Tornado em Porto Alegre

TORNADO EM PORTO ALEGRE/ LIÇÕES DE SOLIDARIEDADE: Depois de uma tarde de calor descomunal, a noite de sexta feira trouxe a esperada chuva. O clima amenizou, pelo menos em relação a temperatura do ar, mas o que viria na sequencia elevaria os ânimos e colocaria uma cidade inteira de pernas para o ar.
Primeiro um temporal intensificado pela força dos ventos. Raios cada vez mais próximos geravam estrondo no céu, alguns atingindo árvores que simplesmente partiam ao meio. Estava ficando claro que não se tratava de uma tempestade qualquer. A luz, intermitente, cai por completo e Porto Alegre fica às escuras. No trânsito ruas alagadas, semáforos desligados, visibilidade reduzida pela falta de luz e excesso de água. Motoristas amedrontados param onde podem, mas o risco é grande: árvores, dezenas delas, despencam, tetos de postos de combustível desabam enquanto o vento que era forte, ultrapassa os 120km por hora.
Janelas de casas e apartamentos estilhaçadas, telhas arrancadas com violência espalhadas por avenidas que mais parecem rios. Moro no último andar de um prédio que também perdeu parte das telhas. Desde sexta feira há goteiras por todo apartamento, especialmente pelas saídas de luz. Funcionários de um grande hospital em desespero tentando remover pacientes das várias alas com janelas destruídas pela força do vento, enquanto, segundo um enfermeiro em entrevista à uma emissora da capital: “… fazíamos o que podíamos, mas um tornado invadiu pelas janelas quebradas os quartos e corredores do hospital. ”.
Perto dali seguranças de um dos mais importantes shoppings da cidade tentam impedir que uma das portas de vidro exploda, assim como aconteceu com parte do teto de vidro que não resistiu à força dos ventos e desabou. Não conseguiram evitar.
A porta virou estilhaço, ferindo os homens, um deles precisou de 25 pontos.
Foram quase 60 minutos de pânico entre morados absolutamente impotentes diante da força da natureza sem limites, que consumia quase tudo por onde passava.
Emissoras de rádio relatavam o caos, apresentadores e ouvintes assustados tentavam entender o que estava acontecendo e descreviam os estragos diante dos próprios olhos. Os vidros das janelas do grupo Bandeirantes explodiram, jornalistas da rádio Gaúcha pediam aos motoristas que não estacionassem no posto de combustível ao lado do prédio da RBS e jornal Zero Hora. Parte do teto já havia caído.
No dia seguinte moradores assustados verificavam o saldo da madrugada. Centenas de árvores espalhadas pela cidade bloqueando avenidas, fios de postes caídos, muros no chão, telhas espalhadas por calçadas, semáforos inoperantes, a cidade sem luz e sem sinal de celular.
Horas depois ainda falta luz, falta água e sobram discursos de autoridades que anunciam centenas de funcionários ligados a defesa civil, trânsito e policiamento, no entanto, quase não são vistos por ruas que mais parecem abandonadas.
Hoje é domingo à tarde e a cidade continua praticamente da mesma maneira, sem luz, sem água e cheia de árvores caídas por todos os cantos. Ninguém dá previsão do restabelecimento da normalidade.
Como nem tudo é tragédia, em tempos difíceis aflora a humanidade de gente que normalmente anda distraída com seu próprio mundinho. As pessoas se cumprimentam, compartilham o que estão vivendo, se ajudam como podem. Se não fosse a organização entre vizinhos que se mobilizam pelo bem-estar da maioria, tudo seria mais difícil.
Enquanto as autoridades parecem ficar no discurso fica evidente o empenho de milhares de pessoas que tentam se virar e, mesmo expostos a tanta dificuldade, mostram que o único caminho diante das adversidades é o promovido pela união e engajamento que até parece trabalho de formiguinha, mas não por isso deixa de ser fundamental.
Quando a natureza relativiza nosso conforto e as pessoas deixam de se sentirem diferentes umas das outras, sobra a identificação pela dor e a esperança que nasce da solidariedade, da percepção de que o outro vive o mesmo que eu, logo somos parte de uma coisa só, mesmo que seja de um problema maior.
A esperança é que daqui uns dias a normalidade seja restabelecida e que Porto Alegre tenha saído do tornado melhor do que entrou. Fiquemos bem.
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Persisto…

…continuo crendo que o amor se expressa em indivíduos que se mobilizam em atitudes desinteressadas e pacificadoras. Creio nos pequenos gestos e na resistência cotidiana de quem não se apressa em julgamentos ,mas aquieta para enxergar.

Contrações

Nascemos, e na sequência entramos em contrações. Não as contrações das mães, mas as nossas que não cessam. Contrações de parto no mundo que muda, na mente que expande, em profundas e constantes modificações de perspectivas. Estamos sempre em contrações. Sempre tentando ver luz na fresta, nascer e saber afinal o que é o mundo e o que somos nós, no mundo.
Penso que felicidade é uma deliberação e tem a ver com isso. Contrações de dor, abrir mão do conforto do útero, entregar-se ao movimento que nos traz à luz, que nos ajuda a nascer.

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O que não cabe em mim

Os mares não cabem em mim, nem o céu pode ser reduzido à minha compreensão. Não sei as medidas do infinito, nem o significado de eternidade, mas estranhamente tudo o que não sei, cabe em algum lugar de minha consciência e a preenche. Me empresta significados que eu jamais saberia explicar e mesmo assim se projeta em aspirações tão intimas, tão pessoais, tão presentes em tudo o que sou.