Uma lição de leveza, alegria e amizade

Ontem, no banquinho da praça, esse cara apareceu. Primeiro chegou perto respeitosamente, me observou, queria alguma coisa, mas não dei bola. Mantive o olhar distraído sem demonstrar que percebia a tentativa de aproximação. Depois de algum tempo resolvi encará-lo e em seus olhos havia curiosidade e um irresistível convite. Sorri e ele se aproximou. Mordeu um pedaço de madeira e me trouxe. Aceitei a brincadeira e joguei! Ele correu animadamente e trouxe de volta. Brincamos por alguns minutos, depois ele se distraiu com outra coisa e foi embora. Segui pensando no poder das conexões. Nas comunicações presentes no cotidiano e a empatia que naturalmente nasce entre seres tão diferentes. Voltei mais leve do que cheguei, nem sei explicar direito a razão, mas grato pelo singelo convite do amigo canino que só queria brincar. Ontem graciosamente recebi uma lição de leveza, de alegria e de amizade.

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Para todos

Se a macieira oferta a maçã para quem colhe, seja lá quem for.
Se o frescor da noite depois de um dia abafado esfria os corpos do corrupto e do santo, do “virtuoso” e do “escória”.
Se a morte recolhe jovens, idosos, bebes, carrascos, debeis e “nobéis” com imparcialidade, e a vida acontece em todos igualmente, pois o coração bombeia sem ideologias, os pulmões não procuram méritos, os rins não se importam com raça, se é assim, por que serei tão seletivo ao me relacionar, como se um merecesse mais do que outro?
Por que serei tão apressado diante dos encurralamentos da vida na tentativa de entender a razão disso ou daquilo, como se isso fosse justo e aquilo não? Melhor me esvaziar da tola presunção de quem pensa que sabe e levar em consideração a gratuidade dos processos que não buscam “merecedores”, mas acontecem em liberdade para todos.

Utopias e horizontes

Hoje ouvi a entrevista do Gabeira no Roda Viva e um comentário dele me chamou atenção. Ao ser perguntado sobre quais sonhos alimenta atualmente, o ex militante político, deputado, candidato ao governo do Rio (contra Sérgio Cabral) respondeu: “Nenhum”. Depois emendou mais ou menos assim: “…aprendi que o comunismo e o humanismo são semelhantes a religião. Não quero mais isso. Hoje aceito que as pessoas são imperfeitas e que isso é irremediável. Deixei de acreditar em utopias.” As utopias trabalham com o discurso do ideal, mas o que é o ideal? Talvez as utopias sejam semelhantes ao horizonte. Ele está adiante, mas, se minha expectativa estiver projetada em alcançá-lo, haverá frustração. Utopias podem nos colocar em movimento e isso é bom. É provável que a felicidade esteja justamente no caminho, nos cenários do cotidiano, nos pequenos passos que, distraídos com nossas grandes utopias, nem damos conta. A exemplo de tantos ex sonhadores que existem por ai, insistir nas utopias que pregam o ideal como linha de chegada acaba gerando cinismo ou frustração.

Desaprendendo

Tenho tentado aprender a desaprender. Na imaturidade tudo parece fixo, definitivo demais e a impressão é que parte de nossas lutas é encontrar, e depois provar, a verdade absoluta, seja lá qual for. A serenidade do tempo relativiza esse sentimento e torna nossas verdades mais fragmentadas. Nessa hora você entende que precisa desaprender o que tinha certeza saber, para que novos espaços aconteçam e, neles, aprendizados que não imobilizem, mas provoquem o movimento.