para minorias. Jamais serei popular, a não ser que mude meu discurso e comece a dizer o que as pessoas querem ouvir. A consciência de que a massa sempre será massa, informe, instintiva, inconsciente, me tira a avidez de penetrá-la.

Apesar de minha incredulidade em relação as massas, creio nos indivíduos.

Como sempre aconteceu na história, esses serão em menor quantidade, terão dificuldades em serem compreendidos por um numero maior de pessoas, serão vistos como utópicos ou sonhadores. Indivíduos não aderem às massas porque não aceitam modelar-se. As massas tendem serem homogenias, os indivíduos não. Esses preferem manterem-se íntegros na própria consciência e, por isso mesmo, reconhecem o movimento da vida, as quebras de paradigmas e sabem que tudo acontece dentro, no secreto, em simplicidade.

Não precisam da legitimação das massas, são indivíduos e, por isso mesmo, projetam sua individualidade em direção ao outro, não como “humanidade”, mas como humano, como gente. Não posso ajudar a humanidade, mas posso ajudar um humano. Meu discurso é dissolvido com facilidade no meio das vozes da humanidade, mas, entre humanos, ele penetra.

Quando vejo uma multidão não vejo ninguém, mas se quiser, nela, verei indivíduos.

Quem pensa assim não adere a nenhum movimento de massa (esses sempre massificarão mesmo os bem intencionados), não elege mestres, não admite fixar-se, seja na mais “iluminada” das ideias. Aceita que a vida é movimento e caminha.

Esse enxerga o abismo onde constrói altares, mas como o poeta, sabe que tudo o que pode fazer é iluminar o próprio rosto e permitir que essa luz ilumine quem está perto. Lá embaixo a escuridão continuará. Um altar a beira de um abismo.

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8 comentários em “Não acredito na nova era

  1. Falou e disse, Flávio. Concordo contigo.
    Acompanho seu trabalho há algum tempo.
    Parabéns por expressar com liberdade a sua visão do mundo e da vida. Continue! Precisamos de vc!
    Um forte abraço!

  2. Uns dos mais belos textos que já li, um espetáculo. Más não desista de ser você mesma., só assim você ficará bem com si mesmo. Muito bom, excelente. ganhei meu dia. Grande abraço. João Neto.

  3. Flávio, boa tarde!

    Esse texto resume um dos assuntos abordados por você no programa de sexta-feira (06/11/2015), que na minha opinião foi incrível. Tentei ouvir na íntegra pela manhã, mas não foi possível, só consegui na madrugada e reafirmo ser uns dos melhores. Coloca no youtube…please, please, please…kkkk.
    Voltando ao texto… apesar de tantos exemplos na história da humanidade, sejam eles bons ou ruins, apesar da tecnologia e ciência estarem bem avançadas, o homem ainda não consegue trabalhar a essência de seu SER, ainda escolher viver centrado no egoísmo. E como você, acredito na evolução do indivíduo e não da coletividade.

    Gratidão amigo!

    Maria José 🙂

  4. Desde que nos encontramos nas redes sociais, tenho aprendido muito a lidar com meus questionamentos,principalmente porque me identifiquei com à forma de você dizer que para um questionador ou vagalume, qualquer resposta é vazia, não convence quando não corresponde dentro,até as idéias iluminadas tem prazos e nada a satisfaz à mente por muito tempo, é questão de tempo até que o vazio se instale e as buscas recomecem.
    Então é algo muito fantasioso acreditar na nova era, com seus alicerces cravados na política, religião e sociedade.
    Acho que passamos por trasformações e amadurecimento em relação à época, tecnologia etc… Mas do meu ponto de vista a mente,o corpo e sentidos não são capazes de resolver essa incógnita. Nunca chegaremos à um ponto só. Concordo com o José Saramago “Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”.
    Deixo o meu silêncio como resposta. Já são quase dois anos te acompanhando Flávio e as coisas mudaram demais, dentro de mim é uma dimensão que se expande e que me assusta muitas vezes. Mas fora, apesar de tudo que tenho vivido, está tudo igual.
    Tenho minha paz e isso parte do meu “entendimento instintivo ” em relação à vida que não se pode explicar em palavras. Nunca deixaremos de aprender porque as coisas nunca deixarão de mudar,tudo é ilimitado e as possibilidades não se pode calcular, ainda que nos esforçamos em construir novos hospitais, as filas estarão em crescimento constante do lado de fora, tbm vejo assim Flávio. Me sinto muitas e muitas vezes com o esse beija flor .
    Desde que suas postagens fizeram sentido pra mim, me vi tantas vezes tentando esquece las, mas não é possível voltar a ser o que se foi antes,porque o preço que pago é alto e as vezes desanima .
    Está havendo uma mudança tecnológica e etc…Cenários estão se alterando, mas ainda continuamos iguais. Essencialmente sedentos por respostas,

