Sobre a polemica dos textos racistas de Fernando Pessoa

Agora há pouco li uma matéria no jornal Zero Hora discutindo a polêmica em torno de declarações racistas feitas pelo poeta Fernando Pessoa.
O texto foi reproduzido por um escritor em sua página no FB e causou, segundo o jornal, “estarrecimento” nas redes sociais.
Houve gente dizendo que deixaria de ler o poeta, outros questionando toda sua obra, muitos se posicionando de maneira ofensiva contra o português que morreu em 1935.
Fiquei pensando em nossa necessidade amedrontada e ao mesmo tempo politicamente correta de que seres perfeitos nos representem. Cada um de nós conhece as próprias contradições, admitimos em público que “ninguém é perfeito”, isso vale para todos, menos para os tais “ungidos”. Esses recebem a admiração como fiadora, uma espécie de contrato silencioso que os torna reféns da necessidade de catarse das massas. Quando a humanidade vem a tona o contrato é desfeito e os seres antes perfeitos se transformam imediatamente em “traidores” da expectativa adoecida e cruel. É ai que tem a chance de se libertarem, por mais dolorido que possa ser.
Não gosto de ideias racistas. Seja em relação aos negros, gays, muçulmanos ou seja lá quem for. Preferia que Fernando Pessoa não tivesse escrito coisas do tipo e reconheço que aquele homem era fruto de seu tempo. Apesar de tudo surge a possibilidade de encarar suas rugas, tirá-lo do pedestal para que conheçamos o homem como reflexo de nossas próprias faces e então enxergarmos a nós mesmos.
A matéria termina assim:
“É doloroso descobrir que um ícone literário tenha um lado tão sombrio. Portanto, o nosso desafio como leitores é o de sabermos separar a obra do autor, pois antes de ser poeta, Fernando é humano com toda a complexidade e contradição que ele carrega. A indignação e a decepção com Fernando Pessoa é válida e necessária porque nos aproxima dele e nos afasta daquela figura mítica e sobrenatural, ao mesmo tempo em que resgata a humanidade que há em nós ao refutarmos seus textos racistas e misóginos. A discussão foi posta, mas não percamos de vista a literatura. Guimarães Rosa já cantava essa pedra: “Às vezes, quase sempre, um livro é maior que a gente.”

É um desafio não apenas para leitores, mas, sobretudo, para humanos que, antes de atirarem a primeira pedra, reconhecem que em cada um de nós há luzes e sombras, há partes publicáveis e outras que não gostaríamos de publicar,que somos compostos do que nos parece bem e do que tantas vezes entendemos como mal. É somente reconhecendo essa ambivalência, antes de tudo em nós mesmos, que poderemos sair do lugar e avançarmos. Esperar diferente de alguém só evidencia a infantilidade de nossa própria alma. Enxergar a si mesmo já dá trabalho demais.

VII-1
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3 comentários em “Sobre a polemica dos textos racistas de Fernando Pessoa

  1. Fantástico este seu artigo Flavio! Sempre que posso ouço o seu programa e nunca deixo de ver os seus vídeos no Youtube e de ler os seus artigos. Conheci o seu trabalho no ano passado e desde então está me ajudando a ter uma nova percepção da realidade. Recentemente adquiri o seu último livro. Abraço fraterno amigo; e como você diz com muito carinho: “fique bem”.

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