A beleza do mundo

Terminei há pouco de ler um texto do Rubem Alves.  Ele descreve um passeio a cavalo com seu tio “João Gordo”, um homem muito magro, de fala mansa, meio rouca, que ia leva-lo à fazenda.  Os dois saíram logo pela manhã, enquanto a pequena cidade do interior mineiro não havia “despertado para fora”. As chaminés dos fogões a lenha soltando fumaça, cheiro de café coado exalando aqui e ali, indicavam um despertar para dentro.

O ar frio e esbranquiçado de neblina, as ruas desertas, o silêncio interrompido pelo barulho das ferraduras, primeiro batendo pontudas nas pedras, depois abafadas, macias, no chão de terra, um canto de galo bem longe preenchiam o ambiente onde os dois, um no alto dos seus sessenta anos, outro, no alto dos sete, seguiam sem abrir a boca.

Quantas histórias aparentemente sem nada de espetacular estão acontecendo agora enquanto estamos aqui conversando? Quanta magia no olhar de um menino anônimo, deslumbrado com as cores do mundo, os cheiros, os prazeres que apenas a inocência é capaz de promover.

Há homens solitários vivendo experiências únicas em um ponto do mar a espera de peixes. Concentrados diante da imensidão que os cerca não se dão conta da vida que flui com espantosa beleza. Há mais de sessenta anos Hemingway eternizou a história de um velho no mar, e sua luta com um grande peixe espada.

Se pudéssemos vasculhar os pensamentos mais secretos de uma dona de casa qualquer, as que foram marcadas pelo cansaço, enfraquecidas, tristes, identificaríamos traços de memória da menina que foi e nos encontraríamos com seus sonhos de princesa, as valsas, os príncipes que a vida e o marido alcoólatra trataram de enterrar. Nenhum deles morreu, eles apenas foram enterrados, por isso ela vive tão triste.

Nesse momento há uma senhora idosa. Para os que passam apressadamente apenas uma velhinha qualquer.  Sentada em um banco de madeira ela observa em silêncio, pele enrugada e olhos vivos, há chamas por trás das pupilas, há vida enjaulada no velho corpo. Ninguém vê.

O mundo, tantas vezes hostil, é um lugar cheio de poesia. Cabem aos olhos que veem, enxergarem. Cabem as mentes que processam, pensarem. Cabe a nós mais atenção para que reconheçamos nos detalhes das histórias humanas, tão ricas, tão belas, fragmentos de nossas próprias histórias. Em cada história pontos de conexão. Cada uma é um pouco de todas.

Rubem Alves termina seu texto falando sobre isso. Ele evidencia a perda do distraído, reflete como algo tão rico pode escapar do olhar desgastado pelo cotidiano. Poesia não é texto, nem letras, nem rimas. Poesia é um jeito de ver a vida.

“…quem olhasse do alto do morro não adivinharia que invisíveis no branco da neblina iam um homem sem surpresas, curtido pelos pastos e cavalos, e um menino que não sabia nada e estava encantado com a beleza do mundo.”

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10 comentários em “A beleza do mundo

  1. Com toda a seriedade, seu raciocínio está mal fundamentado: Para enxergar a beleza do mundo, é preciso estar num estado exaltado. Uma pessoa que ganha na loteria ou que se encontra apaixonada enxergará beleza em todos os cantos. Quem perdeu um ente querido ou foi diagnosticado com câncer não enxergará beleza em nada.

  2. É isso mesmo, Flávio Siqueira, Existem Muitos Sinais de Simplicidade na Vida que a Nossa Vida Condicionada e Acorrentada na Massa nos Impede de Ver e Sentir. Como Você Sempre nos Diz nos Programas, a Gente acha que a Vida se Resume em Palavras Mortas nas Bíblias, nas Palavras de Líderes Religiosos e dos Gurus que nos Vendem uma Vida Prontinha e Novinha em folha. São nas Coisas Mais Simples que Encontramos as Respostas, é Dentro de Nós Mesmos que encontramos essas Respostas e Todo o Significado da Nossa Existência Não Cabem em Caixinhas. Meus Parabéns Pela Sua Reflexão, Flávio, Fiquemos Muito Bem e um Ótimo Fim de Semana.

  3. Com respeito , opiniões que se utilizam dos extremos, dos polos , dos fundamentalismos , simplesmente não conseguem entender o que a vida comunica. Mentes que processam mas não pensam, estão sempre distraídos. Escravos.

  4. Flávio,
    Você fez uma alusão à algo muito tempo pertido , na minha concepção os seus pensamentos são janelas que estão abertas para a luz entrar;
    Eu tantas vezes passei por situações difíceis e suportei momentos complicados e parei para apreciar o que eu tinha …o meu conforto veio sempre do meu interior do qual me dava a visão de que havia uma esperança e a paisagem iria mudar , percebendo isso passei a ver com outro olhar para o que eu tinha e então conseguia extrair a beleza nesses momentos!!!

  5. Quando saio de casa procuro a beleza das árvores, das flores, dos pássaros. E a cada broto novo em um vaso acho um encanto. Mesmo na tristeza, a natureza é que me alivia.Belo texto. Grande abraço Flávio Siqueira.

  6. Desde que nascemos recebemos tantos condicionamentos e a vida moderna nos estimula a correria que vamos sufocando a nossa Consciência e aí é instalada a tristeza. Só conseguimos realmente apreciar a beleza quando não estamos distraídos, quando a mente esta silenciosa. Meu amigo Flavio, obrigado por estar me ajudando a observar os meus pensamentos e a diminuir o fluxo, aos poucos estou começando a enxergar… Abraço fraterno, um ótimo início de semana e fique bem.

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