  5. …”Tenho minha paz” … No fim das contas, Hellen, é isso que importa. A paz sacia, mesmo sabendo que as perguntas são infinitas, mesmo consciente dos prazos de validade, das inevitáveis mudanças que estamos expostos, mudanças nossas, dos outros, do mundo, mas, então “tenho minha paz”, essa que não precisa acolher todas as respostas na mente, que sabe que não sabe mas descansa ao intuir que todos os mistérios da vida e da morte se projetam no mais simples grão de areia, na gota d´água, dentro da gente. No dia em que descobrimos isso finalmente descansamos conscientes de que tudo o que temos, tudo o que somos, se projeta nesse inexplicável lago de paz. Obrigado por compartilhar-se! Caminhemos.

  6. Olha ai querido Flávio, são muitos os indivíduos quebrando paradigmas, são muitos aos pés dos altares! Li hoje no facebook, logo após estar lendo seus artigos e, me causou enorme alegria e esperança! Abraço, Eliana.

    Pra cada terrorista que perpetrou a matança hoje em Paris tem dezenas de taxistas levando as pessoas de graça pelas ruas e outras dezenas de parisienses abrindo suas casas para desconhecidos. Para cada executivo da Vale tem dezenas de pessoas doando água e alimentos para os atingidos em Mariana e Governador Valadares. Para muitas tragédias em zonas de conflito (não vou dizer todas) tem uma equipe do Médicos Sem Fronteiras trabalhando graças a doações de pessoas como eu e você. Para cada executivo da indústria cultural querendo barrar a liberdade na rede existem dezenas de pessoas legendando episódios de seriados e filmes de graça, compartilhando música e informação. Para cada pessoa que escreve hashtag bolsomito tem um exército de miçangueiros sendo treinados nos bancos de Humanas. Para cada Eduardo Cunha tem dezenas de coletivos indo as ruas defender os direitos das minorias. Para cada calça saruel que é confeccionada em grandes lojas que utilizam mão de obra escrava tem dezenas de jovens criando moda própria e sustentável. Para cada playboy queimando morador de rua tem gente da mesma idade recolhendo alimentos para asilos, creches e orfanatos. Para cada menina que sofre bullyng por causa do peso ou do cabelo surgem novas meninas gritando foda-se. Para cada pensamento de ódio tem bilhares de pessoas emitindo pensamentos bons em forma de oração, mantra, reza, batuque, energia, vibração ou só pensamento mesmo. Se você acha que a Humanidade piorou muito pegue um livro de História. Volte no tempo 500, 1000 ou 2000 anos e me mostre quando tivemos paz? Hoje temos poderio bélico inigualável e informação que circula. Essa é a diferença. E pelo menos ainda há o espanto. Há 1000 anos seria tudo normal.
    Em suma: não é que o Mal venceu. Ele só tem uma equipe de marketing melhor. Emoticon wink
    E olha que eu nem sou otimista…

    Aline Andrade Pereira

  7. Parabéns, concordo. Eu acompanho seu trabalho na Rede social e desde que conheci minha vida mudou… Pois a mente se expandiu.GRATO.
    “Continue com esta sua sede de trabalho e saciara a si e ambos”.

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