Uma fábula de hienas e porcos

fabula
Naquela fazenda os porcos reinavam soberanos. Todos os outros animais pareciam menores e apesar disso sentiam-se enganosamente decisivos no processo que eventualmente renovava o grupo suíno que comandava a comunidade dos bichos.
Também havia as hienas.
Elas viam os porcos com misto de admiração e ódio, combatiam, provocavam, denunciavam e alimentavam em outros animais a ideia de que os porcos não mereciam estar onde estavam. “Fora porcos!” – Era um dos gritos de guerra mobilizadores.
O que os animais da fazenda não sabiam é que os porcos apenas representavam poder. Não eram eles que mandavam, apenas controlavam os outros bichos, exerciam alguma influência aqui ou ali, mas nunca deixaram de se submeter aos homens, os verdadeiros donos daquele lugar.
Houve um tempo em que os fazendeiros resolveram substituir os porcos pelas hienas. Os bichos estavam cansados dos porcos, produzindo menos, talvez com outros animais a produtividade aumentasse já que as vacas davam menos leite, até os cachorros pastores questionavam o serviço.
Como a desconfiança era grande fizeram as hienas se comprometerem em prosseguir no compasso dos porcos, eles até escreveram uma carta aos bichos assumindo que assim fariam e então, com o aval e a sociedade permanente dos fazendeiros que os tutelava, assumiram o reino dos porcos.
Foi uma grande alegria entre a bicharada! As hienas cumpriram o acordo, se misturaram com os porcos, engordaram e, como esperado, a produtividade aumentou, produziu-se um tempo bom naquela terra.
O que ninguém sabia é que, entre as hienas, havia um plano.
Agora que assumiram o poder a ideia era mobilizar os bichos para que pudessem afastar em definitivo os porcos e os homens, donos da fazenda.
Não pensaram isso porque eram justos, mas porque tinham sede de poder, queriam ocupar todos os espaços, queriam aquele lugar, queriam tudo para si!
Uma vez que afastassem os fazendeiros e os porcos, seriam de fato soberanos, se autoproclamariam reis absolutos e eternos, não apenas da fazenda, mas das fazendas mais próximas também.
Os fazendeiros perceberam.
Sabiam que as hienas eram gananciosas e pouco confiáveis, por isso não foi difícil identificar o que os bichos não viam. As hienas desviavam a produção de leite, estocavam para si os lucros da fazenda, enchiam os próprios estoques desmedidamente.
Estabeleceu-se o caos.
Agora os fazendeiros, sempre escondidos, mobilizavam os porcos, as hienas gritavam, negavam, acusavam-se mutuamente.
A maior parte dos bichos decepcionou-se com as hienas, era tudo contraditório demais com o discurso que mantiveram a vida inteira. A outra parte, em menor número, atacava por acreditar que tudo não passava de complô dos porcos insatisfeitos porque as galinhas e os tatus, com o aval das hienas, passaram a circular livremente por áreas que no tempo dos porcos eram restritas.
O que quase nenhum bicho percebia é que tudo não passava de uma guerra pelo poder. Não importa se ficassem as hienas ou se voltassem os porcos, a fazenda continuaria sempre nas mãos de poucos grupos interessados no comando. Sejam os porcos e homens, sejam as hienas: queriam a mente dos animais.
Enquanto galinhas bicavam tatus, vacas antes tão cordiais davam coices nos cachorros, o pavão, confuso, arrumou briga com a garça e os patos se indispuseram com os coelhos, as hienas berravam para manter o controle dos bichos: “não vai ter golpe!”, os porcos, ávidos pelo poder, se misturavam entre os animais, sabotavam, mobilizavam-se para reassumir o comando como se fossem a salvação.
Não sei o que houve depois, os relatos são contraditórios.
Uns dizem que as hienas foram expulsas da fazenda, os porcos reassumiram e voltaram a cometer todas as injustiças de sempre. Outros relataram que as hienas se mantiveram com mais força, mais crueldade e mais poder para fazer o que der na telha, inclusive elegendo uma delas como líder supremo, absoluto, inquestionável.
Passado o alvoroço os bichos continuaram suas vidas, tudo como sempre e jamais perceberam a oportunidade que tiveram.
Não se tratava de aderir à porcos ou hienas, nenhum dos grupos tinha interesse além de manter-se no poder.
Eles perderam a chance de uma discussão mais ampla, de assumirem o poder por serem maioria, de pressionarem seja lá quem estivesse no comando, para que percebesse que os bichos deixaram de ser submissos.
De volta ao cotidiano da fazenda, as galinhas, os tatus, os patos, os cachorros, as vacas, os coelhos e pavões continuavam nas mãos dos que se proclamavam reis.
Parece que os porcos e as hienas fizeram um acordo e continuaram amigos, alternando-se no poder como sempre fizeram.
Os bichos, com a sensação de que tudo estava resolvido, continuavam virando comida ou escravos, eram abatidos, sacrificados enquanto nos sonhos mais secretos continuavam a espera do porco ou da hiena que os tiraria daquele lugar. 
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7 comentários em “Uma fábula de hienas e porcos

  1. Bem, Flávio Siqueira e Vagalumes, nem é Preciso Resumir tanto esta Fábula, pois, é o Reflexo Perfeito dos Nossos Dias Atuais num País que Tem um Sistema exatamente Idêntico ao Citado na Fábula, com Seus Porcos e Hienas e Nossas Vidas Vão Seguindo na Mesma Toada. Um Indivíduo Simples se Sente Feliz por Sua Simplicidade e Humildade, mas, quando o Poder Lhe Cai em Suas Mãos,…? Tudo Muda e Todos os Princípios Morais, Éticos, etc, Vão Tudo por Água Abaixo. Por isso, é Muito Importante pra Todos Nós, Não Deixarmos de Praticar a Nossa Simplicidade e nos Focarmos no que Existe Dentro de Nós, Sem Sermos Santos ou Iluminados da Vida, Não Sairmos Apontando o Nosso Dedo Julgador para qualquer um que Cruzar o Nosso Caminho, pois, quando a Gente Aponta um dedo para os Outros, existem três dedos apontados para Nós. Quem Fala dos Outros está Falando de Si Mesmo, Duvidas ? Experimentem, Reflitam e depois me Contem o Resultado ! Abraços pra Você, Flávio e Vagalumes e que Caminhemos Na Paz Interior, Sendo Nós Mesmos, Sem Sermos Carregados pela Massa Condicionada do Sistemão. “Tudo Muda Quando Muda na Gente 😉

  2. Você está Correto, Luiz Trevisani, uma Inteligência e uma Visão Muito Aguçada da Situação Atual, Meu Amigo. Abraço pra Você e Fiquemos Muito Bem 😀

  3. Pra ficar mais claro só falta ditar os nomes dos personagens, 😀 (brincadeira)
    excelente Fábula.

  4. Bem, Max Ferreira, se Colocarmos os Nomes de Todos, aí Não Vai Caber no Blog e Vai Sujar o Ambiente, Meu Amigo. Abraço 🙂

  5. Sensacional!
    “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”

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